Jaú foi o primeiro avião com tripulação brasileira que
atravessou o Oceano Atlântico, chegando ao Brasil no dia
5 de julho de 1927.
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Seu comandante foi o aviador Ribeiro de Barros que aos 26 anos
de idade, idealizou, organizou, financiou, comandou e executou o
vitorioso vôo, tendo como tripulantes o navegador brigadeiro
Newton Braga, o co-piloto Arthur Cunha, substituído por
João Negrão, e Vasco Cinquini, mecânico.
No momento mais dramático e perigoso do vôo, há 2.400 Km do Brasil -
quando o JAHÚ pousou junto a Ilha São Tiago (em
Porto Praia), arquipélago de Cabo Verde, para abastecimento
e reparos - o piloto auxiliar Arthur Cunha, zarpando para a
Europa, procurou a imprensa para desmoralizar
Ribeiro de Barros aquele que o havia contratado até o término
do percurso. |
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As declarações impulsivas ou distorcidas pela imprensa,
de Arthur Cunha tiveram grande repercussão internacional,
criando até um problema diplomático, entre a Espanha
e o Brasil. Após descobrir água, sabão caseiro e areia nos
depósitos de combustível, o comandante Ribeiro de Barros resolveu
desmontar os motores do hidroavião, encontrando também um pedaço de
bronze no fundo da cárter do propulsor, colocado ali com
o propósito de danificar o conjunto mecânico e provocar a
interrupção do vôo. |
Todos esses fatos tornaram-se públicos e o governo brasileiro envia um
telegrama ao comandante do JAHÚ, em Porto Praia,
ordenando-lhe que interrompesse o reide, encaixotasse o aparelho e
retornasse ao Brasil.
Indignado pelo teor do texto, responde prontamente pela mesma via:
Exmo. Sr. Presidente. Cuide das obrigações de seu cargo e não se
meta em assuntos dos quais Vossa Excelência nada entende e para os quais
não foi chamado. Ass. Comandante Barros.
Num gesto admirável de renúncia, sua mãe, Margarida Ribeiro de Barros,
compreendendo a angústia do filho e a ansiedade da alma brasileira,
envia-lhe do Brasil um telegrama que passaria a fazer parte da
História do JAHÚ:
"... Aplaudimos tua atitude. Não desmontes o aparelho... Paralisação de
reide será fracasso. Asas avião representam Bandeira Brasileira...
Bênçãos de tua mãe, Margarida."
Osório Ribeiro, irmão do aviador, contrata no Brasil um
novo co-piloto, João Negrão, e segue com ele para Cabo Verde.
Ao deparar com o comandante do JAHÚ, magro, pálido e debilitado
pela quarta crise consecutiva de malária, tamanhas adversidades e
provações do irmão, não contém as lágrimas.
Dia 28 de abril de 1927 - Quatro e meia da madrugada.
A população da Ilha de São Tiago (Cabo Verde), acorda
sobressaltada com o rugido ensurdecedor de 1.100 HPs (550 em cada motor)
de potência a plena rotação, cuspindo fogo pelas 24 trompas de escape e
tal qual um monstro enfurecido vai rasgando uma a uma as ondas para
depois apoiar-se nas asas e alçar vôo. O JAHÚ contorna repetidas
vezes a ilha, para ganhar altura, enquanto as luzes do povoado se
acendem lá embaixo e vão ficando para trás...
Trazendo o manche em direção ao peito, Ribeiro de Barros grita aos
companheiros: "apaguem todas as luzes de bordo. Eu quero ver o
Cruzeiro do Sul, mesmo que seja pela última vez."
Tempestade... ventos fortes sacodem o JAHÚ.
A água gelada arremessada pelas hélices penetram a carlinga aberta,
escorre em abundância pela blusa de couro, encharcando o macacão e botas
do comandante Barros e se deposita no assoalho da cabina de comando.
Um forte estampido, seguido de um abalo na aeronave, põe em alerta a
tripulação. O JAHÚ que demonstrara tanto vigor até aquele instante,
começa a acusar sinais de cansaço. A hélice traseira sofrera uma avaria.
Barros pede calma aos companheiros, enquanto reduz para 500 RPM o
motor traseiro vagarosamente, testando a resposta do avião. Ato contínuo
arremete para 1.500... 1.600... 1.700 as rotações do motor dianteiro. O
avião encontra-se no limite da sustentação aerodinâmica, mas, o
altímetro continua estável: 250 m de altura. A altitude média dessa
histórica viagem foi de 300 metros, numa velocidade de 190 K/h - recorde
absoluto por dez anos consecutivos.
O navegador que estava debruçado sobre a carta geográfica, mal podendo
manipular régua e compasso, levanta o braço direito com o punho cerrado,
esmurrando o espaço - num gesto ritual de vitória - e grita:
atravessamos o Equador... Em seguida passa ao Barros,
através do Negrão, um bilhete com as letras trêmulas - LAT 2 º. S.
Barros esboça um sorriso e anota no verso: "450 litros" e devolve
ao Braga.
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O JAHÚ faz um pouso triunfal em águas brasileiras, na enseada
Norte da ilha de Fernando de Noronha. Nos tanques, restavam
ainda 250 litros de combustível, como atestou o comandante Nisbet,
no navio Ângelo Toso, de bandeira italiana, que presenciou à
distância a amerissagem. |
Foi a conquista da raça brasileira nos domínios do espaço, sendo esse
feito reconhecido mundialmente na época e o aviador brasileiro recebeu
condecorações, honrarias, diplomas e prêmios de inúmeros governos
estrangeiros.
Dez anos depois do vitorioso vôo do JAHÚ, a Liga Internacional dos
Aviadores (LIA), sediada em Paris, França, concede ao
comandante Barros a mais importante de suas condecorações, o
troféu Harmon, como prova de reconhecimento, ao mesmo tempo em que o
nomeia para o cargo de vice-presidente da LIA.
No Brasil, as homenagens e manifestações de júbilo aos tripulantes
do JAHÚ arrastaram-se por meses seguidos, conforme documentam as
publicações da época.
Em 1930 João Ribeiro de Barros adquire na França um avião
Breguet e o batiza com o nome de sua mãe, Margarida -
falecida no ano anterior - com o fim de realizar um vôo do Rio de
Janeiro a Paris. Quando se dirige ao Campo dos Affonsos,
para iniciar a viagem, proíbem-lhe o acesso ao aparelho. Seu avião é
confiscado por ordem do governo, para ser usado contra as forças
paulistas na revolução que acabara de eclodir.
Encontra-se Ribeiro de Barros em sua fazenda, quando é
surpreendido pela presença do delegado Amazo Neto acompanhado
por oito investigadores. Dão-lhe voz de prisão, sob a alegação de
estar ele, Ribeiro de Barros, publicando um jornal
clandestino contra a ditadura Vargas.
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Vasculham sua casa em Jaú e transportam-no, escoltado, para
São Paulo, onde dão busca em seu apartamento. Nada constando
contra ele, dão-lhe de novo a liberdade.
Volta o aviador jauense para sua fazenda Irissanga, onde nasceu em
4 de abril de 1900, profundamente abalado, remoendo com resignação e
silêncio as adversidades e as mazelas humanas. Morreu nos braços de seu
irmão Osório, em 20 de julho de 1947. |
Fonte: História Heróica da Aviação (José Ribeiro de Barros),
Asas ao Vento (Newton Braga), João Ribeiro de Barros (José Raphael Toscano),
A Epopéia do "JAHÚ" (Deputado Hilário Freire), Asas Brasileiras
(Gerson Mendonça), Jornais e Revistas (Da época - anos 20, Séc. XX),
A. Charles Rodrigues - charles@promotur.com, José Raphael Toscano (15/05/97),
Alex Pinheiro Machado Rodrigues - alex@bsbnet.com