Cristiano Lacorte, jovem líder da turma do Posto Cinco, no final dos anos 50. Mais tarde foi eleito vereador.
O texto abaixo de João Saldanha, extraído do livro "Futebol e Outras Histórias", edição especial para a
agência de publicidade MPM, São Paulo, 1988, pág. 139, conta um pouco da história da turma do Posto Cinco.
"No Rio vários e vários pontos ficaram famosos. Mas nenhuma esquina seguiu a fama da esquina da
rua Miguel Lemos com avenida Copacabana. O prefeito no começo era o Cristiano Lacorte, já falecido. Cristiano, paraplégico, usava cadeira de rodas mas comparecia a tudo. Futebol, turfe, samba, comícios, tudo.
A turma resolveu e Cristiano foi um dos vereadores mais votados do Rio de Janeiro.
Depois, aquela esquina elegeu o Paulo Alberto, o Artur da Távola, e o Edson Khair. Nestas últimas eleições, Macaé, o atual "prefeito", apoiou Brizola, depois Saturnino e a Alice Tamborindegui. Todos foram eleitos. Não que a esquina tenha sido decisiva, mas de qualquer forma demonstra sua profunda sabedoria e experiência política.
Uma série de fatos e ocorrências fizeram a esquina sempre mais famosa.
Ali teve e tem de tudo. Andou sendo proibido o carnaval organizado nos
bairros. Menos ali, onde começaram bailes infantis e depois com tablado,
orquestra e tudo, bailes de marmanjos. O futebol é um dos grandes
assuntos da esquina, mas nunca saiu briga séria por este lado. Uma
democracia plena existe lá até hoje. Os mais consagrados craques do
futebol, locutores esportivos e outros fazem ponto na esquina. E
personalidades de "alto bordo", como juízes, dirigentes de clubes e das
principais entidades esportivas do pais. A esquina sempre esteve
presente, ora por uns ora por outros, a todos os grandes fatos ou
eventos nacionais e internacionais. E quando apareceu no Rio de
Janeiro um programa de televisão chamado o "Céu é o limite"
vários representantes da esquina foram lá ganhar prêmios grandes.
Havia piadas, apelidos sérios, e mesmo quando, após a revolução de
64, mandaram espiões para evitar qualquer propagação de idéias, em
pouco tempo os "espiões" estavam integrados ao espírito
comunitário e democrático da esquina.
Houve um importante delegado especializado em política que
dizia, quando o papo esquentava: "Bem, tenho de ir andando porque minha
velha está me esperando." E caía fora. De fato não seria conveniente
ficar ali. Denunciar quem? E depois ter de sair dali?
Um dia, a esquina inteira se mobilizou. Foi quando um edifício ali perto
foi apelidado de "edifício Silhueta" . Já era mais de meia-noite
quando chegou na roda um garoto, com os olhos maiores do que um pires
e disse, gaguejando: "Ali naquele edifício tem um casal... eu acho.
Estão lá dentro, mas se vê tudo da rua." Era sábado e a roda estava
imensa. Até dividida em duas ou três rodinhas de papo. Um fundador do
Botafogo, um dirigente atuante do Fluminense, ex-jogadores
do Flamengo, do Botafogo, e do Vasco, médicos,
advogados, dentistas — dentistas então sempre estavam uns três ou
quatro — estudantes de várias escolas, comerciários e comerciantes,
todo mundo. Casa cheia. Todos correram na direção que o tal garoto
indicara. A
avenida Copacabana encheu.
Veio o ônibus e teve
de parar. Passar como? O chofer ia entrar na bronca, mas um dos
organizadores da pequena multidão, que já estava se acotovelando, com
gestos bem significativos, fez ver ao chofer do ôn1bus o que se passava.
O chofer entendeu logo e ficou na paquera do lance. Algum passageiro
estrilou, mas ele, sem tirar os olhos do lance, mostrou o que se
passava. E o casal mandando brasa. A porta estava fechada. Mas a luz do
saguão ou hall de entrada estava acesa. Bem acesa e forte. A porta era
vidro fosco. Ora, a luz por trás do casal transmitia para a turma da rua
a mais perfeita silhueta que se poderia desejar. E foi juntando gente.
Um gaiato quis fazer onda, mas um tremendo e severo "psssssiu" lhe tapou
a boca. Parecia uma tropa de comandos ou de assalto pretendendo pegar o
inimigo desprevenido. Com o ônibus parado e mal parado, os carros iam
parando e as indicações sempre diretas apontando para o evento e pedindo
silêncio. Todos compreendiam logo e até casais que iam passando paravam
para olhar a cena inédita. De repente, o casal lá de dentro parou
rapidamente. A mulher, que estava sempre abaixada, meio de quatro, se
arrumou depressa. A rua ficou no mais profundo silêncio. Um segurando o
outro para ninguém invadir o lugar privilegiado de alguém que chegara
primeiro. Mas não era nada de mais. O elevador fora acionado, o casal
atuante teve de parar e de dentro do prédio saiu um cidadão. Uma vaia
chegou a ser ensaiada, mas o "sinal" de silêncio foi mais forte.
O cara saiu, ficou meio atônito de ver a rua tão cheia. E, ante os gestos
e vozes surdas de "cai fora... cai fora..." , olhou para trás
e entendeu tudo. Procurou se ajeitar ali pela frente, mais foi
energicamente barrado. Arrumou um lugar mais atrás e toda aquela
pressa da saída do edifício desapareceu. O casal lá dentro engrenou
de novo. Do começo.
Fizeram tudo e de repente terminou. Um "oh...oh!" se fez ouvir.
O cara do casal se arrumou, ela também. Ele deu um beijinho e veio para
a rua. Mal a porta se abriu, uma tremenda ovação. Bateram palmas e
saudaram o cidadão. Ele, meio aturdido, tomou a rua e se mandou,
sumindo na primeira esquina da
rua Miguel Lemos em direção à
rua Barata Ribeiro.
Desapareceu na noite e o papo bem entusiasmado voltou para a esquina. O
ônibus foi embora e os carros puderam passar.
Fonte: João Saldanha, "Futebol e Outras
Histórias", edição especial para a agência de publicidade MPM,
São Paulo, 1988, pág. 139