Atentado na Rua Tonelero
Folha de São Paulo
São Paulo, terça-feira, 10 de agosto de 1954
Neste texto foi mantida a grafia original
NÃO PRETENDE RENUNCIAR O PRESIDENTE DA REPUBLICA
A crise politica e a situação militar - O sr. Osvaldo
Aranha teria dissuadido o sr. Getulio Vargas do
proposito de afastar-se do governo - Reunião do Catete
Os brigadeiros reafirmam sua confiança na
identificação e punição dos criminosos
RIO, 9 (Pelo telefone) - Longe de declinar, a crise
politica oriunda da emboscada contra o jornalista
Carlos Lacerda, na qual morreu o major Vaz, da
Aeronautica, continua a se agravar. As sucessivas
reuniões de autoridades civis e os dirigentes
militares de todas as armas, as hesitações do governo
nas substituições de algumas personalidades já postas
de lado, as noticias que transpiraram de duas reuniões
- uma na residencia do almirante Amaral Peixoto, outra
no Palacio do Catete, numa das quais o presidente da
republica chegou a admitir, como solução da crise, o
seu afastamento do governo (o sr. Osvaldo Aranha o
teria dissuadido disso) o calor da reação parlamentar,
a intranquilidade no seio e da população, a onda de
rumor e boatos constituem um conjunto de sintomas da
gravidade a que atingiu a situação.
O ministro da Justiça, em palestra com a reportagem
politica, esta tarde, repeliu as informações sobre o
desejo do presidente da republica de renunciar. Embora
falando em termos não formais, o sr. Tancredo Neves
disse-nos que só diz isso quem não conhece o
presidente.
- "Somente em três hipoteses admite ele deixar o
governo: pela morte, por uma revolução ou pelo termino
normal do seu mandato" - frisou o ministro.
A situação militar
Há a considerar que, nas ultimas horas, a situação nas
Forças Armadas, sob o impacto da virtual rebeldia dos
oficiais da Aeronautica, se consolidou no sentido de
que parece superada a existencia de grupos, selando-se
novamente a unidade tão decisiva nos idos de 1945.
A reunião dos brigadeiros, realizada esta manhã num
clima satisfatorio, resultou na divulgação de uma nota
em que se reafirma o desejo de manter a ordem e se
volta a exigir a identificação e prisão dos culpados
pelo crime da rua Toneleiros. E no correr dela ficou
assentado que dois nomes serão aceitos pela
Aeronautica se o sr. Getulio Vargas houver por bem
nomear um deles para substituir o brigadeiro Nero
Moura no Ministerio. Esses nomes são os dos
brigadeiros Aboim e Epaminondas Feio.
A substituição do ministro da Aeronautica foi na noite
de domingo um episodio da maior dramaticidade, pois
houve um momento em que se chegou a acreditar numa
rapida degringolada do regime. Reunidos no palacio do
Catete os srs. Getulio Vargas, Tancredo Neves, Osvaldo
Aranha, general Zenobio da Costa, brigadeiro Neto
Moura ouviram os presentes, do titular da pasta da
Aeronautica, a narrativa da situação na sua arma que a
ele parecia quase incontrolavel.
- "O sr. perdeu o controle da situação" - disse-lhe o
ministro da Guerra. - Ponham-me lá que em poucas horas
estará tudo em ordem. Não há major que se rebele.
Ponho-os todos nos quartéis".
O brigadeiro Nero Moura objetou que os majores eram
apoiados pelos brigadeiros.
- "Prendo-os tambem" - disse Zenobio energico.
Esse relato é absolutamente fiel e começou por criar
embaraços ao proprio governo, limitando-se o sr.
Getulio Vargas a dizer que a nomeação de Zenobio era
uma solução a ser encaminhada. Tal como se previa,
entretanto, as demarches para efetivá-la encontraram
decisiva resistencia da parte dos oficiais superiores
da Aeronautica.
Dentro de algumas horas, as estações do governo
afirmavam que o general Zenobio da Costa não
substituiria o brigadeiro Nero Moura.
A atitude do presidente
A reunião na residencia do almirante Peixoto, na
avenida Rui Barbosa, foi mais uma reunião da familia
Vargas, com a presença de alguns amigos, como o sr.
Osvaldo Aranha. "A familia estava acabrunhada e
aflita, disse em certo momento na Camara o sr. Augusto
do Amaral Peixoto." Nessa oportunidade é que os Sr.
Getulio Vargas teria admitido a hipotese da sua
renuncia, no que foi dissuadido pelo sr. Osvaldo
Aranha. Foi nessa ocasião que o presidente da
Republica decidiu-se a acabar com sua guarda pessoal,
que teria deixado de inspirar confiança a ele proprio.
Hoje é tarde voltaram a circular rumores sobre a
nomeação do general Zenobio para a pasta da
Aeronautica mas foram logo desmentidos,
acrescentando-se que já agora não havia mais motivos
de distinção entre os grupos militares, todos unidos
em torno do mesmo objetivo.
A substituição do chefe de policia pelo coronel Paulo
Torres foi tomada, pelo jornalista Carlos Lacerda,
como um ato provocador do governo pois a demissão do
general Ancora se teria dado precisamente no momento
em que ele se decidia a atender a apelos dos seus
companheiros de arma para agir contra os criminosos.
Reunião do Alto Comando do Exercito
Convocada pelo general Zenobio da Costa, realizou-se
às ultimas horas da tarde uma reunião do Alto Comando
do Exercito, com a presença dos generais Canrobert
Pereira da Costa, Fiuza de Castro, Mendes de Morais,
Odilo Denis e Olimpio Falconieri da Cunha, sendo os
trabalhos secretariados pelo general Segadas Viana.
Pouco antes da reunião o ministro da Guerra recebeu em
conferencia reservada o brigadeiro Eduardo Gomes. Não
transpiraram informações da reunião.
A reportagem credenciada no Ministerio da Guerra foi
informada de que a prontidão dos quartéis continua,
achando-se a postos a respectiva tropa. Declarou o
general Zenobio que a prontidão tem em vista manter a
tropa vigilante em face do perigo de uma agitação
provocada por elementos interessados em perturbar a
tranquilidade politica.
A proposito da informação corrente de que os coronéis
continuam a colher assinaturas para o seu famoso
memorial, já agora entre seus colegas da Marinha e da
Aeronautica, o titular da Guerra disse ignorar
inteiramente o assunto.
Como medida de precaução foi suspenso o exercicio de
cobertura de fumaça do Bairro do Botafogo marcado para
quarta-feira.
Solidariedade da Marinha
O Clube Naval reunido extraordinariamente hoje pela
manhã, sob a presidencia do almirante Antonio Maria de
Carvalho, manifestou-se solidario com o Clube da
Aeronautica ante o atentado de que foi vitima o major
Vaz. Foram aprovadas as seguintes medidas: associar-se
às homenagens prestadas ao morto; mandar rezar missa
de setimo dia por alma do major aviador; ter-se feito
representar no enterro.
O governo entregará os guardas
O ministro da Justiça, na sua conversa com a
reportagem asseverou que o sr. Getulio Vargas porá à
disposição da policia, para investigação, cada um e
todos os membros da sua extinta guarda pessoal.
Dado historico
Os acontecimentos começaram a se precipitar na
madrugada de sexta-feira para sabado, quando o
brigadeiro Eduardo Gomes foi chamado pelo coronel
aviador Adil, que acompanha o inquerito, para ouvir o
depoimento do motorista que conduziu os assaltantes. O
ministro da Justiça foi tambem convocado, chegando à
Policia Militar, quando de lá já se havia retirado o
brigadeiro. Às primeiras horas da manhã de domingo,
previamente convocado, cerca de 500 oficiais se
reuniram na sede das Rotas Aereas, onde, em combinação
com as autoridades policiais, iniciaram num ambiente
dramatico as buscas do criminoso.
Nota da reunião dos brigadeiros
O gabinete do ministro da Aeronautica distribuiu a
seguinte nota a proposito da reunião realizada na
manhã de hoje sob a presidencia do titular da pasta da
Aeronautica:
"Os oficiais generais da Força Aerea Brasileira,
reunidos sob a presidencia do ministro da Aeronautica,
identificados com os sentimentos da sua corporação e
animados do firme proposito de contribuir para que as
diligencias de apuração dos respectivos pelo
assassinio do major Rubens F. Vaz atinjam plenamente
os seus fins, reafirmam sua confiança em que os
poderes publicos usarão de toda sua autoridade e
valimento não só para a identificação dos autores
morais e materiais do barbaro atentado mas tambem para
que os culpados não se possam valer de qualquer
privilegio para eximi-se à punição da justiça" -
CARLOS CASTELO.
Em conferencia o brigadeiro
RIO, 9 (Sucursal) - Embora sem confirmação oficial
sabe-se que estiveram hoje no gabinete do ministro da
Fazenda, conferenciando com o sr. Osvaldo Aranha o
brigadeiro Eduardo Gomes, o sr. Café Filho,
vice-presidente da Republica, os ministros Edgar
Santos e Tancredo Neves e altas patentes militares.
As conversações mantidas com o titular da Fazenda,
sobre as quais foi guardado absoluto sigilo, estariam
ligadas, ao que consta, ao fato de ter sido o sr.
Osvaldo Aranha quem convenceu o sr. Getulio Vargas a
conservar-se no poder quando ele, em face do clima de
suspensão criado em torno do governo pelo assassinato
do major Rubens Vaz, pretendia renunciar.
Excepcional movimento no Catete - A reunião do Alto
Comando
RIO, 9 (Sucursal) - Excepcional movimentação
registrou-se nas primeiras horas da noite no Catete.
Logo após a reunião do alto comando do Exercito o
general Zenobio da Costa compareceu ao palacio, onde
conferenciou com o presidente da Republica. Uma
estação de radio divulgada depois que o ministro da
Guerra comunicara ao chefe do governo as deliberações
tomadas na aludida reunião, durante a qual o Exercito,
através da palavra dos seus chefes, manifestadas sua
inteira solidariedade com o presidente da republica e
sua disposição de manter-se fiel à Constituição e ao
regime.
Alem do general Zenobio, estiveram no Catete em
conferencia com o sr. Getulio Vargas o sr. Café Filho,
vice-presidente da Republica , os ministros do
Trabalho e da Educação e o governador Amaral Peixoto.
Tambem o sr. João Goulart, que regressou hoje do
Recife, seguiu diretamente para o Palacio do Catete
para hipotecar solidariedade ao presidente da
Republica.
Zenobio avista-se com o brigadeiro
RIO, 9 (Sucursal) - Segundo se informa, o general
Zenobio da Costa manteve esta tarde uma conferencia
com o brigadeiro Eduardo Gomes a quem pedira que
indicasse o nome de um brigadeiro para suceder ao sr.
Nero Mouro na pasta da Aeronautica.
O brigadeiro Eduardo Gomes ter-se-ia recusado a
atender o pedido alegando dois motivos: 1) porque
achava que qualquer brigadeiro seria capás de assumir
aquela pasta; e 2 porque, adversario do governo,
estava por isso impedido de qualquer pronunciamento
nesse sentido e mesmo não acreditava que um nome por
ele proposto fosse aceito pelo sr. Getulio Vargas.
Inuteis até agora as diligências policiais
Não foi preso ainda o investigador Climerio - A
sensacional confissão do motorista, que apontou o
criminoso
RIO, 9 (Sucursal) - Somente devida à argucia do
capitão Ferreira das Neves, professor da Policia
Tecnica, o motorista Nelson Raimundo de Sousa veio
afinal a confessar sua participação no crime da rua
dos Toneleiros, denunciando seus cumplices.
Transferido, a seu proprio pedido, para outra
dependencia policial, onde supunha encontrar maiores
garantias, o motorista foi ouvido na policia militar
(Batalhão Moto Mecanizado, por aquele oficial, para
tanto autorizado pelo delegado Pastor.
O capitão Ferreira das Neves conhecera o motorista ao
tempo em que ele frequentou as aulas da policia
tecnica, circunstancia que lembrou, ao iniciar sua
palestra com o preso, que decorreu numa dependencia
isolada, presente apenas outro oficial um pouco
distante. O capitão teria perguntado ao motorista se
não desejava mandar algum recado para a familia e
demonstrou interesse em emprestar-lhe qualquer
obsequio nesse sentido, Impondo-se deste modo, à
confiança do motorista, passou a capitão a sondá-lo
sobre a sua participação no crime. Inopidamente,
fez-lhe essa pergunta:
- Mas o homem que você conduziu era investigador junto
ao Catete ou da guarda pessoal?
Nelson empalideceu subitamente e daí para a confusão
não restou ao oficial senão impor sua confiança,
mediante promessas de garantia e demonstrações de
solicitude. Diante disso, o motorista resolveu contar
o que sabia.
Cercado de absoluto sigilo, o depoimento ainda não é
conhecido da imprensa senão em detalhes colhidos ao
acaso, através de dificuldades compreensiveis em razão
da reserva que se vem mantendo sobre o assunto.
Sabe-se, porem, que o motorista revelou o nome de um
dos assaltantes: Climerio Eurides de Almeida, apontado
como pertencente à guarda pessoal do Catete. Um seu
companheiro, que o motorista declarou desconhecer, é
que foi o autor da chacina, depois do que fugiu no
carro dirigido por ele, Nelson.
Outras fontes asseguram que o motorista, na sua
confissão, teria revelado o nome do mandante.
Ontem à noite, o coronel Milton Guimarães, chefe do
gabinete do chefe de Policia, forneceu pormenores das
declarações do motorista. Raimundo revelou que
Climerio, o contratante do carro, durante o atentado
não fez uso de arma. Consumado o crime, ele regressou
de lotação à cidade, ao passo que o pistoleiro tomara
o seu carro.
A Policia localizou ainda a residencia de Climerio, na
rua da Abolição, onde descobriu que ele deixara o Rio,
com destino a Cabo Frio.
Como se desconfiava desde suas primeiras declarações,
o motorista Nelson Raimundo de Souza sabia muito mais
do que dizia. Sua participação no atentado a Carlos
Lacerda não fora acidental, como fizera crer e com
acabou confessando, habilmente interrogado. Aliás
ainda na sexta-feira ultima, o diretor da Divisão de
Policia Tecnica, sr. Silvio Terra, em conversa com o
general Moraes Ancora, chamava a atenção de s. exa.
para a necessidade de submeter o motorista a um
interrogatorio mais minucioso, já que nada fazia
admitir que ele estivesse falando a verdade.
A confissão sensacional
As ponderações do sr. Silvio Terra impressionaram o
general Armando de Morais Ancora. Mas, realmente, o
que mais influiu no sentido de se compelir o motorista
a falar a verdade foi a Aeronautica ou, melhor, os
elementos da FAB que estão acompanhando mais de perto
as dirigencias. Eles não concebiam a atitude da
policia aceitando as primeiras declarações de Nelson
Raimundo. O motorista, em hipotese alguma, estaria
inocente. Desconhecendo seus passageiros, como iria
esperá-los mais de uma hora, e sobretudo, depois
daquele tiroteio? Um detalhe importante a reportagem
d'O Globo apurou ontem. Nelson Raimundo permanecera na
rua Paula Freitas, aguardando que os sicarios
executassem sua missão assassina, desde às 22 h 30.
Quanto a isso, não há duvida nenhuma. Pelo contrario,
existe, a respeito, o depoimento de uma testemunha
ocular, altamente elucidativa. A pressão do pessoal da
Aeronautica, no sentido de que a Policia agisse com
mais energia junto ao motorista, levou as autoridades
do 2º Distrito a admitirem que os oficiais da FAB
pretendiam sequestrar Nelson Raimundo. Daí, sua
remoção para o Corpo Motomecanizado da Policia
Militar. Isto mesmo, alias, as autoridades daquele
distrito afirmaram ao jornalista Carlos Lacerda, isto
é, que haviam resolvido transferir o "chauffeur" por
recearem um sequestro por parte dos elementos da FAB.
Mas, a verdade é que Nelson Raimundo pouco permaneceu
na Delegacia do 2º Distrito. Esteve sempre em
diferentes dependencias da Policia, inclusive na
Divisão de Policia Politica e Social.
Em face, como já dissemos, da pressão que se fazia, a
Policia resolveu agir com mais determinação. E teve
exito. O motorista cedeu à habilidade e à argucia dos
interrogatorios, confessando, afinal, a verdade.
Assistiram ao depoimento
Podemos informar que o depoimento do motorista Nelson
Raimundo ainda não está concluido e só o será depois
da prisão de um dos criminosos. Até o presente
momento, o motorista sofreu um interrogatorio de cerca
de trinta horas.
Foi às primeiras horas da noite de sabado que Nelson
Raimundo resolveu confessar toda a verdade. E, já pela
madrugada, suas declarações definitivas eram tomadas a
termo.
O ministro da Justiça, sr. Tancredo Neves, o chefe de
Policia e o brigadeiro Eduardo Gomes assistiram ao
depoimento do motorista.
Investigações no Catete
À sensacional confissão do motorista, seguiram-se
instantes dramaticos. Era evidente que as
investigações tinham de chegar, de qualquer maneira,
ao Palacio do Catete. O problema naquele momento era
prender o policial apontado pelo motorista. E a
primeira ordem dada pelo delegado Pastor foi no
sentido de prendê-lo, custasse o que custasse.
Posteriormente, tratou-se da gravação do depoimento de
Nelson, já, então, diante do chefe de Policia e do
brigadeiro Eduardo Gomes. E tudo isso foi transmitido
ao ministro Nero Moura, que, por sua vez, se comunicou
com o ministro Tancredo Neves e, este, com o general
Caiado de Castro.
Àquela altura, todas as altas patentes militares
tinham ciencia dos fatos. Pensou-se em despertar o
proprio sr. Getulio Vargas, uma vez que s. exa. se
dissera disposto a colaborar em tudo e querer saber de
todos os detalhes.
E o chefe do Governo só não foi chamado porque o
general Caiado de Castro não saira do Palacio e disse
que esperaria os policiais para fazerem a diligencia.
Foram ter então no Catete o delegado Jorge Pastor, o
coronel Adil de Oliveira e o promotor Cordeiro Guerra.
Eram 5 horas e, por ordem do chefe da Casa Militar,
toda a guarda pessoal do presidente foi colocada à
disposição das investigações. O primeiro a ser ouvido
foi o tenente Gregorio Fortunado. Deu os informes que
podia acerca de Climerio e da sua fuga.
A partir desse momento, começou a caçada sem treguas
ao policial acusado. E os esforços nesse sentido
continuam ainda sem esmorecimento.
Medo terrivel
Nelson de Souza está tomado de intenso pavor. Seu medo
redobrou e, agora, não quer sair de modo nenhum do
quartel.
Exposição aos oficiais da Aeronautica
RIO, 9 (Sucursal) - Na reunião de ontem à noite dos
oficiais da Aeronautica, que acompanham a apuração do
assassinato do major Vaz, foi exposto o seguinte:
1º - Foi o depoimento do motorista Raimundo, que,
tomado por termo, foi gravado na Policia Militar.
2º - Pelo depoimento, ficou-se sabendo que um dos
pistoleiros que praticou o assassinato e o atentado já
do conhecimento publico, é o investigador 763, de nome
Climero, lotado na presidencia da Republica - guarda
pessoal. Todos os detalhes do depoimento já são do
conhecimento do presidente da Republica, ministro da
Justiça e ministro da Aeronautica. A policia já tem
pistas seguras para identificar os outros.
3º - Por conseguinte, a partir do presente momento,
acha-se a presidencia da Republica em condições de
entregar à policia um dos pistoleiros que assassinaram
o major Vaz e alvejaram o jornalista Carlos Lacerda.
A Aeronautica não se surpreendeu
Por volta das 4 horas de ontem sob a maxima cautela o
delegado Jorge Pastor relatava a confissão de Nelson
ao representante do Ministerio Publico, ao coronel
Adil de Oliveira e a varios oficiais aviadores que
haviam prestado o compromisso de honra de não revelar
a ninguem o que iriam ouvir. A impressão que se teve,
porem, foi de que a oficialidade não se surpreendeu ao
ser declinado o nome de Climerio Eurides de Almeida.
Identificados, adianta-se, mais dois assaltantes
RIO, 9 (Sucursal) - O coronel João Adil de Oliveira
designado pela Aeronautica para acompanhar o inquerito
do 2º Distrito estaria de posse da identidade de um
segundo participante do crime da rua Toneleiros, cujo
nome não foi ainda revelado por conveniencia das
diligencias que estão sendo levadas a efeito.
Sabe-se por outro lado que alem de Climero de Almeida
e desse outro cumplice, as autoridades estariam na
pista de um terceiro participante no barbaro atentado.
Ao que se adianta que as investigações da Aeronautica
para a elucidação do caso estão mais adiantadas do que
as da propria policia.
Diligencias no Itamarati
RIO, 9 (Sucursal) - Oficiais da Aeronautica realizaram
hoje diligencia no Itamarati a fim de apurar se algum
pedido de passaporte fora atendido nos ultimos dias
pelo Ministerio do Exterior por solicitação da
presidencia da Republica. Segundo informantes, no dia
imediato ao crime elementos ligados ao Catete teriam
feito gestões nesse sentido junto ao Itamarati, tendo
sido essa versão divulgada pela imprensa e merecido
contestação dos meios oficiosos.
Entretanto, os oficiais da Aeronautica, fardados e com
o sinal de luto na lapela, estiveram hoje em contacto
com os funcionarios da seção incumbida do fornecimento
de passaportes do Itamarati, desconhecendo-se o
resultado dessa diligencia.
Representante dos jornais nas investigações
RIO, 9 (Sucursal) - O sr. Tancredo Neves, ministro da
Justiça, recebeu hoje à tarde em seu gabinete os
membros do Clube de Diretores e Principais Redatores
dos Jornais do Rio de Janeiro.
Na reunião, em que foram trocados pontos de vistas a
respeito do desenvolvimento do inquerito policial
sobre o atentado da madrugada do dia 5, declarou o
ministro que o governo aceitava com satisfação o
oferecimento daquela entidade, de indicar um de seus
membros para acompanhar os trabalhos da autoridade
encarregada das apurações.
Foi apontado e aceito o nome do sr. Elmano Cardim,
diretor do "Jornal do Comercio".
À procura do criminoso
Todos os esforços da Policia concentram-se, agora, na
localização de Climerio Eurides de Almeida, o
homem-chave do atentado contra Carlos Lacerda. Somente
com sua prisão, poderá a Policia esclarecer as origens
do crime, seus verdadeiros responsaveis, em suma,
desvendar o "complot" de que resultou a morte do bravo
major Rubens Florentino Vaz.
Fez-se muita fantasia em torno das diligencias para a
localização de Climerio Eurides de Almeida. Falou-se
em fazenda, citaram-se nomes cometeram-se exageros. A
verdade é que, quando a grande caravana chefiada pelo
delegado Hermes Machado daqui partiu levava um roteiro
certo. Não obstante as informações colhidas na
residencia de Climerio, em Cachambi, como com pessoas
de suas relações, as batidas realizadas em zonas
fluminenses proximas ao Distrito Federal e mesmo neste
territorio, não foram coroadas de exito, entretanto. E
a caravana regressou domingo à noite, sem o apontado
criminoso.
O delegado Hermes Machado, seus auxiliares e os
oficiais da Aeronautica repousaram poucas horas. Hoje
deixava novamente a Policia Central rumo a outros
pontos do interior fluminense indicados como possiveis
refugios do criminoso. É provavel mesmo que, a esta
hora, Climerio já esteja preso. Mas tambem poderá ter
acontecido o que não foge às previsões da Policia:
Climerio poderia ter chegado a São Paulo, Espirito
Santo ou Minas Gerais, de onde atingiria o Brasil
Central, colocando-se longe do alcance da Policia, e
refugiando-se mesmo num país limitrofe.
Novas diligencias
RIO, 9 (Sucursal) - O delegado Hermes Machado à noite
regressou no interior fluminense onde percorreu
diversas cidades sem obter qualquer resultado. Todas
as pistas indicadas não conduziram a qualquer indicio
do roteiro seguido pelo criminoso, em cuja busca a
policia, conjuntamente com oficiais da Aeronautica,
está desenvolvendo tenaz esforço.
A referida autoridade entretanto ainda não está
desanimada e amanhã cedo retomará as diligencias.
Quem é o curioso
O investigador Climerio Eurides de Almeida, apontado
pelo motorista Nelson Rodrigues de Souza como um dos
participantes do atentado contra Carlos Lacerda, é
natural do Rio Grande do Sul, da zona da fronteira.
Veio para o Rio em 1940 e sempre serviu, como
componente da guarda pessoal do presidente da
Republica, no Catete. Foi um dos raptores do
jornalista Helio Sodré, em 1944, e incumbiu-se de
guardá-lo num dos porões do Palacio Rio Negro, em
Petropolis. Depois desse rapto, esteve refugiado na
Argentina.
Deposto o sr. Getulio Vargas, em 1945, Climerio
conseguiu, por intercessão de pessoa influente, ser
admitido como investigador na policia. Foi servir na
Delegacia de Vigilancia e Capturas. Aliás, sempre
disse ser protegido por duas pessoas de muita
influencia junto ao sr. Getulio Vargas. Em companhia
de uma dessas duas figuras foi mesmo visto varias
vezes.
Climerio Eurides de Almeida é gordo, de estatura
mediana - cerca de 1m70; tem olhos castanhos claros,
pele clara, parecendo estrangeiro, e acentuadas marcas
de variola no rosto. Costuma trajar blusão.
Assiduo freguentador das corridas do Hipodromo da
Gavea, o criminoso possui uma fazenda no interior do
Estado do Rio, proximo ao Distrito Federal.
Cerca de vinte dias atrás, encontrou-se com um antigo
chefe sob cujas ordens servira na seção de Vigilancia
e Capturas. Mostrava-se então apreensivo a situação
politica. Apesar disso, deixou surpreso o seu antigo
superior quando tirou do bolso algumas laudas de papel
e pôs-se a ler versos satiricos...