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Rio de Janeiro, Copacabana.COM Wednesday, 19-Nov-2008 02:18:08 BRST

Rua Tonelero


Depoimento do jornalista Otávio Bonfim


Rua Tonelero

Da Passagem de Tonelero ao Atentado a Carlos Lacerda

Depoimento do jornalista Otávio Bonfim sobre o Atentado a Carlos Lacerda

Atentado a Carlos Lacerda - Jornal do Brasil

Atentado a Carlos Lacerda - Folha de São Paulo

Atentado a Carlos Lacerda - IPM


Home > Guia de Ruas > Rua Tonelero > Depoimento do jornalista Otávio Bonfim





Livro - Vitória na Derrota: a Morte de Getúlio Vargas - RONALDO CONDE AGUIAR - Ed. Casa da Palavra
A crise política de 1954, deflagrada com a morte do major Rubem Vaz e que culminaria no suicídio de Vargas. Quais as verdadeiras causas do atentada? Que forças operavam naquele período fatal? Afina... Clique aqui e veja mais detalhes.



Livro - Agosto - RUBEM FONSECA - Ed. Companhia das Letras
O atentado contra o jornalista Carlos Lacerda na rua Tonelero é a deixa para o romance "noir" do escritor carioca em torno dos acontecimentos de agosto de 1954, que levaram ao suicídio do Presidente Vargas. Clique aqui e veja mais detalhes.


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Mais conhecido como jornalista incendiário do que como ficcionista, O autor Carlos Lacerda oferece uma bela surpresa aos leitores com esses contos. São histórias escritas em duas fases distintas, a... Clique aqui e veja mais detalhes.

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1954 - Um tiro no coração recompõe o último governo Vargas e os conturbados acontecimentos da cena política brasileira que culminaram no suicídio do presidente da República. Através de pesquisa rig... Clique aqui e veja mais detalhes.


Atentado na Rua Tonelero

Depoimento do jornalista Otávio Bonfim (16 maio 1992)

Na noite do dia 3 de agosto, Lacerda realizara um comício no pátio do Colégio São José, na Tijuca, um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino do Rio de Janeiro de então. Como sempre, fora feroz nos ataques ao Presidente Getúlio Vargas, conforme relataram os repórteres que cobriram o encontro político. Essa seria a principal matéria da edição do dia seguinte do Diário Carioca (DC) um jornal pequeno mas de muita força política e que fazia do antigetulismo sua razão de ser. Armando fora um dos repórteres destacados para cobrir o comício. Quando ele acabou de escrever a matéria, ficamos ainda conversando na redação (Av. Rio Branco, no 25) com o Prudente de Morais Neto (Pedro Dantas), comentarista político do jornal. Eu trabalhava na sessão internacional e Deodato no esporte. Este possuía um velho Packard, um carrão com estribo.

Já passava da meia-noite quando deixamos a redação. Armando ia na frente, ao lado do Deodato. Eu ia atrás. Entramos na Toneleros pela Praça Arco Verde, onde começa. A iluminação só era boa no centro da rua; junto aos prédios, imperava a penumbra. O prédio onde morava o Nogueira (vizinho ao do Lacerda pelo lado esquerdo de quem está de frente) ficava praticamente no meio da quadra. Uma longa quadra, que vai da Rua Paula Freitas até a Siqueira Campos. Pelo lado esquerdo de quem sobe a Toneleros, entre essas duas ruas fica a Hilário de Gouveia, onde há uma delegacia de polícia, entre a Toneleros e a Praça Serzedelo Correia.

Ao cruzar a Paula Freitas, Deodato diminuiu a marcha do carro. Armando - bom papo - conversava com Deodato. Eu olhava para fora. Foi quando vi o Lacerda, um homem de bom porte físico, figura inconfundível. Ele estava em companhia do filho Sérgio e conversava com um homem jovem (Vaz), que estava encostado num carro pequeno. Lacerda estava de frente para a rua e Vaz de costas. Lembro-me de ter dito: "Seria fácil atirar no Lacerda". O carro do Deodato seguia lentamente e pararia a uns três metros adiante.

Quando cruzamos o carro parado (de Vaz), Sérgio seguiu em direção à porta da garagem. Lacerda gesticulava muito. Quando Deodato parou o carro, em frente ao prédio onde morava o Armando, este desceu e continuou conversando com o Deodato. Eu olhava para fora, pelo vidro traseiro. Lacerda despediu-se do homem (Vaz) e seguiu em direção à garagem. Vaz começou a andar no sentido da traseira do carro para assumir a direção. (Não chegou a entrar nele.) Nesse momento vi uma pessoa no meio da rua, empunhando um revólver (Alcino). Os tiros começaram quase que imediatamente. Vaz foi atingido ao descer o meio-fio e caiu pesadamente. Tenho a impressão de que ele não viu o que ocorria.

Depois de abater Vaz, Alcino atira na direção seguida por Lacerda, que, instintivamente, procura proteção junto ao muro da garagem. Ele percebe que o filho está a salvo dentro da garagem. Saca o revólver e começa a atirar em Alcino, que, esgotado o tampo de sua 45, sai correndo pelo meio da rua iluminada até a Paula Freitas, onde um táxi o aguardava. Com o pistoleiro em fuga, Lacerda entra na garagem. Vi tudo pelo vidro traseiro do Packard do Deodato. Armando, do lado de fora, instintivamente subiu no estribo do carro e disse: "Atiraram no Lacerda". As outras três pessoas (dois homens e uma mulher) que estavam próximas procuraram abrigo junto a uma árvore.

O instinto jornalístico funcionou imediatamente. Deodato movimentou o carro, com o Armando no estribo, até um botequim na esquina da Toneleros com a Rua Siqueira Campos, para telefonarem para o DC. Saí do carro e fui ver quem estava caído. Fui o primeiro a chegar junto a Vaz, que arquejava, já nos estertores da morte. Instantes depois, Lacerda sai pela porta principal do prédio onde morava e caminha em direção a Vaz, onde eu já me encontrava. Ele caminha normalmente e diz, com o vozeirão de barítono: "Pelo amor de Deus, vamos socorrer este moço, um pai de família".

Um táxi passava pelo local. Simultaneamente, Lacerda e eu fizemos sinal para que parasse. Lacerda implorou ao motorista: "Vamos levar este moço para o hospital. Ele não pode morrer". O motorista acede e desce do carro. Lacerda segura Vaz pelas pernas e eu pelos ombros (era pesado). O motorista ajuda e segura a vítima pela cintura. Colocamos Vaz no banco traseiro do carro grande. Nessa altura Sérgio Lacerda tinha aparecido. Não me lembro ao certo quem seguiu no carro. Penso que foi o Lacerda. O motorista dizia que não iria sozinho, pois "não queria ter complicações".

Armando telefonou do botequim para o DC, onde Pompeu de Sousa, chefe da redação, já terminara o fechamento do jornal e conversava com Prudente de Morais Neto. Pompeu determinou que fôssemos à redação para escrever a reportagem. "Nós vimos o atentado a Lacerda". Foi um texto a duas mãos (do Armando) e três cabeças. O jornal abafou no dia seguinte, com a foto de seus três repórteres na primeira página. Tivemos que narrar os fatos inúmeras vezes, inclusive na Delegacia de Polícia Especializada e na "República do Galeão". Sempre ouvíamos o comentário: "A sorte de vocês é que trabalham para um jornal antigetulista. Se fossem da Última Hora [de Samuel Wainer, amigo de Getúlio], seria difícil explicar como estavam no local do atentado, na hora exata".

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