Depoimento do jornalista Otávio Bonfim (16 maio 1992)
Na noite do dia 3 de agosto, Lacerda realizara um comício no
pátio do Colégio São José, na Tijuca, um dos mais conceituados
estabelecimentos de ensino do Rio de Janeiro de então. Como
sempre, fora feroz nos ataques ao Presidente Getúlio Vargas,
conforme relataram os repórteres que cobriram o encontro
político. Essa seria a principal matéria da edição do dia
seguinte do Diário Carioca (DC) um jornal pequeno mas de muita
força política e que fazia do antigetulismo sua razão de ser.
Armando fora um dos repórteres destacados para cobrir o comício.
Quando ele acabou de escrever a matéria, ficamos ainda
conversando na redação (Av. Rio Branco, no 25) com o Prudente de
Morais Neto (Pedro Dantas), comentarista político do jornal. Eu
trabalhava na sessão internacional e Deodato no esporte. Este
possuía um velho Packard, um carrão com estribo.
Já passava da meia-noite quando deixamos a redação. Armando ia na
frente, ao lado do Deodato. Eu ia atrás. Entramos na Toneleros
pela Praça Arco Verde, onde começa. A iluminação só era boa no
centro da rua; junto aos prédios, imperava a penumbra. O prédio
onde morava o Nogueira (vizinho ao do Lacerda pelo lado esquerdo
de quem está de frente) ficava praticamente no meio da quadra.
Uma longa quadra, que vai da Rua Paula Freitas até a Siqueira Campos. Pelo lado esquerdo de quem sobe a Toneleros, entre essas
duas ruas fica a Hilário de Gouveia, onde há uma delegacia de
polícia, entre a Toneleros e a Praça Serzedelo Correia.
Ao cruzar a Paula Freitas, Deodato diminuiu a marcha do carro.
Armando - bom papo - conversava com Deodato. Eu olhava para fora.
Foi quando vi o Lacerda, um homem de bom porte físico, figura
inconfundível. Ele estava em companhia do filho Sérgio e
conversava com um homem jovem (Vaz), que estava encostado num
carro pequeno. Lacerda estava de frente para a rua e Vaz de
costas. Lembro-me de ter dito: "Seria fácil atirar no Lacerda". O
carro do Deodato seguia lentamente e pararia a uns três metros
adiante.
Quando cruzamos o carro parado (de Vaz), Sérgio seguiu em direção
à porta da garagem. Lacerda gesticulava muito. Quando Deodato
parou o carro, em frente ao prédio onde morava o Armando, este
desceu e continuou conversando com o Deodato. Eu olhava para
fora, pelo vidro traseiro. Lacerda despediu-se do homem (Vaz) e
seguiu em direção à garagem. Vaz começou a andar no sentido da
traseira do carro para assumir a direção. (Não chegou a entrar
nele.) Nesse momento vi uma pessoa no meio da rua, empunhando um
revólver (Alcino). Os tiros começaram quase que imediatamente.
Vaz foi atingido ao descer o meio-fio e caiu pesadamente. Tenho a
impressão de que ele não viu o que ocorria.
Depois de abater Vaz, Alcino atira na direção seguida por
Lacerda, que, instintivamente, procura proteção junto ao muro da
garagem. Ele percebe que o filho está a salvo dentro da garagem.
Saca o revólver e começa a atirar em Alcino, que, esgotado o
tampo de sua 45, sai correndo pelo meio da rua iluminada até a
Paula Freitas, onde um táxi o aguardava. Com o pistoleiro em
fuga, Lacerda entra na garagem. Vi tudo pelo vidro traseiro do
Packard do Deodato. Armando, do lado de fora, instintivamente
subiu no estribo do carro e disse: "Atiraram no Lacerda". As
outras três pessoas (dois homens e uma mulher) que estavam
próximas procuraram abrigo junto a uma árvore.
O instinto jornalístico funcionou imediatamente. Deodato
movimentou o carro, com o Armando no estribo, até um botequim na
esquina da Toneleros com a Rua Siqueira Campos, para telefonarem para
o DC. Saí do carro e fui ver quem estava caído. Fui o primeiro a
chegar junto a Vaz, que arquejava, já nos estertores da morte.
Instantes depois, Lacerda sai pela porta principal do prédio onde
morava e caminha em direção a Vaz, onde eu já me encontrava. Ele
caminha normalmente e diz, com o vozeirão de barítono: "Pelo amor
de Deus, vamos socorrer este moço, um pai de família".
Um táxi passava pelo local. Simultaneamente, Lacerda e eu fizemos
sinal para que parasse. Lacerda implorou ao motorista: "Vamos
levar este moço para o hospital. Ele não pode morrer". O
motorista acede e desce do carro. Lacerda segura Vaz pelas pernas
e eu pelos ombros (era pesado). O motorista ajuda e segura a
vítima pela cintura. Colocamos Vaz no banco traseiro do carro
grande. Nessa altura Sérgio Lacerda tinha aparecido. Não me
lembro ao certo quem seguiu no carro. Penso que foi o Lacerda. O
motorista dizia que não iria sozinho, pois "não queria ter
complicações".
Armando telefonou do botequim para o DC, onde Pompeu de Sousa,
chefe da redação, já terminara o fechamento do jornal e
conversava com Prudente de Morais Neto. Pompeu determinou que
fôssemos à redação para escrever a reportagem. "Nós vimos o
atentado a Lacerda". Foi um texto a duas mãos (do Armando) e três
cabeças. O jornal abafou no dia seguinte, com a foto de seus três
repórteres na primeira página. Tivemos que narrar os fatos
inúmeras vezes, inclusive na Delegacia de Polícia Especializada e
na "República do Galeão". Sempre ouvíamos o comentário: "A sorte
de vocês é que trabalham para um jornal antigetulista. Se fossem
da Última Hora [de Samuel Wainer, amigo de Getúlio], seria
difícil explicar como estavam no local do atentado, na hora
exata".
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