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Em agosto, a situação política se agravou quando, na madrugada do dia
5, ao voltar de um comício no Colégio São José, no Rio,
Lacerda foi alvejado na porta de sua casa, na
rua Toneleros 180, em Copacabana. O atentado que se tornou
conhecido como Atentado da Toneleros - resultou na morte do
major-aviador Rubens Florentino Vaz, integrante de um grupo
de oficiais da Aeronáutica que dava proteção a Lacerda, que
escapou com um ferimento no pé. Conduzido imediatamente ao Hospital
Miguel Couto, recebeu a visita de vários políticos, repórteres e de
Eduardo Gomes, então diretor das Rotas Aéreas da Força Aérea
Brasileira (FAB), unidade onde trabalhava Rubens Vaz. Nessa
ocasião, responsabilizou o governo pelo atentado e ainda no dia 5
afirmou na Tribuna da Imprensa que "elementos da alta esfera
governamental" estavam implicados no crime.
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No dia seguinte, o presidente do Clube de Aeronáutica, brigadeiro
Inácio de Loiola Daher, convocou uma reunião que contou com a presença
de cerca de seiscentos oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica,
da qual resultou um comunicado exigindo a completa apuração do atentado.
Nota do Clube da Aeronáutica (5 ago. 1954)
Considerando o covarde assassínio, esta madrugada, do nosso bravo
companheiro Rubens Florentino Vaz, o Clube de Aeronáutica concita
toda a oficialidade da FAB a reunir-se amanhã, dia 6, às 20 horas,
no Clube de Aeronáutica, para as unidades com sede no Rio,
e nas respectivas bases para as outras unidades, em homenagem
póstuma e devoção de fé e respeito aos preceitos mais elementares
que defendem a liberdade e a vida humana, assegurados nas leis
básicas que vigoram em nossa Pátria. Seja nosso lema a frase
proferida hoje pelo eminente Brigadeiro Eduardo Gomes: "Para
honra da Nação, confiamos que este crime não ficará impune!"
Leia, também, o detalhado depoimento do jornalista Otávio Bonfim,
testemunha ocular do Atentado da Rua Tonelero e
Matérias de época do Jornal do Brasil e
da Folha de São Paulo
A crise político-militar que já se delineava foi agravada logo no
início das investigações, a cargo da polícia civil: no dia 7 de
agosto, o motorista de táxi Nélson Raimundo de Sousa - que informara
à polícia que o autor do crime havia fugido em seu carro - prestou
depoimento incriminando um membro da guarda pessoal de Getúlio,
Climério Euribes de Almeida. Em 9 de agosto Lacerda assinou
um violento editorial na Tribuna da Imprensa exigindo a renúncia de
Vargas. Dois dias depois, durante o encontro secreto que manteve
com o vice-presidente Café Filho no Hotel Serrador,
propôs-lhe que pressionasse Vargas a renunciar e que assumisse a
presidência da República. Sugeriu ainda que tentasse obter o apoio do
ministro da Guerra, general Euclides Zenóbio da Costa,
assegurando-lhe a manutenção dos quadros militares existentes, caso
assumisse a presidência.
No dia 12, Lacerda lançou um editorial na Tribuna da Imprensa
exortando as forças armadas a exigirem a renúncia de Vargas. As
dimensões assumidas pelo episódio levaram o ministro da Aeronáutica,
brigadeiro Nero Moura, a autorizar, nesse mesmo dia, a
instauração de um
IPM.
A partir daí, as investigações foram conduzidas
com total autonomia e os interrogatórios e depoimentos passaram a ser
realizados na base aérea do Galeão, o que deu origem à expressão
"República do Galeão". No dia 13 de agosto, soldados da
Aeronáutica prenderam Alcino João do Nascimento, que prestou
depoimento confessando a autoria do crime e implicando Climério
Euribes de Almeida e Lutero Vargas, filho do presidente, em sua
preparação.
Com a confirmação do envolvimento da guarda pessoal do presidente no
atentado, a oposição intensificou sua campanha exigindo a renúncia de
Vargas. A bancada udenista na Câmara, liderada pelo deputado
Afonso Arinos de Melo Franco, passou a colocar sistematicamente o
assunto em discussão. No dia 18 de agosto ocorreu a prisão de Climério
Euribes de Almeida, que confessou ter sido contratado por
Gregório Fortunato - chefe da guarda pessoal e homem de confiança
de Getúlio - para eliminar Lacerda. No dia 19, o Clube
da Lanterna dirigiu um apelo a Zenóbio da Costa para que as
forças armadas promovessem a deposição do presidente.
No dia 22 a exigência da renúncia de Vargas começou a generalizar-se
nos meios militares. Em reunião no Clube de Aeronáutica, os
brigadeiros lotados no Rio assinaram um manifesto nesse sentido, que
foi transmitido a Vargas pelo
marechal João Batista Mascarenhas de Morais, chefe do
Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA). Diante da gravidade do
momento, na noite de 22 Lacerda se transferiu com a família
para a base aérea do Galeão. Em 23 de agosto a situação tornou-se
crítica com a decisão da alta oficialidade da Marinha de apoiar a
exigência da Aeronáutica e com o lançamento do Manifesto dos Generais,
documento assinado por 30 generais do Exército endossando a decisão dos
brigadeiros. Ainda nesse dia, em discurso pronunciado no Senado,
Café Filho rompeu publicamente com o presidente.
Isolado politicamente e na iminência de ser deposto, Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954.
Ao ser divulgada a notícia, vários jornais antigetulistas foram depredados no Rio e populares tentaram empastelar a redação da Tribuna da Imprensa. Enquanto isso, Lacerda era escoltado por oficiais da Aeronáutica até a casa de um amigo, na Ilha do Governador, onde permaneceu por quatro dias.
A grande mobilização popular que se seguiu à morte de Getúlio
desarmou a ofensiva contra o governo e tornou inviável a consumação de uma
ofensiva militar. Café Filho assumiu de imediato a presidência da
República, privilegiando, na composição dos quadros de seu governo,
setores políticos e militares identificados com a UDN. Os ministros
de Estado, presidentes de autarquias e ocupantes de cargos de confiança
ligados ao PTB e ao PSD, foram substituídos por elementos
próximos à UDN ou por pessoas sem vínculos partidários.
Apesar da comoção causada pela morte de Vargas, o inquérito sobre o
Atentado da Toneleros foi reaberto ainda no mês de setembro.
Entretanto, somente em outubro de 1956 os acusados seriam julgados e
condenados a penas que variaram de 11 a 13 anos de reclusão.
Carlos Lacerda
Carlos Frederico Werneck de Lacerda, embora registrado
em Vassouras (RJ), nasceu no Rio de Janeiro, em 30 de abril de
1914, filho de Maurício Paiva de Lacerda e Olga Werneck de
Lacerda.
Em 1932, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do
Rio de Janeiro. Em 1934, abandonou o curso.
Em fevereiro de 1937, já iniciada a campanha para as eleições
presidenciais que seriam realizadas em 1938, Lacerda seguiu
para Belo Horizonte em uma caravana de estudantes que,
segundo suas palavras, tinha por pretexto fazer propaganda de
José Américo contra Armando Sales, mas, na realidade, o que
fazia era campanha antiintegralista, e "ligeiramente
comunista”.
Em 1939, Carlos Lacerda rompe com os comunistas.
Em 1945, Lacerda filia-se à UDN e apóia a candidatura de
Eduardo Gomes contra o General Eurico Gaspar Dutra,
candidato do partido governista (PSD) e Iedo Fiúza (PCB).
Dedicou-se então ao jornalismo, com destacada atuação política.
Na madrugada do dia 5 de agosto de 1954, foi vítima de um
atentado que se tornou conhecido como o Atentado de
Tonelero, que resultou na morte do Major-Aviador Rubens
Florentino Vaz. Na ocasião responsabilizou o governo pelo ato,
abrindo uma crise política profunda e que levou Vargas ao
suicídio.
Em 1958, após lhe ter sido vedado pelo governo o acesso ao
rádio e à televisão, Lacerda foi reeleito deputado federal pelo
Rio de Janeiro, com larga margem de votos em relação aos demais
candidatos.
Em 1960, enquanto Jânio Quadros era eleito Presidente da
República, Lacerda elegia-se primeiro Governador do Estado
da Guanabara, tendo sido empossado a 5 de dezembro de 1960.
Orador vibrante, marcou sua vida política pela liderança que
exerceu na campanha que levou Jânio Quadros à renúncia, como
também pela atuação no movimento político-militar que deflagrou
a Revolução de 31 de Março de 1964.
Faleceu no Rio de Janeiro, em 21 de maio de 1977. Foi casado
com Letícia Azambuja de Lacerda, com quem teve três filhos.
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