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Rio de Janeiro, Copacabana.COM Wednesday, 19-Nov-2008 02:11:48 BRST

SIQUEIRA CAMPOS em Paracatú


Home > Guia de Ruas > Rua Siqueira Campos > Siqueira Campos em Paracatú




A autora analisa a fase liberal do Movimento Tenentista (1922-1927) que compreende o Levante de Copacabana, as rebeliões de 1924 e a Coluna Prestes. Na interpretação de Maria Cecília Forjaz os tene... Clique aqui para mais informações!

Um texto agradável, uma leitura instigante. Assim Anita Leocadia conquista o leitor e o faz acompanhá-la em mais este primoroso estudo sobre o setentismo, demonstrando argúcia de sua análise e um o... Clique aqui para mais informações!

Siqueira Campos em Paracatú

Marcos Spagnuolo Souza* Resumo: No dia 13 fevereiro 1927, Siqueira Campos, tomou de assalto a cidade de Paracatu, deslocando posteriormente para Unaí. Palavra-chave: Coluna Prestes, Siqueira Campos, Paracatu. *Professor de Filosofia e História na Faculdade do Noroeste de Minas. Mestrando em História.






                              I. Apresentação.

A Coluna Miguel Costa, conhecida como Coluna Prestes, devido à popularidade
de  Luís Carlos  Prestes que exercia  a chefia  do Estado Maior  da Divisão
Revolucionária, iniciou  sua trajetória  de lutas e combates  com as tropas
legalistas  na década de  vinte. Um  dos seus destacamentos,  comandado por
Siqueira Campos,  invadiu a cidade de Paracatu em  13 de fevereiro de 1927.

Na tentativa  de fornecer uma visão  abrangente deste período marcante para
os paracatuenses, optamos por iniciar o nosso trabalho pela tomada do Forte
de Copacabana  em 1922;  acontecimento no qual  Siqueira Campos desempenhou
importante papel.

Descrevemos as revoltas militares  em São Paulo e Rio Grande do Sul, no ano
de 1924,  sendo que Siqueira Campos despontou como  líder no levante de São
Borja.

Mostramos a  formação da  Coluna Prestes com Siqueira  Campos coordenando o
3º. Destacamento  Revolucionário para, finalmente, relatarmos  a invasão de
Paracatu pela tropa chefiada  por este líder militar. Não encontramos dados
no  Arquivo  Público  Municipal  Olímpio  Michael  Gonzaga  (Paracatu)  que
esclarecessem a  respeito da passagem de  Siqueira Campos pela região. Como
alternativa, recorremos aos depoimentos dos paracatuenses mais antigos, que
recordam  das cenas  ocorridas durante  a dominação dessa  localidade pelos
revoltosos.

Salientamos que, ao descrever  o Movimento Tenentista, partimos do ponto de
vista do primeiro jornalista a visitar o acampamento de Luís Carlos Prestes
na Bolívia,  Rafael Correia de Oliveira, que  diz: "Prestes confessou que a
revolução  armada  fora apenas  um  gesto  extremado de  protesto contra  o
governo". O segundo jornalista a estar com Prestes no exílio - Luís Amaral,
observou que "... a  Coluna fora apenas um movimento burguês de contestação
a um  governo autoritário que humilhou o  Exército". Seguindo a mesma linha
de  pensamento, Domingos  Meireles,  em seu  livro "As  Noites  das Grandes
Fogueiras",  salienta que  os rebeldes,  na verdade,  em nenhum  momento se
preocuparam  em promover  uma  revolução social  no Brasil.  Os  líderes da
Coluna jamais pensaram em  mudar a estrutura da sociedade e acreditavam que
não era  preciso mudar a ordem  estabelecida para que o  Brasil se tornasse
uma grande nação.

O Tenentismo. Leia mais

Siqueira Campos em Paracatu. Leia mais

Os Revoltosos Abandonam Paracatu. Leia mais



                             II. O Tenentismo.

O governo de Epitácio Pessoa - 1919/1922 foi marcado por inúmeras
dificuldades no relacionamento com os militares. A origem dos atritos não
envolvia princípios ideológicos ou tentativas de resolver aspectos a favor
de uma ordem social mais justa na estrutura da jovem República. A raiz de
toda a problemática centralizava-se em aspectos administrativos e na
incapacidade da liderança política em resolver os problemas que afligiam a
classe militar, principalmente o Exército.

Procuramos descrever  o desenrolar da crise  por tópicos, visando à clareza
dos fatos, para que possamos notar que a radicalização por parte do governo
gerou o Movimento Tenentista:

o Presidente da República,  Epitácio Pessoa, nomeou civis para chefiarem os
Ministérios da Guerra e da Marinha, cargos que eram ocupados exclusivamente
por  militares. A  falta de  confiança do  Presidente da República  no alto
escalão  das  forças  armadas  foi  o  início gerador  de  inúmeros  outros
problemas;

o governo  federal recusou  repor as perdas salariais  dos militares, cujos
vencimentos estavam defasados devido à inflação acelerada.

Artur Bernardes era o  candidato à Presidência da República escolhido pelas
elites econômicas de Minas Gerais e São Paulo, apoiado por Epitácio Pessoa.
No dia  9 de  outubro de 1921,  foi publicada no jornal  carioca Correio da
Manhã  uma  carta  ofensiva  ao Exército,  cuja  autoria  foi atribuída  ao
candidato Artur Bernardes. Os oficiais sentiram-se ofendidos e exigiram uma
tomada  de  posição  do  alto  comando  contra  a  pessoa  do  candidato  à
Presidência. A  autoria da  carta foi negada  por Bernardes e  o manuscrito
submetido  a  uma  Comissão Pericial  constituída  de  dois generais,  dois
almirantes,  três  coronéis,  um  capitão e  o  perito  Simões Gouveia.  "O
relatório da  comissão foi submetido à  apreciação da assembléia permanente
do  clube militar.  O plenário  decidiu por  493 contra 90  reconhecer como
autêntica a carta atribuída  a Bernardes."1 A decisão tomada pelos oficiais
do  Exército  em  reconhecer   Artur  Bernardes  como  autor  das  críticas
destinadas aos militares, publicadas  no jornal, veio corroer profundamente
a  relação entre  os partidários  de Epitácio  Pessoa e as  Forças Armadas;

o Presidente  da República,  diante da forte  oposição dos oficiais  ao seu
candidato  à   Presidência,  iniciou  uma  série   de  transferências  para
guarnições  distantes  do Rio  de  Janeiro,  de todos  os  oficiais que  se
manifestassem  contra  a candidatura  de  Bernardes, gerando  uma série  de
indisciplinas nos quartéis;

Epitácio  Pessoa, diante  das  indisciplinas de  alguns oficiais,  passou a
nomear  diretamente  aqueles  de sua  própria  confiança  para comandar  as
unidades militares,  sendo que  as escolhas dos  comandantes das guarnições
eram atribuições do próprio Comando do Exército;

em oposição  à candidatura  de Artur Bernardes  e ao governo  de Pessoa foi
lançada  a  candidatura  de Nilo  Peçanha,  apoiada  pelas oligarquias  dos
estados  politicamente  menos influentes.  Na  campanha para  o governo  de
Pernambuco,  concorriam  o  candidato  apoiado  por Nilo  Peçanha  e  outro
favorecido  por Artur  Bernardes,  sendo que  Epitácio Pessoa  sustentava a
candidatura do candidato bernardista.  Os oficiais do Exército, sediados em
Pernambuco telegrafaram ao Clube Militar queixando-se da intervenção direta
do  Presidente Pessoa  nas eleições  de Pernambuco.  O Presidente  do Clube
Militar, Marechal  Hermes da  Fonseca, respondeu-lhes dizendo  que Epitácio
Pessoa estava desrespeitando a Constituição Brasileira. Diante dos fatos, o
Presidente da República ameaçou  prender o Marechal Hermes e fechar o Clube
Militar. No dia 24  de junho de 1922, os oficiais reuniram-se no Clube para
analisar  as ameaças de  Epitácio Pessoa.  "Nunca as paixões  estiveram tão
acesas  como  naquela  assembléia."  Alguns oficiais  chegaram  a  insultar
publicamente seus superiores, numa demonstração de insubordinação até então
jamais vista. Os grupos agrediam-se verbalmente, indiferentes às patentes e
aos postos que ocupavam. A jovem oficialidade reagiu com violência à ameaça
de fechamento do Clube Militar. O Tenente Astrúbal salientou que os jornais
noticiaram que o Presidente  da República, para enxovalhar o Exército, iria
mandar, no dia seguinte, os seus agentes fecharem o Clube, baseado numa lei
que permite fechar sociedades  anarquistas, de cáftens e de exploradores de
latrocínio. Maior  injúria não se poderia  fazer; suprema afronta jogada às
faces do  Exército Nacional. "Quando o  Major Euclides Figueiredo fala como
escudeiro de  Epitácio Pessoa, o Tenente  Astrúbal diz que ele,  o Major, é
cáften, é  explorador de latrocínio, é  anarquista. Revoltamos contra vossa
Excelência emprestar seus galões e a força que comanda a um bandido, como o
Senhor Epitácio Pessoa, deixando-o cavalgar livremente o Exército, fechando
o Clube  Militar baseado numa lei infame,  injuriosa e opressora. O general
Potiguar não acredita no  que ouve e pergunta ao Tenente como ele se atreve
a chamar  o Senhor Presidente da  República de bandido. O  Tenente diz que:
"não é só bandido, mas é ladrão";

no dia 3 de  julho, Epitácio Pessoa mandou fechar o Clube Militar e prender
seu  Presidente o  Marechal  Hermes da  Fonseca. O  comandante do  Forte de
Copacabana era  o Capitão Euclides Hermes da  Fonseca, filho do Marechal. O
Capitão não aceitou a  prisão de seu pai e passou a tramar, em conjunto com
outros oficiais,  a rebelião de unidades  do Exército e, principalmente, da
guarnição que comandava;

dia 5  de julho,  o Forte de  Copacabana rebelou-se. Os  militares do Forte
mantiveram  por  mais  de  24  horas  um  combate com  a  Tropa  Legalista.
Totalmente cercado pela força  fiel ao governo, o Capitão Euclides deixou a
fortaleza para negociar a  rendição com as autoridades, deixando no comando
o Tenente Antônio de Siqueira Campos. O Presidente da República não aceitou
negociar  com os  revoltosos, exigindo  a rendição  incondicional. Siqueira
Campos, diante do intenso  bombardeio ao Forte, atacado simultaneamente por
terra, mar e ar,  resolveu não se entregar. Contando com o apoio de dezoito
companheiros  bem armados,  Siqueira Campos  deixou o  Forte para  uma luta
corpo  a corpo  com  os legalistas.  Na Praia  de Copacabana,  iniciou-se o
combate,  sendo  que  apenas  dois revoltosos  conseguiram  sobreviver:  os
Tenentes Antônio Siqueira Campos e Eduardo Guedes;

o Presidente  Epitácio Pessoa, diante da  rebelião de unidades do Exército,
determinou que  severas punições  fossem aplicadas. Os  conspiradores foram
presos e muitos foram expulsos da Corporação.

Diante dos  fatos, podemos dizer que a Rebelião  do Forte de Copacabana foi
uma  quartelada impulsionada  pela incompatibilidade  entre os  oficiais do
Exército  e  o  Presidente  da República  que  não  teve inteligência  para
contornar ou resolver as primeiras manifestações de crise em uma Corporação
aguerrida.

No dia 15 de  novembro de 1922, Artur Bernardes tomou posse como Presidente
da República,  não sendo  aceito por um  grupo de jovens  oficiais por dois
motivos básicos:

Durante  a campanha  eleitoral,  ele teria  escrito uma  carta  atacando os
militares,  acusando-os de  corruptos. Na  carta, Artur Bernardes  chamou o
Marechal  Hermes  da  Fonseca  de "Sargentão  sem  compostura"  e que  esse
precisava de  uma reprimenda  para respeitar a disciplina.  Sugeria a carta
que Epitácio Pessoa punisse  alguns militares e os removesse para bem longe
desses Generais.

A  incompatibilidade  estava  estritamente  relacionada ao  fato  de  Artur
Bernardes  ser  herdeiro político  de  Epitácio  Pessoa, homem  considerado
indigno pelo Exército.

O Presidente  Bernardes iniciou o  seu mandato sendo alvo  de toda aversão,
antipatia e inimizade por parte do Exército.

Os oficiais iniciaram um  movimento para comemorar os dois anos da Rebelião
do  Forte de  Copacabana,  com o  intuito  de desestabilizar  o governo:  a
comemoração  seria a  revolta  das principais  unidades militares  contra o
tratamento   indigno  que   o   governo  dispensava   às  Forças   Armadas.

No  dia 5 de  julho de 1924,  diversas unidades  militares de São  Paulo se
sublevaram, tendo como líderes o General Isidoro Dias Lopes, o Coronel João
Francisco,  o Capitão  Juarez  Távora e  o  Major Miguel  Costa. Tomaram  a
capital do  Estado (  São Paulo) e  dominaram-na por cinquenta  e dois dias
dias.

Para que  possamos delinear  o perfil da Revolta,  é importante analisarmos
alguns fatos:

a) o povo paulista desconhecia o objetivo da Revolta;

b) os rebeldes mantiveram  no cargo o Prefeito de São Paulo, Firmino Pinto.
A  Rebelião  não  alimentou   nenhuma  animosidade  contra  as  autoridades
municipais.  Se o  Palácio  do Governo  Estadual não  tivesse  resistido, o
Governador  Carlos Campos  seria  convidado a  continuar exercendo  as suas
funções administrativas;

c)  os rebeldes  dominaram militarmente  a cidade,  mas o poder  político e
econômico continuou com as classes dominantes e as autoridade municipais. A
Revolta  controlou  as ruas  e  os  quartéis, porém  o  mundo dos  negócios
continuou  sob  controle da  oligarquia  e dos  seus parceiros  comerciais.
Através  da Associação  Comercial, as  elites dirigiram o  comportamento do
Alto Comando revolucionário, procurando sempre dificultar a sua aproximação
com a classe trabalhadora;

d)  o  General Isidoro  e  seus oficiais,  por  mais de  uma vez,  apoiaram
posições de exclusivo interesse das classes dominantes;

e) os  militares rebeldes não quiseram receber  apoio das outras cidades do
estado  de  São Paulo.  Não  demonstraram  nenhum interesse  em empurrar  o
levante para o interior.

Nota-se claramente  que os  militares desejavam manter a  Revolta no âmbito
militar, não  aceitando associações  que pudessem desvirtuar  o objetivo da
mesma, transformando-a numa insurreição popular que se alastrava por outros
estados.

Os  insurgimentos queriam  atingir objetivos  ligados diretamente  à classe
militar, sem nenhuma preocupação especial com a pobreza das classes
menos favorecidas, conforme podemos visualizar em documento expedido no dia
17 de julho pelos Revoltosos:

a)entrega imediata do governo  da União a um governo provisório composto de
nomes nacionais e da confiança dos Revolucionários;

b)o   governo   provisório  convocaria   uma   Constituinte  que   manteria
obrigatoriamente:  forma de  governo Republicano Federativo;  diminuição do
número de  unidades na Federação; separação  da Igreja do Estado; liberdade
religiosa; proibição de impostos  interestaduais; proibição de reeleição do
Presidente  da República,  Presidente dos  Estados, Deputados  e Senadores,
salvo   se  alcançassem   o   sufrágio  de   dois  terços   do  eleitorado.

c)nas relações internacionais, a política deveria liquidar pacificamente os
conflitos;

d)  queriam  também  o   voto  secreto,  reforma  tributária  e  aduaneira;

O manifesto foi impresso e distribuído aos jornais e à população. O governo
não aceitou as condições impostas.

No dia 23 de  junho, o General Isidoro e seu Estado Maior tomaram a decisão
de depor  as armas e abandonarem a cidade,  se o Governo Federal concedesse
anistia aos  Revolucionários que  participaram da Rebelião e  do Levante do
Forte  de Copacabana.  Para se  entregarem, impuseram  que o  Presidente da
República também deveria renunciar. A proposta, logicamente, não foi aceita
pelo governo.

No  dia 28 de  julho, os  revolucionários publicaram um  manifesto dizendo:

"Nosso objetivo  fundamental era e  é a Revolução no  Brasil. Revolução que
elevasse os corações, que  sacudisse os nervos, que estimulasse o sangue da
raça enfraquecida,  explorada, ludibriada e escravizada.  Vamos continuar o
movimento  libertador  do  Brasil. Já  antevemos  que  conseguimos matar  o
marasmo político que avassalou o Brasil." 10

Na  ação dos  Revolucionários e  em seus  manifestos, notamos uma  falta de
clareza  política,  uma  ausência  de  preocupação  social  e  o  interesse
primordial em substituir o Presidente da República. Somos levados a afirmar
que eles procuravam se manter fiéis ao objetivo da tomada do Poder Central,
depondo o inimigo irreconciliável,  Artur Bernardes, não possuindo por meta
a  modificação  da  estrutura  política,  econômica  e  social  do  Brasil.

As  Forças  Legalistas  cercaram  São Paulo  e  bombardearam  a cidade  com
artilharia, ataques  aéreos, e  infiltração na comunidade  com seus famosos
tanques  de  guerra.  Casas  e  prédios  foram  destruídos  e  a  população
cruelmente assassinada pelo governo.

A preocupação do Presidente Artur Bernardes e de seus auxiliares era de que
a revolta trouxesse em  seu ventre uma possibilidade de escapar do controle
militar e  se transformasse numa insurreição  popular que se alastrasse por
outros estados.  Não poderia permitir a repetição  do que havia ocorrido na
Rússia.

O Cônsul  britânico, Francis Patrou, achava que  São Paulo estava no limiar
de uma rebelião popular como a que derrubou o Czar Nicolau II na Rússia, em
1917.  Estava preocupado  com  os grandes  investimentos em  São  Paulo que
poderiam  ser   confiscados  por   um  movimento  inspirado   na  Revolução
Bolchevique.

Os  Anarquistas estavam atormentados  com a  falta de clareza  política dos
conspiradores,  pois os  insurgentes estavam  preparando uma  revolução com
objetivos de exclusivo interesse militar.

Os  Comunistas  não  se  envolveram  com  receio  de  serem  prisões  pelos
legalistas  e  medo  pelo  fechamento  dos sindicatos,  caso  apoiassem  os
revoltosos.

O General Isidoro Dias Lopes, percebendo que não tinha condição de resistir
ao cerco legalista, abandonou  a cidade com sua tropa no dia 28 de julho de
1924, deslocando-se para a região de Foz do Iguaçu.

A oficialidade do Rio  Grande do Sul, tendo ciência da Revolução, conspirou
para sublevar as principais unidades militares. Juarez Távora ficou sendo o
responsável pela guarnição de  Uruguaiana; Siqueira Campos, pelo levante de
São  Borja e  o Capitão  Luís Carlos  Prestes, pelo Batalhão  Santo Ângelo.
Vitoriosos  em suas intenções,  organizaram uma  coluna para se  juntar aos
revoltosos de São Paulo em Foz do Iguaçu.

Eram duas colunas, uma sediada em Foz do Iguaçu, originária de São Paulo, e
outra liderada por Prestes, deslocando-se do Rio Grande do Sul para se unir
à tropa do General Isidoro, em Foz do Iguaçu.

No  mês  de  abril  de  1925,  as  duas  colunas  se  encontraram  e  foram
reestruturadas em uma única Divisão, com cerca de 1500 homens sob o comando
do General Miguel Costa, dividida em duas sub-unidades: uma com 800 homens,
chefiada  por Luís  Carlos Prestes  e outra  com 700 homens,  comandada por
Juarez Távora.  Isidoro permaneceu  como Chefe Supremo  da Revolução, sendo
obrigado a se refugiar  em Encarnación – Paraguai, por causa de sua idade e
abatimento físico.

Nasce assim, a coluna  conhecida como Coluna Prestes que percorreu todos os
rincões do Brasil de Norte a Sul, Leste a Oeste.

Com o  passar dos dias,  surgiram animosidades entre os  Revoltosos e estes
decidiram reorganizar a Divisão:

Comandante Geral:  General Miguel  Costa. Chefe do Estado  Maior: Gal. Luís
Carlos Prestes.

1º Destacamento: Cordeiro de Farias

2º Destacamento: João Alberto

3º Destacamento: Siqueira Campos

4º Destacamento: Djalma Dutra

Cada Destacamento era formado por 400 homens.

Durante o  percurso da Coluna, ocorreram  inúmeros fatos que poderão servir
de base  para que possamos  ter uma visão nítida  dos revoltosos comandados
pelo General Miguel Costa.

a)um dos  braços da Coluna, com cerca de mil homens,  invadiu a Vila de São
Miguel  de Pau  dos Ferros  na divisa do  Rio Grande  do Norte e  Ceará. Os
Rebeldes  arrombaram, a  golpes  de machado,  18 casas  comerciais  onde se
abasteceram  de víveres,  tecidos,  roupas e  medicamentos. As  repartições
estaduais e  municipais foram invadidas por  Rebeldes à procura de dinheiro
e, em seguida, incendiadas;

b)a  Coluna aproximou-se  de  Piancó, sertão  paraibano. O  Padre Aristides
convocou  pistoleiros  e organizou  a  resistência. A  vanguarda da  Coluna
entrou em Piancó. O tiroteio foi ensurdecedor. Os homens do Padre Aristides
alvejavam os  rebeldes com  facilidade. O restante da  tropa atacou Piancó.
Foi prolongada  a batalha  com os homens  lutando de casa em  casa. O padre
achou  melhor  se entregar  para  não  morrer. Ele  e  seus jagunços  foram
empurrados até  uma vala  cheia de água  perto da cadeia.  Aristides e seus
homens  foram   degolados  como  animais.  Os   corpos,  com  as  gargantas
estraçalhadas, foram  atirados dentro  da vala. A vingança  das Colunas que
estavam sob o comando de Siqueira Campos e Djalma Dutra foi impiedosa.

c)Várzea, Furado, Olho D’água,  Canabrava do Gonçalo, Água de Rego, Roça de
Dentro  e Tiririca dos  Bodes, todos  esses povoados da  Chapada Diamantina
recepcionaram a  Coluna com emboscada. A  resposta às agressões foi brutal:
essas cidades foram saqueadas e as três últimas incendiadas pelos rebeldes.
Em Lagoa Grande, foram queimadas 73 casas.

d)Sempre que  a Coluna invadia  um povoado, as enfermeiras  corriam para as
farmácias e esvaziavam as prateleiras, levando tudo que podiam.

e) A  coluna é  recebida em Monte  Alegre com uma  saraivada de marchinhas,
maxixes e dobrados, executados  pela banda de música da cidade. A população
saiu às ruas para homenagear a chegada dos Revoltosos.

f) Em Oeiras foram acolhidos com hospitalidade e delicadeza pela família do
fazendeiro Nogueira  Tapety. Esse  local serviu de cenário  a uma discussão
áspera entre  Prestes e Siqueira Campos, por causa  de uma custódia de ouro
cravejada de brilhantes, que  se encontrava no altar-mor da Igreja de Nossa
Senhora  das Vitórias.  Antes de  ir embora,  Siqueira Campos  manifestou o
desejo de  ver essa custódia, mas  o vigário estava viajando  e o sacristão
não possuía  a chave.  Siqueira Campos tentou  arrombar a porta  da igreja;
Prestes não deixou. Os dois discutiram em voz alta, aos palavrões. Siqueira
Campos deu um soco na mesa, mas Prestes não se
abalou.  Por  ter  sido   contrariado,  Siqueira  com  seu  gênio  difícil,
afastou-se possesso, xingando o chefe.

Notamos que a Coluna agia com energia, não poupando a vida de civis, sempre
que encontrava  resistência. Respeitava  a integridade física  das pessoas,
quando  não  encontrava oposição,  restringindo  suas ações  aos saques  às
farmácias e armazéns, visando à sobrevivência do grupo.

Em  outubro de  1926, Washington  Luiz já  havia sido eleito  Presidente da
República,  quando a  Coluna comandada  pelo general  Miguel Costa  tomou a
iniciativa de se refugiar  na Bolívia, sendo necessário mandar um relatório
sobre a decisão ao Alto Comando. Dois oficiais da Coluna, escoltados por um
piquete formado por nove homens, foram encarregados de levar a mensagem.

Para  desviar a  atenção  das tropas  legalistas  do grosso  da Coluna  que
iniciava sua  marcha para  a Bolívia e  do piquete que seguia  em direção à
Argentina, o  destacamento de  Siqueira Campos executou  um manobra tática,
penetrando em Goiás e depois Minas Gerais, permitindo que seus companheiros
atingissem seus objetivos.

A marcha  desordenada de  Siqueira Campos, durante dois  meses, perturbou o
governo.  Os   legalistas,  com  o  objetivo   de  desmoralizar  a  Coluna,
contratavam grupos de bandidos  para atacar as fazendas, violentar as moças
e roubar mantimentos e gado.

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                     III. Siqueira Campos em Paracatu.

A senhora Emídia de Oliveira Lemos, filha do soldado 21, que pertenceu à
Coluna de Siqueira Campos e ficou em Paracatu obedecendo às ordens de seu
Comandante, conta alguns fatos narrados por seu pai:

Siqueira Campos era um homem honesto. Na época, existia uma turma que
praticava todo o tipo de desordem para jogar a culpa em Siqueira Campos.
Esse grupo falava que era de Siqueira Campos, mas não era. Eles entravam
nas fazendas, roubavam gado, estupravam as mulheres e a notícia corrente
era que a Coluna estava chegando. As mulheres largavam as casas e escondiam
no mato. O governo da época tinha interesse em pagar esses grupos para
desmoralizarem a Coluna.

Na região de Paracatu, atuavam três grupos de bandoleiros, levando o terror
à  área campestre  e fazendo com  que os  moradores acreditassem que  era a
Coluna de Siqueira Campos. Estes grupos eram conhecidos pelos nomes de seus
chefes. Eram  os grupos do Necô,  Dente de Ouro e  Saul, conforme explica a
senhora Emídia:

Existia aqui,  na região  de Paracatu, o  grupo de Necô que  atuava mais na
região  de Coromandel,  o Dente de  Ouro, na  área de Caetanópolis  e Saul,
especificamente,  em  Paracatu,  escondia-se  nas margens  do  rio  Aldeia.

Siqueira Campos  preocupava-se muito  com a atuação  desses bandoleiros que
pervertiam  a  verdadeira  razão  de  ser  da  Coluna.  Ocorreram  inúmeros
confrontos entre  a Coluna  e os agrupamentos  de bandidos, sendo  que, nas
proximidades  de Paracatu,  houve um  encontro e consequentemente  o embate
entre os adversários, assim descrito por Emídia:

Ocorreu um  confronto aqui perto de Paracatu. A luta  foi durante a noite e
os homens de Siqueira Campos lutaram pelados para que um colega não matasse
o outro.  A luta  foi corpo a  corpo e ao  passar a mão no  corpo do outro,
ficava sabendo quem era amigo ou inimigo. O meu pai, soldado 21, por ato de
bravura nessa  batalha, passou a ser Coronel  de patente, dada pelo próprio
Siqueira Campos.  O nome de meu  pai era Jorge José  de Oliveira e tinha na
época 23 anos.

Devido  às inúmeras atuações  dos bandoleiros  e às constantes  notícias da
Coluna, criou-se aqui em  Paracatu um clima de grande expectativa. Todos os
dias alguém comentava que os revoltosos estavam chegando à cidade, fato que
emerge do relato de Dona Lúcia Costa Silva:

Cada dia surgia a conversa que os revoltosos estavam chegando e as mulheres
que lavavam  roupa na praia saíam correndo  para se esconderem. As mulheres
morriam  de medo  e  os homens  não conversavam.  Tinha uma  mulher chamada
Francisca que  vivia cantando a  seguinte modinha: " A  casa dos revoltosos
não  se  varre com  vassoura,  varre-se  com bala  de  fuzil  e também  com
metralhadora."

A  probabilidade diária  da chegada  dos revoltosos  a Paracatu  afetou não
apenas  a população civil,  como também  o destacamento da  polícia militar
sediado na cidade, conforme conta o subtenente Santino Teixeira dos Santos:

O destacamento de Paracatu, da circunscrição do 3º Batalhão, naquela época,
tinha o  efetivo de sete soldados com um  Cabo Comandante. Os soldados eram
Santino  Teixeira (eu),  Manoel  Régis, Abílio  Francisco, Antônio  Pereira
Guedes, Francisco Ribeiro, José Vítor e Antônio da Silva 2º e era comandado
pelo Cabo  Serafim José  de Andrade e  já estava alertado, bem  como toda a
população.  Todos estavam  de  sobreaviso na  expectativa de  a  cidade ser
atacada  pelos Revoltosos,  isto  desde o  ano passado.  Os  boatos corriam
soltos e  se esperava o ataque, primeiro da  cidade vizinha de Capim Branco
(...)  Por isso  mesmo, todas  as noites,  por muito tempo,  o destacamento
saía,  menos o  soldado da  guarda na  cadeia, e  ia tomar posição  fora da
cidade, principalmente junto a  uma ponte que era passagem obrigatória para
Paracatu e  ali ficávamos entrincheirados,  às vezes por mais  de três dias
seguidos, esperando o aparecimento dos Revoltosos.

Aproximadamente uma semana antes da entrada de Siqueira Campos na cidade de
Paracatu, já  corria a  notícia de que  a Coluna estava vindo  em direção à
cidade, sendo  que as autoridades municipais  foram avisadas por telegrama,
conforme relatos do Sr.  José Benedito Soares Santana, Dona Noêmia Botelho,
Sr.   João   Soares   de   Oliveira   e   Dona   Marta   Adjuto   Brochado:

A   cidade  já   estava  avisada   pelo  mensageiro  da   Fazenda  Batalha.

Alguém recebeu um telegrama de Ipameri, avisando da chegada dos Revoltosos.

O Sr.  Afrânio Salustiano Pereira da Fazenda  Batalha mandou um peão avisar
que os Revoltosos estavam chegando em Paracatu.

Naquela época,  nós não  tínhamos telex, vinham os  telegramas trazidos por
mensageiros a  cavalo, lá do Rio Verde. Eu me  lembro do rapaz chegando com
esse telegrama para meu pai (Joaquim Brochado), do meu tio (...) Francisco
Botelho, avisando que Pires do Rio ficou sabendo que Siqueira Campos estava
indo para Paracatu. Ele  passou telegrama para papai, avisando que a Coluna
estava chegando a Paracatu.

Diante  da  provável  chegada  da Coluna  a  Paracatu,  tudo  indica que  o
destacamento policial não tomou  nenhuma providência, porque os boatos eram
diários,   conforme    observações   feitas    pelo   Subtenente   Santino:

Depois de esperar noites e dias inteiros, nós regressamos ao quartel para a
vidinha de costume. E  como nunca os Revoltosos apareciam, a vigilância foi
relaxando até acabar de tudo, pois, entre o povo e o destacamento a fuga da
Coluna Prestes para a Bolívia já era sabida.

O  Sr.  Joaquim  Brochado,  ao receber  o  telegrama  de Francisco  Botelho
avisando que  a Coluna estava  chegando a Paracatu, mandou  buscar armas no
Porto Buritis,  com o objetivo de defender  a comunidade, fato lembrado por
Dona Marta.

Papai (Joaquim Brochado) ficou  com a preocupação de arrumar armas. Pediu o
José Adjuto para ir  com o seu caminhão a Porto Buriti buscar armas. Lá, no
Porto,  tinha  muitas armas  e  José  Adjuto pegou  o  caminhão  e foi  lá.

Diante  dos   rumores,  boatos,   telegramas,  esperas  e   relaxamento  da
vigilância,  a Coluna  de Siqueira Campos  chegou a  Paracatu no dia  13 de
fevereiro de 1927, aproximadamente às 17 h e 30 min., conforme as seguintes
descrições:

No  dia 14,  não  houve expediente  na  Câmara Municipal,  devido à  cidade
achar-se em pânico com a invasão dos Revoltosos que, ontem pelas 17 horas e
meia, tomou-a de assalto.

Siqueira  Campo chegou  a  Paracatu no  dia  13/2/1927 às  17:30 da  tarde.

Chegaram a Paracatu os  Revoltosos, mais ou menos às quatro horas da tarde.

Os Revoltosos  aproximaram-se de  Paracatu pelo lado da  Serra da Contagem,
passaram pela Praia do  Vigário e invadiram a cidade pela Rua da Praça. Não
se sabe exatamente o  número dos revoltosos, uns dizem 50, outros, de 100 a
200 homens, conforme relatos:

Os  Revoltosos  apontaram na  Serra  da  Contagem, passando  pela Praia  do
Vigário e entraram na cidade pela Rua da Praça.

Os Revoltosos entraram pelo lado da Contagem, ninguém ficou sabendo exato o
número deles, se 100 ou 200 Revoltosos.

Eram aproximadamente uns 50 homens.

Eles  pegaram   a  cidade  de  surpresa,   eram  mais  de  100  Revoltosos.

A  tropa  de  cavalaria  comandada por  Siqueira  Campos  entrou na  cidade
atirando  e  gritando,  usavam chapelões  e  lenços  vermelhos no  pescoço,
estavam fortemente armados. Os revoltos não eram chamados pelos seus nomes,
cada componente da Coluna era conhecido e designado por determinado número.

Os revoltosos  entravam atirando  e gritando. Estavam montados  e tinham um
pequeno lenço vermelho no pescoço.

Quando ninguém  esperava ou receava mais ataque,  surge de repente um grupo
de  cavaleiros,  de  chapelões,  lenços vermelhos  no  pescoço,  fortemente
armados, invadindo a cidade num tiroteio sem fim.

Bateram na  porta vendendo quati e,  quando abri a porta,  vi os Revoltosos
entrando na  cidade e atirando, era um grupo grande.  O homem do quati saiu
correndo.

Os Revoltosos  estavam encavalados,  usavam chapéu tipo  cangaceiro e todos
estavam armados.

As pessoas  que residiam em Paracatu ficaram  atemorizadas com a chegada da
Coluna,  imaginaram uns  que  era Lampião  que estava  invadindo  a cidade,
outros, que era a Coluna de Carlos Prestes.

Os revoltosos queriam roubar e saquear a cidade.

O povo pensava que  era Lampião que tinha chegado à cidade e outros falavam
que era Carlos Prestes.

Inúmeras e  variadas foram as  atitudes dos paracatuenses com  a chegada da
Coluna. Uns saíram correndo pelas ruas, outros foram refugiar-se nas roças,
alguns  permaneceram  dentro  das   casas  e  umas  pessoas  passaram  dias
escondidas no capim meloso:

Na época, eu morava  no Largo do Santana, escutei um tiro e, quando cheguei
à janela,  vi muita  gente correndo com  colchão na cabeça e  roupa na mão.
Muita  gente, mas  muita  gente mesmo,  foi um  corre-corre  danado. Grande
quantidade de  gente foi  esconder no Capão,  perto da Fazenda  Sobrado, na
casa   de  Dona   Bernarda,   minha  avó,   lá  ficava   cheio   de  gente.

Os homens da cidade permaneceram dentro de casa.

Todo mundo foi se esconder na roça.

Os ricaços caíram fora de Paracatu.

Na época que os  Revoltosos estiveram aqui em Paracatu, eu fiquei escondido
no  capim meloso,  fiquei escondido  no meio  do mato, perto  da cachoeira.
Estava com medo de  eles me pegarem e me levarem embora. Fiquei no mato uns
dois dias.

Enquanto algumas pessoas procuravam  refugiar-se nos mais variados lugares,
alguns se  preocupavam em esconder  o dinheiro no telhado  ou enterrá-lo no
fundo do quintal:

Os homens da cidade guardaram o dinheiro no telhado.

Eu mesmo  tinha um baú  com algumas moedas de  prata e escondi o  baú em um
buraco no fundo do quintal de minha casa.

Os devotos católicos, com a chegada de Siqueira Campos, foram pedir auxílio
a Deus rezando o terço:

Saímos correndo  e fomos para a  casa do Osório. Chegamos  lá e encontramos
toda  aquela mulherada,  rezando o  terço com  aquele medo  horroroso. Eram
muitas   pessoas  rezando   lá  na   casa  do   Osório,  onde  é   agora  a
"Conscienciarte".

Não  ocorreu  resistência  da  população  com  a invasão  da  cidade  pelos
revoltosos, em  conseqüência da  ausência de armamento. Assim  diz o Senhor
Antônio Abraão Guerra:

O povo não resistiu, pois não possuía arma.

A  Coluna Siqueira Campos  dividiu-se em  dois grupamentos, um  grupo menor
atacou   a   cadeia   pública   e   outro  entrou   na   cidade   atirando.

Recordo-me  que estava  de  guarda nesse  dia, os  soldados Manoel  Régis e
Abílio,  os  quais  imediatamente   reagiram  sustentando  o  fogo  com  os
Assaltantes, sendo que o soldado Abílio derrubou um.
Eu me achava no  alojamento no quartel e, ao ouvir os tiros, procurei ver o
que se passava, e, até aquela hora, nem me lembrei dos Revoltosos. Ao ver a
cadeia sendo  atacada, procurei meu  fuzil e apanhei a  maior quantidade de
munição  que  pude,  para  remuniciar  os colegas.  Nós  tínhamos  recebido
bastante  munição  da Expedição  que estivera  em Paracatu no  ano passado.
Consegui, graças  a Deus, entrar na  cadeia pelos fundos e  passei a atirar
contra os assaltantes que também atiravam sem cessar. Pouco depois, pulando
pelos muros  e quintais, chegavam o cabo e mais  três colegas, já armados e
municiados e nossa resistência  aumentou, mas desgraçadamente a munição era
velha. Dois  cartuchos pifaram e o sujeito  escapou. Parece que o interesse
deles era  nos manter  ali cercados, enquanto  o grosso da turma  que vim a
saber ser  a Coluna  Siqueira Campos saqueava  o comércio. Assim  o combate
durou  pouco tempo  e  nossos atacantes  se  juntaram ao  resto da  Coluna.

No  ataque à Cadeia  Pública pelos  revoltosos, o soldado  Abílio conseguiu
alvejar e matar o Rebelde n.º 14:

A Polícia matou um Revoltoso.

Os soldados entrincheirados mataram  o Tenente Quatorze que era bancário no
Rio de  Janeiro e que tinha  entrado para o lado  deles na revolução em São
Paulo.

Um  soldado  matou  um  revoltoso  perto  da  cadeia,  perto  do  chafariz.

Um soldado matou uma  pessoa importante do grupo. Os revoltosos colocaram o
defunto no  cavalo e  ficaram andando com  ele na cidade,  tocando sanfona.

A  primeira  atitude  dos  Revoltosos  ao invadirem  uma  localidade  seria
neutralizar a  força militar,  no entanto, os  paracatuenses justificaram o
ataque à  Cadeia Pública  como ação para  libertar os presos,  ou porque os
invasores não gostavam da polícia:

Os Revoltosos tentaram soltar os presos.

Os  Revoltosos   não  gostavam  da  polícia   e  atacaram  o  Destacamento.

O ataque efetuado ao  Destacamento Policial provocou a fuga dos militares e
a cidade ficou entregue totalmente aos revoltosos.

Os  poucos  policiais,  depois   do  tiroteio,  tiveram  que  se  esconder.

Os   Revoltosos   não   ocuparam    o   prédio,   os   policiais   fugiram.

Com um Destacamento tão  reduzido e com a munição no fim, nada mais pudemos
fazer.

A  cidade  ficou  entregue  aos  insurretos  e  em  silêncio  profundo.  Os
revoltosos organizaram  rondas montadas, constituídas de  seis homens, para
patrulharem a cidade.

A cidade ficou em silêncio.

Toda a cidade passou  a ser patrulhada por um destacamento de seis homens à
cavalo.

Siqueira Campos  não permitiu que seu  companheiro, soldado Quatorze, fosse
enterrado  em  solo de  Paracatu.  Enterraram o  revoltoso, eliminado  pela
polícia, no Cemitério de São Sebastião.

O Revoltoso foi enterrado em São Sebastião.

O Revoltoso morto, enterraram-no em São Sebastião.

Siqueira  Campos não deixou  enterrar o  soldado revoltoso aqui  na cidade.
Levaram-no para sepultar lá no São Sebastião, foi lá que ele foi sepultado.

O Comandante da Coluna,  Siqueira Campos, utilizou uma das residências para
instalar seu  posto de comando, ou  seja, o Quartel General.  A respeito de
qual  casa onde  funcionou  o comando  revolucionário, existem  depoimentos
contraditórios, conforme podemos observar:

O Quartel  General dos  Revoltosos foi instalado  na casa do  seu pai, João
Abraão Guerra, casa comercial "Flor da Síria".

O Quartel  General dos  Revoltosos era na  casa do Sérgio  Ulhoa onde ficou
Siqueira Campos e um médico que acompanhava a Coluna.

A  primeira  medida  adotada  pelo comando  da  Coluna  foi  a procura  dos
milicianos foragidos, com o objetivo de vingar a morte do Soldado Quatorze.
Em  decorrência  dessa  caçada humana,  fuzilaram  um  rapaz que  costumava
vestir-se com roupas semelhantes à dos Soldados Legalistas. O paracatuense,
ao  atravessar a  rua com  destino a  sua casa,  foi confundido  como sendo
soldado,  recebendo  um tiro  na  cabeça,  disparado por  um dos  rebeldes,
segundo os depoimentos:

Os Revoltosos mataram um rapaz da família Neto Siqueira, ele estava vestido
com   roupa   cáqui   e   pensaram  que   era   um   soldado  da   milícia.

Mataram  um  rapaz  que   usava  roupa  cáqui,  filho  do  Sr.  João  Neto.

Um rapaz  da família João Neto, ao atravessar a rua  para ir para sua casa,
foi  baleado  na  cabeça,  ele  usava  roupa  cáqui  igual  à  da  polícia.

Os Revoltosos mataram um  paracatuense que gostava de usar roupa igual à da
força  policial. Dona  Maria Benvinda  era quem  criava esse rapaz  que foi
morto,  ele  usava,  inclusive,  um  boné  igual  ao  da  Polícia  Militar.

A  caçada aos  defensores  da legalidade  incluía a  pessoa do  Delegado de
Polícia  que era  o Senhor  Pedro Santana  que se  refugiou em  uma fazenda
pertencente à família dos  Meireles, mas não foi encontrado; como sustentam
as narrativas:

O Delegado se escondeu e não foi encontrado.

O  Delegado  fugiu para  a  Fazenda  do Muquém,  pertencente aos  Meireles.

O Delegado da cidade era o Sr. Pedro Santana que fugiu da cidade deixando a
família. A  casa do  Delegado foi vasculhada  pelos Revoltosos e  a Senhora
Firmina  por  pouco  não  foi presa,  pois  se  escondeu  embaixo da  cama.

O  Delegado chamava  Pedro  Santana e  ele fugiu  da  cidade porque  um dos
soldados matou um Revoltoso  e Siqueira Campos não perdoou e queria matar o
Delegado.

Na  busca  ao  Delegado  de  Polícia,  os Revoltosos  receberam  uma  falsa
informação de que o  Delegado era o Sr. Osório Botelho. Efetuaram a prisão,
não  apenas do  Sr. Osório Botelho,  como também  de seus filhos  Joaquim e
Fortunato. Os  três foram colocados em fila  para serem fuzilados por ordem
de  Siqueira  Campos,  fato  que não  ocorreu  devido  ao  engano ter  sido
esclarecido a tempo. Acontecimento  lembrado por Dona Noêmia Botelho e Dona
Marta Adjuto Botelho:

Os Revoltosos  pensaram que o Sr.  Osório ainda era Delegado  e colocaram a
família dele  em fila para matar.  Não fuzilou, porque alguém  avisou que o
Sr. Osório não era mais o Delegado.

Estávamos na casa do  Osório quando Siqueira Campos foi abrindo as portas e
chegou lá  na sala de jantar onde estávamos  rezando e foi logo perguntando
se naquela casa morava  o Delegado de Polícia. Todo mundo negou e falou que
ele era  fazendeiro. Siqueira Campos  estava com barba preta  cerrada e era
meio  baixo.  Ele perguntou  quem  era  o Delegado  e  ninguém falou  nada.
Siqueira  Campos pediu desculpas  e saiu.  Logo depois ficaram  sabendo que
Siqueira Campos tinha pego Osório, Joaquim e Fortunato. Joaquim e Fortunato
era filhos de Osório.  Siqueira Campos, em frente a casa do Osório, colocou
todo mundo  em fila.  Pôs o Osório  na frente, Fortunato no  meio e Joaquim
atrás, chamou um Revoltoso  e mandou que ele colocasse o fuzil apontado prá
eles  e, ao  receber  o sinal,  deveria disparar  a arma  e matar  os três.

Quando Siqueira Campos foi  saindo da casa pedindo desculpas, logo o Osório
entrou, indo  ao nosso encontro e  falou, chorando de nervoso,  o que tinha
acontecido.

Fazendo  parte  da  Coluna,  existia  uma  mulher  que  conhecia  Paracatu,
indicando para  Siqueira Campos as pessoas que  detinham o poder político e
econômico  da  cidade,  assim   afirma  o  Sr.  João  Soares  de  Oliveira:

Tinha  uma  mulher no  meio  dos revoltosos,  ela  conhecia a  cidade e  as
famílias que  possuíam dinheiro. Ela se vestia como  homem e ficava no meio
deles.

Siqueira Campos mandou prender  os líderes da cidade que foram recolhidos à
casa do Presidente da Câmara, Senhor Luís Santana. Foram presos os senhores
Joaquim Brochado, Jorge Batista,  João Macedo, Luís Santana, Leopoldo Faria
e Osório Botelho.

Prenderam  e   reuniram  todo  mundo  na   casa  do  Lula  (Luís  Santana).

Prenderam  o Presidente  da Câmara  Luís Santana. Prenderam  também Joaquim
Brochado e Osório Botelho.

Prenderam o Dr. Joaquim Brochado e o Dr. Luís Santana.

Siqueira  Campos reuniu  na  casa do  Lula Santana,  que era  Presidente da
Câmara, a liderança da  cidade. Reuniu lá o meu pai Joaquim Brochado, Jorge
Batista,   João  Macedo,   Luís   Santana  (Lula)   e  o   Leopoldo  Faria.

Na reunião  realizada na  residência do Sr.  Luís Santana, o  comandante da
Coluna, Siqueira Campos, exigiu que a liderança de Paracatu lhe entregasse,
naquela noite, determinado valor em dinheiro, sendo que a metade da quantia
era para pagar o  Imposto de Guerra e a outra metade, pela morte do soldado
Quatorze.

Exigiram dos  políticos e das  principais pessoas da cidade,  cem contos de
réis.

Os Revoltosos exigiram sessenta contos de réis.

Exigiram duzentos  contos de  réis para serem entregues  naquela noite. Dos
duzentos contos de réis,  cem eram para pagar a morte do soldado Quatorze e
cem, para pagar o Imposto de Guerra.

Siqueira  campos foi  taxativo  ao afirmar  que,  se acaso  a liderança  da
comunidade não lhe entregasse  o valor estipulado, ele mandaria incendiar a
cidade.

Os revoltosos  colocaram latas de querosene perto  de um sobradinho, na rua
Sérgio  Ulhoa,  para pôr  fogo  na  cidade se  não  arrumassem o  dinheiro.

Um  médico  da  Coluna  avisou para  Dona  Zélia  e  Dona  Blandina que  os
Revoltosos iriam colocar fogo  na cidade. Que o combustível estava perto de
um sobradinho que hoje é a Drogaria Santiago.

Da Casa "Flor da  Síria" retiraram vinte caixas de gasolina, cada caixa com
vinte litros. O objetivo era colocar fogo na cidade.

Siqueira Campos falou que a cidade estava rodeada de latas de gasolina para
pôr fogo na cidade se o dinheiro não lhe fosse entregue.

O Senhor  Joaquim Brochado, ciente de que  a comunidade não teria condições
de arrecadar o valor estipulado por Siqueira Campos, salientou na reunião a
impossibilidade de cumprir a exigência que estava sendo imposta ao grupo.
Depois de  muito diálogo, o líder  revoltoso fixou a quantia  a ser paga em
cinqüenta contos de réis.

Meu pai,  Joaquim brochado, falou  que não tinha jeito  de arrumar duzentos
contos,  porque a  cidade  era pobre  e Siqueira  Campos foi  abaixando até
chegar a cinqüenta contos de réis.

Arrumaram para os Revoltosos, cinqüenta contos de réis.

O depoimento da Senhora  Izabel Santana Carneiro, filha do Agente Executivo
Luiz  Santana  Júnior, a  respeito  da  Reunião de  Siqueira  Campos com  a
liderança da cidade é esclarecedor.

O  papai era o  prefeito na época  em que  os revoltosos estiveram  aqui em
Paracatu. Quando  papai ficou  sabendo que os  Revoltosos estavam chegando,
mandou  levar todos os  seus filhos para  a casa  do nosso tio,  Dr. Sérgio
Ulhôa, e  lá nós ficamos. Quando os  revoltosos chegaram, prenderam o papai
lá dentro  de casa e depois trouxeram  o nosso cunhado, Francisco Carneiro.
Os dois ficaram presos  lá em casa. Depois, Siqueira Campos mandou chamar o
pessoal que podia dar  dinheiro. O papai falou com Siqueira Campos que aqui
era uma  cidade pobre e só  tinha dinheiro quando os  fazendeiros vendiam o
gado. Eles  queriam 120.000$ (cento  e vinte contos). O  papai só conseguiu
levantar 60.000$  (sessenta contos), foi então  que eles prometeram colocar
fogo na  cidade. Os revoltosos, então, puseram as  latas de querosene lá em
frente da Igreja do  Amparo e os revoltosos iam jogar o querosene nas casas
e colocar fogo em toda a cidade. Foi então que papai chamou Siqueira Campos
e  falou com  ele para  aceitar os 60.000$  e o  resto ele pagaria  com sua
própria vida,  desde que  ele não pusesse  fogo na cidade.  Siqueira Campos
aceitou o dinheiro recolhido  e falou com o papai que ia embora, mas que se
resguardasse,  porque a  Coluna  ia sair,  mas a  retaguarda da  Coluna era
formada para gente muito perigosa.

Os líderes  da comunidade que  estavam presos na residência  do Senhor Luís
Santana foram liderados para  arrecadarem o valor exigido. O Senhor Antônio
Brochado  foi quem  forneceu  parte da  quantia a  ser entregue  a Siqueira
Campos,  sendo  que  o  restante foi  conseguido  entre  os comerciantes  e
fazendeiros paracatuenses.

O Sr.  Antônio Brochado  tinha vendido uma  fazenda e estava  com dinheiro,
completando a quantia para  os Revoltosos. Os comerciantes e fazendeiros de
Paracatu foram  quem arrumaram  o restante. Era muito  difícil ter dinheiro
naquela época.

O pessoal  saiu atrás  do dinheiro e  foi arrumar com  Antônio Brochado que
tinha  acabado de  vender uma  boiada e  o restante do  dinheiro, arrumaram
pedindo de casa em casa.

O irmão  do Dr.  Joaquim Brochado emprestou  cinqüenta contos de  réis, que
foram entregues aos Revoltosos.

Os revoltosos,  com o desejo de completarem  suas informações a respeito da
cidade, interceptaram um senhor  reconhecido como "Bernardo Carne de Porco"
e pediram-lhe  que indicasse  o local da  residência de algumas  pessoas da
cidade.  O  Senhor  Bernardo  não  querendo  se envolver,  usou  de  alguma
artimanha,  sendo atormentado  pelos  invasores, conforme  relatos de  Dona
Noêmia Botelho e do Senhor Rosário Neiva:

Pegaram  um vendedor  de carne  de porco,  amarraram-no e  fizeram-no beber
pinga misturada com goiabada e queijo.

Pegaram  Bernardo Carne  de Porco que  era vendedor  de carne de  porco nas
casas e  queriam saber dele o endereço da liderança, ou  onde era a casa do
Fulano de tal, mas ele enrolou a língua fingindo falar só turco. Pegaram-no
e  levaram-no  para  o  armazém de  Quintino  Vargas.  Lá arrumaram  pinga,
cerveja, cocada baiana, doce de coco e enfiaram garganta abaixo do Bernardo
e, quando ele saiu de lá, saiu engatinhando.

Salientamos  anteriormente  que   José  Adjuto,  utilizando  seu  caminhão,
dirigiu-se para  o Porto  Buriti com a  finalidade de buscar  armamento. Ao
anoitecer, o Senhor José  Adjuto estava de volta a Paracatu, com o caminhão
repleto de armas e munições, não podendo entrar da cidade, conforme podemos
observar pelo relato de Marta Adjuto Brochado:

O  Manoel Mascarenhas,  sabendo da  preocupação de  Joaquim Brochado  com o
caminhão de  José que deveria chegar,  entrou no Córrego dos  Meninos e foi
sair lá perto do Catuí, passando pelas grotas e se escondendo. Lá ele ficou
escondido e,  quando escutou o barulho do caminhão,  ele saiu na correria e
mandou o caminhão parar.  Jogaram toda a arma fora, na grota e entraram com
o  caminhão vazio.  O José estava  trazendo também  um doente de  maleita e
quando o  um revoltoso parou, ele falou que estava  levando o doente para o
médico e deixaram-no passar.

A porta  da Escola Normal foi arrombada  pelos revoltosos para que pudessem
se  apossar  do  mapa   de  Minas  Gerais,  assim  afirma  Marta  Brochado:

A Escola Normal que  funcionava onde é hoje a Casa de Cultura foi arrombada
pelos   Revoltosos  para  tirar   o  mapa   do  Estado  de   Minas  Gerais.

As  casas comerciais foram  invadidas pelos  homens de Siqueira  Campos que
retiraram  o  que  quiseram  para suprir  suas  próprias  necessidades e  o
restante  foi   jogado  nas  ruas  e   nos  córregos  próximos  da  cidade.

Entraram   nas    casas   comerciais   e   tiraram    o   que   precisavam.

Eles entraram nas lojas e, no dia seguinte, encontramos, na praia, uma peça
inteira   de   tecido   verde   que   os   Revoltosos   jogaram   no   rio.

Estragaram toda a mercadoria  do Senhor João Abraão Guerra, no total de cem
contos de réis.

Entraram em  todas as casas de secos e molhados,  tiraram tudo e davam para
os  pobres. O  meu  irmão, Alexandre  Soares de  Oliveira, ganhou  uma peça
inteira de brim.

Tiraram muita mercadoria da Casa Santiago.

A  Coluna Siqueira  Campos, no  curto período  em que  esteve na  cidade de
Paracatu, não provocou danos à população em geral. As residências não foram
arrombadas e  as famílias  não foram molestadas.  Assim confirmaram algumas
das pessoas entrevistadas:

Não atacaram as famílias.

Os Revoltosos não mexeram com nenhum pobre, deram prejuízo apenas às lojas.

Vi o Siqueira Campos,  era uma pessoa muito delicada e falou que poderíamos
ficar tranqüilos,  que não iria fazer nada, só  pretendia tirar dos ricos e
dar aos pobres.

Siqueira Campos passou perto de um Senhor que usava um relógio com corrente
de  ouro.  Siqueira Campos  pediu  ao Senhor  para  guardar o  relógio e  a
corrente, caso contrário não poderia se responsabilizar.

O Alto Comando da  Coluna Siqueira Campos foi recebido na residência do Sr.
Joaquim de Moura Santiago, para uma pequena refeição, o que é lembrado pelo
Sr. João Soares de Oliveira:

O Sr. Joaquim de  Moura Santiago recebeu a liderança dos Revoltosos na Casa
Santiago para  um suculento café.  Eu mesmo ajudei a  servir os revoltosos.

Siqueira  Campos,  Capitão  Costa  e  o  Capitão  Granuel  foram  juntos  à
residência de Sérgio Ulhôa,  conforme depoimento da Senhora Izabel Santana.

O meu tio, Sérgio  Ulhôa, era amigo de Siqueira Campos, na época em que ele
estudou fora. Siqueira Campos, o Capitão Costa e o Capitão Granvel jantaram
na casa do  meu tio. O meu tio nos apresentou a  todos e falou com Siqueira
Campos  que   nós  éramos  filhos  do   Agente  Executivo  e  que  tivessem
consideração e  poupassem a vida do  papai. Eu lembro que  era muita gente,
era  um pessoal  sujo, cabelo  grande, fedorento,  não riam para  ninguém e
todos estavam a cavalo.

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                   IV. Os Revoltosos Abandonam Paracatu.

No dia 14 de fevereiro, na parte da manhã, a Coluna Siqueira Campos deixou
a cidade de Paracatu indo em direção a Unaí

Na parte da manhã do outro dia saíram da cidade.

Foram para Unaí, na parte da manhã do dia 14 de fevereiro.

Sabemos que pelo menos um paracatuense acompanhou a Coluna, conforme
declaração do Senhor Walter Pereira Mundim que diz:

Meu avô Marcelino foi um revoltoso em 1927. Ele foi embora, junto com
Siqueira Campos, acompanhando os seus seguidores e morreu por lá.

A  Polícia  Legalista chegou  em  Paracatu  logo após  a  saída da  Coluna,
conforme os relatos:

Logo  após a  saída de Siqueira  Campos, chegou  o reforço dos  soldados de
Minas. Quando a tropa  do governo de Minas chegou, um homem saiu correndo e
gritando: - Vem a segunda dose!

As  autoridade de Paracatu  pediram reforço,  mas quando a  polícia chegou,
eles já tinham ido embora.

Siqueira Campos,  ao abandonar a  cidade, aqui deixou um  grupo de rebeldes
denominado Grupo  da Perfeição, comandado por Jorge  José de Oliveira com a
finalidade de  combater os  jagunços que praticavam ações  de banditismo em
nome da Coluna, fato que emerge no relato de Dona Emídia de Oliveira Lemos:

Quando a Coluna foi embora, Siqueira Campos mandou que o soldado Vinte e Um
(Jorge  José de Oliveira)  ficasse na  região como Coronel  para desmanchar
todo  mal  entendido  que  ocorresse  e  desbaratasse todos  os  grupos  de
bandoleiros que  estavam agindo na região e colocando  a culpa na Coluna. O
soldado Vinte  e Um ficou aqui  na região com um  grupo de Revoltosos. Eles
ficaram  instalados  na Fazenda  São  Caetano.  O grupo  de Revoltosos  que
permaneceu aqui  em Paracatu era  formado por sete soldados  e o Comandante
que era meu pai.  Este grupo foi denominado por Siqueira Campos de Grupo da
Perfeição. O  soldado Vinte  e Um conseguiu  penetrar no grupo  do Dente de
Ouro, para  minar a liderança que  a chefia exercia. Mas,  foi descoberto e
houve um tiroteio onde  morreram dois elementos do bando. O grupo do Necô e
do Saul  marcaram um encontro  aqui em Paracatu para  incendiarem a cidade.
Roubaram latas  de querosene em um armazém que  existia onde é atualmente a
Caixa Econômica.  (...) foi quando papai chegou  com o seu Grupo Perfeição;
ocorreu  um  verdadeiro  tiroteio  e  os  dois  grupos  conseguiram  fugir.

De Paracatu,  Siqueira Campos dirigiu-se para  Unaí, fato descrito pelo Sr.
Gessy Manoel Teixeira.

A mamãe me contou que, quando Siqueira Campos passou por Paracatu, a Coluna
foi  dormir lá  em São  Sebastião. Na  fazenda de  meu avô,  eles jantaram,
dormiram  e  almoçaram.  Eles  saíram  depois  do  almoço  e  meu  pai  foi
seqüestrado para  levar a Coluna até  Unaí. E de Unaí,  queriam que meu pai
continuasse,  mas  ele  não  aceitou e  eles  arrumaram  uma outra  pessoa.
Siqueira Campos queria queimar  a ponte do Rio São Pedro e papai falou para
ele  não queimar,  que  era muito  difícil construir  uma  ponte e  ele não
queimou a ponte.

Passando por Unaí, a  Coluna Siqueira Campos seguiu sua marcha em direção a
atual  cidade de  Arinos  e depois  subiu pela  margem  direita do  rio São
Francisco  passando por  São  Romão e  São  Francisco, indo  depois para  o
Paraguai.

De  Paracatu,  Siqueira  campos  dirigiu-se  para  Unaí  indo  internar-se,
finalmente,  na República  do Paraguai  em 24/03/1927, depois  de percorrer
nada menos do que  9000 quilômetros em cinco meses, chegando a fazer até 20
léguas por dia.

No Paraguai, Siqueira Campos  dedicou-se a ajudar os revoltosos que estavam
com Carlos Prestes na Bolívia.

Em  território estrangeiro, procurou  Siqueira Campos,  de março de  1927 a
princípios  de 1928,  fazer nos  países do  Prata a cobertura  logística da
Coluna  Prestes, internada em  La Gaíba,  Bolívia. Buscava emprego  para os
companheiros que  tentavam viver em outro  local, mandava medicamentos para
os  que ficaram  na Bolívia.  Correspondia com  os que necessitavam  de sua
fortaleza moral  para prosseguirem  com os objetivos  da revolta. Realizava
pequenos trabalhos de topografia,  apenas para viver, mas não como ocupação
principal.

Conforme declaração prestada por  Lindolfo Espschit no Jornal "O Movimento"
de Paracatu, é salientado  que Siqueira Campos ficou instalado no Paraguai,
com ação  até Buenos Aires e  Montevidéu, para o serviço  de contrabando de
armas e munição, visando apoio a Getúlio Vargas.

Usando nomes falsos e  disfarces, correndo toda a sorte de riscos, Siqueira
Campos esteve  inúmeras vezes  no Brasil, depois  de 1928 para  articular a
conspiração de 1930.

Em  uma de  suas missões no  Brasil, Siqueira  Campos recebeu uma  cópia do
Manifesto  Comunista  que  Carlos  Prestes ia  lançar  à  Nação. Num  gesto
extremo, partiu para Buenos Aires a fim de tentar uma mudança na atitude de
Prestes. O  encontro que teve com  Prestes, na noite de  9 de maio de 1930,
foi improfícuo. Na travessia do Rio da Prata, realizada na madrugada do dia
seguinte, o  avião do  "Aeropostale" caiu em frente  a Montevidéu, morrendo
Siqueira campos.

Foi sepultado no Cemitério  da Consolação, sob grande consternação popular.
Coube ao  pai, Raimundo Pessoa de Siqueira  Campos, após ouvir os discursos
fúnebres de vários oradores, as palavras finais:

Tony... meu filho, a  pátria ganhou mais um herói, mas perdi você. Descanse
em paz.

Siqueira  campos, oficial  do Exército,  tudo abandonou  com o  objetivo de
lutar por um ideal,  que sua consciência indicava como correto. Passou pelo
cerrado mineiro  como uma estrela cadente, deixando  em Paracatu a marca de
sua própria história.

                             Ad astra per ardua

   (Chega-se a resultados sublimes por caminhos estreitos)

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