Inquérito Policial Militar Interrogatório do
Tenente Siqueira Campos (14 de julho de 1922)
Aos quatorze dias do mês de julho do ano de mil novecentos e vinte e dois,
nesta Capital Federal, no Hospital Central do Exército, onde se
achava o General-de-Divisão Augusto Tasso Fragoso, encarregado do
presente inquérito, comigo, Capitão Milton de Freitas Almeida,
servindo de escrivão, aí encontrou o
Primeiro-Tenente Antônio de Siqueira Campos, que devia ser
interrogado sobre os fatos constantes dos documentos que lhe foram lidos.
E logo aquela autoridade passou a interrogá-lo na seguinte forma:
Perguntado qual o seu nome, idade, filiação, estado,
naturalidade, praça e corpo a que pertencia, respondeu se chamar
Antônio de
Siqueira Campos, com vinte e quatro anos de idade,
filho de Raimundo Pessoa de Siqueira Campos, solteiro, natural do
Estado de São Paulo, e pertencer à Quarta Bateria Isolada de
Artilharia de Costa.
Perguntado como se tinham passado os fatos constantes dos
referidos documentos, respondeu o seguinte: na noite de quatro o
depoente já havia recebido, digo, resolvido rebelar-se com os
seus companheiros quando chegou ao
Forte de Copacabana o General Bonifácio Costa. O
movimento estava combinado para uma hora da madrugada em que de fato
começou, pois nessa hora se deu o primeiro tiro de canhão, mas, como o
General Bonifácio Costa se apresentou ao
Forte antes disso querendo retirar o comandante,
ele e seus companheiros resolveram impedir a saída do general e
assim dar princípio à revolta. O depoente passou o resto da noite
no corpo da guarda encarregado da defesa externa, que, àquela
hora, parecia a mais importante. Ouviu disparos feitos com peças
do Forte, os quais, segundo lhe informaram, não eram contra a
cidade. Nessa noite o depoente prendeu um segundo-tenente de
infantaria, que lá apareceu de automóvel, juntamente com duas
praças que o acompanhavam, evitando assim que se espalhassem
notícias sobre a situação do
Forte. No dia cinco, o deponente
melhorou a defesa da parte externa, afastando mais as patrulhas e
mantendo-as nos morros próximos, de modo a conservar as
comunicações do
Forte com os fornecedores de víveres, a fim de
economizar o mais possível o estoque de que dispunham. Na tarde
de cinco, chegaram os primeiros tiros de Santa Cruz, que
produziram algum alarme entre os soldados, não acostumados a
isso, e ante uma ordem de retirar, que foi mal comunicada ao
depoente, digo, e ante uma ordem de retirada que foi mal
comunicada ao depoente, que mandou que todos se recolhessem ao
Forte, tendo determinado a inutilização de um canhão Schneider,
que estava do lado de fora, auxiliando a defesa externa. Verificando depois
que a ordem de retirada havia sido mal transmitida, determinou ao pessoal
que voltasse a seus postos, indo o depoente ao
Forte, falar diretamente ao comandante. Depois de rápida
conferência e de verificada a necessidade do funcionamento do holofote
nessa noite, em que já estavam prevenidos que seriam atacados pelos navios
da esquadra, ficou combinado que o depoente teria a seu cargo o holofote.
Em vista disso, o depoente dirigiu-se ao alto da colina, em que se
encontrava instalado o referido holofote, acompanhado dos
Tenentes Eduardo Gomes, Nilton Prado e de algumas praças, todos
resolvidos a fazer funcionar o holofote até o último momento. O
depoente passou a noite nesse ponto, tendo posto em atividade o
holofote várias vezes. Pela manhã, recebeu, digo, tendo posto em
atividade o holofote várias vezes para verificar se estava bem,
mas sem utilizá-lo para o exterior, visto não haver recebido
ordens neste sentido. Na manhã de seis, o depoente recebeu um chamado
telefônico para ir ao
Forte couraçado, transmitido pelo Tenente Nilton que
tinha descido durante a noite, deixando o depoente só com o
Tenente Eduardo Gomes. O depoente retirou-se com os que estavam
sob suas ordens deixando apenas três sentinelas, que só poderiam mais
tarde recolher-se ao
Forte caso fossem atacados por terra, passando por dentro d’água.
A situação que o depoente encontrou no
Forte era quase de pânico, pois, ante a certeza de que o
Forte de Copacabana estava isolado no, digo, só no movimento, como
garantira, com a sua palavra, o Sr. Ministro da Guerra, e ante a
garantia de vida que se prometia aos revoltosos (tudo por meio do
telefone), os camaradas estavam resolvidos a abandonar o
Forte. O depoente tentou dissuadi-los desse propósito; com alguns
não pôde falar, porque já se haviam retirado. O depoente nada conseguiu.
Por volta de sete horas, só se encontravam no
Forte o Comandante Euclides Hermes, o depoente, os
Tenentes Eduardo Gomes, Nilton Prado e Mário Carpenter, dois
sargentos eletricistas, um cabo artilheiro, algumas praças e quatro civis,
perfazendo um total de vinte e oito pessoas. Todas elas estavam resolvidas
a não se entregar em hipótese nenhuma. A essa hora começou o bombardeio do
Forte, tendo o depoente, com os Tenentes Nilton e Carpenter e
algumas, digo, umas cinco praças, ido guarnecer a cúpula de 190mm.
Atiraram com ela contra o QG, contra a Ilha das Cobras, contra a
segunda bateria e contra o Palácio do Catete. Os dirigidos ao
Palácio do Catete se encristaram, conforme observou o depoente; o
erro proveio de ter o depoente, digo, de não ter o depoente
consigo, na ocasião, a tabelada para carga reduzida, digo, a
tabela para carga reduzida, que o depoente havia calculado.
Preparava-se para atirar contra Santa Cruz, quando recebeu um
chamado do Capitão Hermes, que procurava sozinho fazer funcionar
a cúpula de 305 mm. O capitão perguntou-lhe se estava atirando
contra a cidade, ao que ele respondeu que só estava fazendo
contra pontos determinados. O capitão insistiu para que a cidade
fosse poupada. Nessa hora, o Capitão Hermes foi chamado ao
telefone da parte do Ministro da Guerra, que pedia cessassem o
fogo porque o
Forte estava só, assim sendo deviam eles desistir
daquele sacrifício inútil. Então combinaram com o Ministro parar
o fogo sob condição que mais tarde assentariam com o Major Egídio
de Castro e Silva, oficial que o Ministro prometera mandar ao
Forte para esse fim, levando em sua companhia o Tenente Pacheco
Chaves. Em vista disso, o comandante determinou cessasse todo o
movimento do
Forte, inclusive as usinas. O depoente saiu para o
exterior a fim de ver o que havia; estava fora quando um
hidroavião atirou uma bomba, que caiu a cinco metros da muralha
dentro d’água. Retirou-se para o
Forte, tendo ficado aguardando, perto do portão, o parlamentar
do Ministro, o Tenente Nilton Prado.
Algum tempo depois, avizinhou-se outro avião (Briguet, de
bombardeio) e lançou outra bomba, que tocou em terra, atrás do
Forte couraçado, e do lado do mar. Poucos momentos depois, chegou
correndo o Tenente Nilton e contou que vinha com o parlamentar do
Ministro para dentro do corpo da guarda, quando, ao defrontar o
cassino dos oficiais, caiu a segunda bomba. Referiu o Tenente Prado
que, vendo a queda da bomba, ato contrário ao combinado, disse ao
Major Castro e Silva: "Como vê, só nos resta agora atirar até o
fim". Avançou então o Tenente Chaves e, depois de lutar
algum tempo com o Tenente Nilton Prado, lançou-o dentro d’água
sobre as pedras. Nessa altura, os oficiais se reuniram e decidiram
continuar no primitivo propósito, mas, lembrando-se que dos oficiais
presentes era o comandante o único que tinha família, resolveram induzi-lo
a ir parlamentar com o Governo, levando condições que eles sabiam
de antemão serem inaceitáveis. Esse ato dos oficiais restantes
para com o Capitão Euclides Hermes era ditado por um sentimento de
gratidão para com o chefe, que sempre lhes dera as maiores provas
de amizade e que naquela hora demonstrava rara coragem. O
comandante partiu, tendo antes entregado o comando do
Forte ao depoente. Aguardaram comunicação direta do comandante
até cerca de uma hora da tarde. Nessa hora, o depoente atendeu o telefone
e ouviu esta frase (mais ou menos): "Quem fala aqui é o Coronel
Malan; o Capitão Euclides Hermes está preso; vou passar-lhe o
telefone para falar com o Senhor". De fato, a seguir, falou-lhe o
Capitão Hermes, prevenindo-o da sua prisão e de não haverem sido
aceitas as condições por ele propostas. Acrescentou que o Governo
determinava que a rendição se fizesse dentro de quinze minutos,
e, deste modo, cada um sairia do
Forte isoladamente e desarmado,
iria entregar-se às tropas mais próximas. Terminou pedindo
poupassem Copacabana e a cidade. O depoente nada respondeu.
Reunidos os companheiros, oficiais e soldados, resolveram
abandonar o
Forte para que um bom[ilegível]
Forte e contra ele) não fosse provocar mais vítimas
estranhas à questão. Decididos como estavam de ir até o fim com a causa
que haviam abraçado, com a qual haviam empenhado a sua honra e dignidade,
foram todos unânimes em que se abandonasse o
Forte e fossem, armados de fuzil e revólver, entregar a vida à
primeira tropa que encontrassem. Saíram pois todos armados e juntos, a
fim de mostrar que repeliam as condições do Governo. A bandeira do
Forte foi fragmentada em vinte e oito pedaços; cada um recebeu
o seu, o depoente guardou o dele e o que era destinado ao
Capitão Euclides. Marcharam pela
praia de Copacabana mais de um quilômetro sem encontrar tropa.
Em caminho, explicavam aos moradores os motivos por que haviam
abandonado o
Forte. Foram assim até a altura do Hotel Inglês,
onde beberam água. Já haviam encontrado oficiais e praças do
Terceiro Regimento, que lhes gritavam de longe que se rendessem,
ao que eles respondiam que fizessem fogo contra eles. Continuaram
pela
praia até a rua que passa em frente à Igreja, situada na
Praça Serzedelo Correia; aí receberam tiros e começou o tiroteio.
A princípio, ficaram em pé na
Avenida Atlântica e depois passaram à
praia. Pouco tempo antes, um civil se havia aproximado do grupo
e, mostrando-se indignado com a situação, pediu uma arma; como o
Tenente Nilton tinha um fuzil e um revólver, passou-lhe o fuzil; o
depoente entregou-lhe também o fragmento da bandeira destinado ao
Capitão Euclides. O tiroteio continuou forte da parte dos
atacantes e pouco intenso do lado dos que acompanhavam o
depoente, que recomendava economizassem a munição, a fim de não
caírem prisioneiros por falta dela.
Começaram a cair os feridos; o primeiro foi o
Tenente Eduardo Gomes, seguiu-se-lhe o civil, que tombou
sem pronunciar palavra, nem fazer nenhum gesto; depois o
Tenente Nilton, que se queixou da perna quebrada; depois o
depoente, com uma bala na região abdominal, escutando, apesar de ferido,
que o tiroteio continuava já reforçado por metralhadoras. No meio da ação,
notou que alguns de seus companheiros queriam cessar o fogo; disse então
o depoente ao Tenente Carpenter que dirigisse esses tais
desarmados no rumo da igreja e que ele, Carpenter, com os mais que
ficassem, não atirassem nessa direção. Sabe que alguns caíram; não pode
verificar porque estava ferido e deitado na areia. Momentos
depois o tiroteio cresceu de intensidade, enquanto ao lado do
depoente só um ou outro respondia. Afinal o depoente ouviu
gritos, escutou estas palavras: "Levantem, levantem"; viu o Tenente
Nilton, mesmo deitado, usar do seu revólver, gesto que o depoente
não pode imitar por falta de forças. As tropas do Governo
aproximaram-se e transportaram a braços o depoente.
Perguntado por que se rebelou contra o Governo respondeu porque
achava que os últimos atos dele, já na questão das candidaturas
presidenciais, já no caso de Pernambuco e, finalmente, no caso
puramente militar da prisão do Marechal Hermes e nas notas
consecutivas, enfim, de um modo geral, a maneira por que o
Governo tratava o Exército, segundo acha o depoente, permitia a
esse Exército todos os atos de revolta. Perguntado se sabia que o
levante do seu
Forte seria secundado pelas tropas da Vila Militar
e pelas demais fortalezas da barra, respondeu que era essa a
combinação. Perguntado se sabia que o Marechal Hermes e outros
generais contrários ao Governo iriam à Vila Militar encabeçar as
tropas e apoiar a atitude do
Forte, respondeu que sabia que um general devia ir a
Vila Militar, buscar as tropas e que seria esse o chefe
momentâneo do governo. Perguntado qual o nome desse general, respondeu
que ao certo não sabia, pois eram muitos os indicados. Perguntado quais
os nomes dos indicados, respondeu que ignorava; perguntado se sabia que
a Escola Militar se iria levantar na mesma hora que o
Forte de Copacabana, respondeu que assim esperava, pois que
também era da combinação. Perguntado se o Capitão Euclides Fonseca
o havia convidado para a revolta, respondeu que nunca. Perguntado se
tomou parte em reuniões de caráter subversivo ou se assinou algum
compromisso, respondeu que não. Perguntado se havia muitos civis no
Forte e se esses se armaram para combater ao lado da guarnição,
respondeu que viu uns quatro, mas que não lhes sabe os nomes; a todos
preveniu que, em caso de derrota, eles teriam de morrer com a guarnição.
Perguntado se viu o canhão Schneider ser lançado dentro d’água,
respondeu que viu e auxiliou o lançamento. Perguntado se foi
feito por ordem dele, respondeu que sim, em vista da ordem de
retirada que havia recebido. Perguntado se antes do lançamento
não retirou do canhão a culatra e o aparelho de pontaria,
respondeu que não, que tudo funcionava perfeitamente. Perguntado
como explicava ter sido achada, dentro d’água, a culatra separada
do canhão e também a alça ótica, respondeu que não sabia
explicar. Perguntado por que não tentou, por amor ao exército,
retirar somente a culatra e deixar incólume o canhão, que o
depoente sabia ser propriedade de um fabricante e estar em nossas
mãos apenas para experiência, respondeu que não havia tempo e,
mesmo que houvesse, a culatra poderia ser substituída com
facilidade e o canhão utilizado contra o
Forte. Perguntado se assistiu às sessões no Clube Militar
relativas à carta atribuída ao Dr. Bernardes e se votou a moção
de aplauso à comissão pericial, instituída pelo mesmo clube, respondeu
que não, pois que não era sócio do clube. Perguntado se tentou atirar
contra o General Bonifácio, acompanhado por um grupo de praças,
ao mesmo tempo que essas apontavam para o dito general e para o
Capitão Barbosa, respondeu que, se o general não houvesse ouvido
as ponderações dele e dos companheiros, o depoente teria atirado.
Perguntado se era verdade que só não fez devido à intervenção do
Capitão Euclides da Fonseca, disse que só o faria no caso
especificado. Perguntado se era verdade que meteu no xadrez do
Forte o tenente de infantaria que aprisionou, respondeu que
apenas o mandou levar preso, mas ignorava se o meteram no xadrez.
Perguntado se não tentou interpor a sua influência para que se
não fizessem tiros de grossa artilharia contra a cidade,
respondeu que não. Perguntado se não sentiu escrúpulos morais
quando atirou com os canhões de 190mm contra o centro da cidade,
onde devia ter quase a certeza de que faria vítimas entre a
população civil, como fez, respondeu que só atirou contra
determinados pontos e que, quando viu que seria necessário atirar
em quase todas as direções, sentiu esses escrúpulos, motivo por
que abandonou o
Forte. Perguntado se era verdade que, antes de
abandonar o
Forte, o depoente e seus demais companheiros oficiais
arrancaram seus distintivos declarando que não pertenciam mais a
um Exército que classificaram de um modo injurioso, respondeu que
ele, declarante, assim o fez, mas sem injuriar o Exército.
Augusto Tasso Fragoso, General-de-Divisão
Antonio Siqueira Campos, Primeiro-Tenente.
|
|