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Rio de Janeiro, Copacabana.COM Sunday, 07-Sep-2008 10:38:47 BRT

Inquérito Policial Militar Interrogatório do Tenente Siqueira Campos


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Inquérito Policial Militar
Interrogatório do Tenente Siqueira Campos
(14 de julho de 1922)

Aos quatorze dias do mês de julho do ano de mil novecentos e vinte e dois, nesta Capital Federal, no Hospital Central do Exército, onde se achava o General-de-Divisão Augusto Tasso Fragoso, encarregado do presente inquérito, comigo, Capitão Milton de Freitas Almeida, servindo de escrivão, aí encontrou o Primeiro-Tenente Antônio de Siqueira Campos, que devia ser interrogado sobre os fatos constantes dos documentos que lhe foram lidos. E logo aquela autoridade passou a interrogá-lo na seguinte forma: Perguntado qual o seu nome, idade, filiação, estado, naturalidade, praça e corpo a que pertencia, respondeu se chamar Antônio de Siqueira Campos, com vinte e quatro anos de idade, filho de Raimundo Pessoa de Siqueira Campos, solteiro, natural do Estado de São Paulo, e pertencer à Quarta Bateria Isolada de Artilharia de Costa.

Perguntado como se tinham passado os fatos constantes dos referidos documentos, respondeu o seguinte: na noite de quatro o depoente já havia recebido, digo, resolvido rebelar-se com os seus companheiros quando chegou ao Forte de Copacabana o General Bonifácio Costa. O movimento estava combinado para uma hora da madrugada em que de fato começou, pois nessa hora se deu o primeiro tiro de canhão, mas, como o General Bonifácio Costa se apresentou ao Forte antes disso querendo retirar o comandante, ele e seus companheiros resolveram impedir a saída do general e assim dar princípio à revolta. O depoente passou o resto da noite no corpo da guarda encarregado da defesa externa, que, àquela hora, parecia a mais importante. Ouviu disparos feitos com peças do Forte, os quais, segundo lhe informaram, não eram contra a cidade. Nessa noite o depoente prendeu um segundo-tenente de infantaria, que lá apareceu de automóvel, juntamente com duas praças que o acompanhavam, evitando assim que se espalhassem notícias sobre a situação do Forte. No dia cinco, o deponente melhorou a defesa da parte externa, afastando mais as patrulhas e mantendo-as nos morros próximos, de modo a conservar as comunicações do Forte com os fornecedores de víveres, a fim de economizar o mais possível o estoque de que dispunham. Na tarde de cinco, chegaram os primeiros tiros de Santa Cruz, que produziram algum alarme entre os soldados, não acostumados a isso, e ante uma ordem de retirar, que foi mal comunicada ao depoente, digo, e ante uma ordem de retirada que foi mal comunicada ao depoente, que mandou que todos se recolhessem ao Forte, tendo determinado a inutilização de um canhão Schneider, que estava do lado de fora, auxiliando a defesa externa. Verificando depois que a ordem de retirada havia sido mal transmitida, determinou ao pessoal que voltasse a seus postos, indo o depoente ao Forte, falar diretamente ao comandante. Depois de rápida conferência e de verificada a necessidade do funcionamento do holofote nessa noite, em que já estavam prevenidos que seriam atacados pelos navios da esquadra, ficou combinado que o depoente teria a seu cargo o holofote. Em vista disso, o depoente dirigiu-se ao alto da colina, em que se encontrava instalado o referido holofote, acompanhado dos Tenentes Eduardo Gomes, Nilton Prado e de algumas praças, todos resolvidos a fazer funcionar o holofote até o último momento. O depoente passou a noite nesse ponto, tendo posto em atividade o holofote várias vezes. Pela manhã, recebeu, digo, tendo posto em atividade o holofote várias vezes para verificar se estava bem, mas sem utilizá-lo para o exterior, visto não haver recebido ordens neste sentido. Na manhã de seis, o depoente recebeu um chamado telefônico para ir ao Forte couraçado, transmitido pelo Tenente Nilton que tinha descido durante a noite, deixando o depoente só com o Tenente Eduardo Gomes. O depoente retirou-se com os que estavam sob suas ordens deixando apenas três sentinelas, que só poderiam mais tarde recolher-se ao Forte caso fossem atacados por terra, passando por dentro d’água. A situação que o depoente encontrou no Forte era quase de pânico, pois, ante a certeza de que o Forte de Copacabana estava isolado no, digo, só no movimento, como garantira, com a sua palavra, o Sr. Ministro da Guerra, e ante a garantia de vida que se prometia aos revoltosos (tudo por meio do telefone), os camaradas estavam resolvidos a abandonar o Forte. O depoente tentou dissuadi-los desse propósito; com alguns não pôde falar, porque já se haviam retirado. O depoente nada conseguiu. Por volta de sete horas, só se encontravam no Forte o Comandante Euclides Hermes, o depoente, os Tenentes Eduardo Gomes, Nilton Prado e Mário Carpenter, dois sargentos eletricistas, um cabo artilheiro, algumas praças e quatro civis, perfazendo um total de vinte e oito pessoas. Todas elas estavam resolvidas a não se entregar em hipótese nenhuma. A essa hora começou o bombardeio do Forte, tendo o depoente, com os Tenentes Nilton e Carpenter e algumas, digo, umas cinco praças, ido guarnecer a cúpula de 190mm. Atiraram com ela contra o QG, contra a Ilha das Cobras, contra a segunda bateria e contra o Palácio do Catete. Os dirigidos ao Palácio do Catete se encristaram, conforme observou o depoente; o erro proveio de ter o depoente, digo, de não ter o depoente consigo, na ocasião, a tabelada para carga reduzida, digo, a tabela para carga reduzida, que o depoente havia calculado. Preparava-se para atirar contra Santa Cruz, quando recebeu um chamado do Capitão Hermes, que procurava sozinho fazer funcionar a cúpula de 305 mm. O capitão perguntou-lhe se estava atirando contra a cidade, ao que ele respondeu que só estava fazendo contra pontos determinados. O capitão insistiu para que a cidade fosse poupada. Nessa hora, o Capitão Hermes foi chamado ao telefone da parte do Ministro da Guerra, que pedia cessassem o fogo porque o Forte estava só, assim sendo deviam eles desistir daquele sacrifício inútil. Então combinaram com o Ministro parar o fogo sob condição que mais tarde assentariam com o Major Egídio de Castro e Silva, oficial que o Ministro prometera mandar ao Forte para esse fim, levando em sua companhia o Tenente Pacheco Chaves. Em vista disso, o comandante determinou cessasse todo o movimento do Forte, inclusive as usinas. O depoente saiu para o exterior a fim de ver o que havia; estava fora quando um hidroavião atirou uma bomba, que caiu a cinco metros da muralha dentro d’água. Retirou-se para o Forte, tendo ficado aguardando, perto do portão, o parlamentar do Ministro, o Tenente Nilton Prado. Algum tempo depois, avizinhou-se outro avião (Briguet, de bombardeio) e lançou outra bomba, que tocou em terra, atrás do Forte couraçado, e do lado do mar. Poucos momentos depois, chegou correndo o Tenente Nilton e contou que vinha com o parlamentar do Ministro para dentro do corpo da guarda, quando, ao defrontar o cassino dos oficiais, caiu a segunda bomba. Referiu o Tenente Prado que, vendo a queda da bomba, ato contrário ao combinado, disse ao Major Castro e Silva: "Como vê, só nos resta agora atirar até o fim". Avançou então o Tenente Chaves e, depois de lutar algum tempo com o Tenente Nilton Prado, lançou-o dentro d’água sobre as pedras. Nessa altura, os oficiais se reuniram e decidiram continuar no primitivo propósito, mas, lembrando-se que dos oficiais presentes era o comandante o único que tinha família, resolveram induzi-lo a ir parlamentar com o Governo, levando condições que eles sabiam de antemão serem inaceitáveis. Esse ato dos oficiais restantes para com o Capitão Euclides Hermes era ditado por um sentimento de gratidão para com o chefe, que sempre lhes dera as maiores provas de amizade e que naquela hora demonstrava rara coragem. O comandante partiu, tendo antes entregado o comando do Forte ao depoente. Aguardaram comunicação direta do comandante até cerca de uma hora da tarde. Nessa hora, o depoente atendeu o telefone e ouviu esta frase (mais ou menos): "Quem fala aqui é o Coronel Malan; o Capitão Euclides Hermes está preso; vou passar-lhe o telefone para falar com o Senhor". De fato, a seguir, falou-lhe o Capitão Hermes, prevenindo-o da sua prisão e de não haverem sido aceitas as condições por ele propostas. Acrescentou que o Governo determinava que a rendição se fizesse dentro de quinze minutos, e, deste modo, cada um sairia do Forte isoladamente e desarmado, iria entregar-se às tropas mais próximas. Terminou pedindo poupassem Copacabana e a cidade. O depoente nada respondeu. Reunidos os companheiros, oficiais e soldados, resolveram abandonar o Forte para que um bom[ilegível] Forte e contra ele) não fosse provocar mais vítimas estranhas à questão. Decididos como estavam de ir até o fim com a causa que haviam abraçado, com a qual haviam empenhado a sua honra e dignidade, foram todos unânimes em que se abandonasse o Forte e fossem, armados de fuzil e revólver, entregar a vida à primeira tropa que encontrassem. Saíram pois todos armados e juntos, a fim de mostrar que repeliam as condições do Governo. A bandeira do Forte foi fragmentada em vinte e oito pedaços; cada um recebeu o seu, o depoente guardou o dele e o que era destinado ao Capitão Euclides. Marcharam pela praia de Copacabana mais de um quilômetro sem encontrar tropa. Em caminho, explicavam aos moradores os motivos por que haviam abandonado o Forte. Foram assim até a altura do Hotel Inglês, onde beberam água. Já haviam encontrado oficiais e praças do Terceiro Regimento, que lhes gritavam de longe que se rendessem, ao que eles respondiam que fizessem fogo contra eles. Continuaram pela praia até a rua que passa em frente à Igreja, situada na Praça Serzedelo Correia; aí receberam tiros e começou o tiroteio. A princípio, ficaram em pé na Avenida Atlântica e depois passaram à praia. Pouco tempo antes, um civil se havia aproximado do grupo e, mostrando-se indignado com a situação, pediu uma arma; como o Tenente Nilton tinha um fuzil e um revólver, passou-lhe o fuzil; o depoente entregou-lhe também o fragmento da bandeira destinado ao Capitão Euclides. O tiroteio continuou forte da parte dos atacantes e pouco intenso do lado dos que acompanhavam o depoente, que recomendava economizassem a munição, a fim de não caírem prisioneiros por falta dela. Começaram a cair os feridos; o primeiro foi o Tenente Eduardo Gomes, seguiu-se-lhe o civil, que tombou sem pronunciar palavra, nem fazer nenhum gesto; depois o Tenente Nilton, que se queixou da perna quebrada; depois o depoente, com uma bala na região abdominal, escutando, apesar de ferido, que o tiroteio continuava já reforçado por metralhadoras. No meio da ação, notou que alguns de seus companheiros queriam cessar o fogo; disse então o depoente ao Tenente Carpenter que dirigisse esses tais desarmados no rumo da igreja e que ele, Carpenter, com os mais que ficassem, não atirassem nessa direção. Sabe que alguns caíram; não pode verificar porque estava ferido e deitado na areia. Momentos depois o tiroteio cresceu de intensidade, enquanto ao lado do depoente só um ou outro respondia. Afinal o depoente ouviu gritos, escutou estas palavras: "Levantem, levantem"; viu o Tenente Nilton, mesmo deitado, usar do seu revólver, gesto que o depoente não pode imitar por falta de forças. As tropas do Governo aproximaram-se e transportaram a braços o depoente. Perguntado por que se rebelou contra o Governo respondeu porque achava que os últimos atos dele, já na questão das candidaturas presidenciais, já no caso de Pernambuco e, finalmente, no caso puramente militar da prisão do Marechal Hermes e nas notas consecutivas, enfim, de um modo geral, a maneira por que o Governo tratava o Exército, segundo acha o depoente, permitia a esse Exército todos os atos de revolta. Perguntado se sabia que o levante do seu Forte seria secundado pelas tropas da Vila Militar e pelas demais fortalezas da barra, respondeu que era essa a combinação. Perguntado se sabia que o Marechal Hermes e outros generais contrários ao Governo iriam à Vila Militar encabeçar as tropas e apoiar a atitude do Forte, respondeu que sabia que um general devia ir a Vila Militar, buscar as tropas e que seria esse o chefe momentâneo do governo. Perguntado qual o nome desse general, respondeu que ao certo não sabia, pois eram muitos os indicados. Perguntado quais os nomes dos indicados, respondeu que ignorava; perguntado se sabia que a Escola Militar se iria levantar na mesma hora que o Forte de Copacabana, respondeu que assim esperava, pois que também era da combinação. Perguntado se o Capitão Euclides Fonseca o havia convidado para a revolta, respondeu que nunca. Perguntado se tomou parte em reuniões de caráter subversivo ou se assinou algum compromisso, respondeu que não. Perguntado se havia muitos civis no Forte e se esses se armaram para combater ao lado da guarnição, respondeu que viu uns quatro, mas que não lhes sabe os nomes; a todos preveniu que, em caso de derrota, eles teriam de morrer com a guarnição. Perguntado se viu o canhão Schneider ser lançado dentro d’água, respondeu que viu e auxiliou o lançamento. Perguntado se foi feito por ordem dele, respondeu que sim, em vista da ordem de retirada que havia recebido. Perguntado se antes do lançamento não retirou do canhão a culatra e o aparelho de pontaria, respondeu que não, que tudo funcionava perfeitamente. Perguntado como explicava ter sido achada, dentro d’água, a culatra separada do canhão e também a alça ótica, respondeu que não sabia explicar. Perguntado por que não tentou, por amor ao exército, retirar somente a culatra e deixar incólume o canhão, que o depoente sabia ser propriedade de um fabricante e estar em nossas mãos apenas para experiência, respondeu que não havia tempo e, mesmo que houvesse, a culatra poderia ser substituída com facilidade e o canhão utilizado contra o Forte. Perguntado se assistiu às sessões no Clube Militar relativas à carta atribuída ao Dr. Bernardes e se votou a moção de aplauso à comissão pericial, instituída pelo mesmo clube, respondeu que não, pois que não era sócio do clube. Perguntado se tentou atirar contra o General Bonifácio, acompanhado por um grupo de praças, ao mesmo tempo que essas apontavam para o dito general e para o Capitão Barbosa, respondeu que, se o general não houvesse ouvido as ponderações dele e dos companheiros, o depoente teria atirado. Perguntado se era verdade que só não fez devido à intervenção do Capitão Euclides da Fonseca, disse que só o faria no caso especificado. Perguntado se era verdade que meteu no xadrez do Forte o tenente de infantaria que aprisionou, respondeu que apenas o mandou levar preso, mas ignorava se o meteram no xadrez. Perguntado se não tentou interpor a sua influência para que se não fizessem tiros de grossa artilharia contra a cidade, respondeu que não. Perguntado se não sentiu escrúpulos morais quando atirou com os canhões de 190mm contra o centro da cidade, onde devia ter quase a certeza de que faria vítimas entre a população civil, como fez, respondeu que só atirou contra determinados pontos e que, quando viu que seria necessário atirar em quase todas as direções, sentiu esses escrúpulos, motivo por que abandonou o Forte. Perguntado se era verdade que, antes de abandonar o Forte, o depoente e seus demais companheiros oficiais arrancaram seus distintivos declarando que não pertenciam mais a um Exército que classificaram de um modo injurioso, respondeu que ele, declarante, assim o fez, mas sem injuriar o Exército.

Augusto Tasso Fragoso, General-de-Divisão
Antonio Siqueira Campos, Primeiro-Tenente
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