Inquérito Policial Militar Interrogatório do
Tenente Eduardo Gomes (12 de julho de 1922)
Aos doze dias do mês de julho de 1922, nesta Capital Federal, no HCE, onde
se achava o General-de-Divisão Augusto Tasso Fragoso, encarregado do
presente inquérito, comigo Capitão Milton de Freitas Almeida,
servindo de escrivão, aí encontrou o 1o Tenente Eduardo Gomes, a fim
de ser interrogado sobre o fato constante dos documentos que lhe foram
lidos. E logo aquela autoridade passou a interrogá-lo na seguinte forma:
perguntado qual o seu nome, idade, filiação, estado, naturalidade, praça e
corpo a que pertencia, respondeu: chamar-se Eduardo Gomes, com vinte
e cinco anos de idade, filho de Luís Gomes Pereira, solteiro,
natural do Estado do Rio, pertencer à arma de artilharia e à terceira
esquadrilha de observação. Perguntado como se tinham passado os fatos
constantes dos referidos documentos, respondeu o seguinte: tendo ido ao
Forte de
Copacabana com o intuito de tomar parte na sublevação que ali se
projetava, acompanhou seus camaradas até o último momento. Apresentou se
no
Forte, pela última vez, digo, saiu do
Forte cerca das dezessete horas do dia quatro, e foi de automóvel
até a cidade para colher notícias, voltou ainda de automóvel ao
Forte às dezenove e meia horas e aí ficou. Não assistiu ao incidente
do General Bonifácio por se achar no portão do
Forte. No dia cinco teve a seu cargo o canhão Schneider. Na
noite de cinco para seis, esteve de vigilância junto ao holofote
no alto da colina, em companhia do
Tenente Siqueira Campos e algumas praças. Na manhã quando, digo, na
manhã de seis quando o Capitão Euclides declarou que quem quisesse
sair do
Forte podia fazê-lo, o depoente resolveu não se entregar.
Depois, disse o depoente, esteve quase todo tempo na torre seis, que
ficou a seu cargo. Foi por combinação feita com o depoente e com os outros
oficiais que o Capitão Euclides saiu do
Forte
para se entender com o Governo visto se haver malogrado a missão do
Major Castro e Silva. Quando o Capitão Euclides comunicou
para o
Forte, por telefone, que se achava preso e que o Governo exigia que
cada um se entregasse saindo isoladamente e desarmado do
Forte
os oficiais que ainda se encontravam na praça, a saber: o depoente,
os
Tenentes Siqueira Campos, Nilton Prado e Carpenter, resolveram
abandonar o
Forte para não sacrificá-lo nem causar mais prejuízos à cidade e ir
com o grupo de soldados que os acompanhava por último combate contra as
forças do governo longe do
Forte, pois estavam no firme propósito de não se entregar. O
depoente crê que o grupo de oficiais vinha acompanhado por umas vinte
praças, cada homem, oficial e praça, trazia um fuzil e alguma munição.
Desceram todos pela
praia de Copacabana e afinal se detiveram em
frente a uma rua, aí mantiveram um tiroteio com as forças
opostas, o qual lhe parece ter durado cerca de uma hora e três
quartos. O depoente caiu ferido por bala de fuzil, na coxa
esquerda e ali mesmo na areia ficou deitado, até que o
transportaram. Depois dele viu também caírem feridos os
Tenentes Siqueira, Carpenter e Nilton. Perguntado por que tomou
parte na rebelião contra o governo, respondeu que achava que o governo
estava saindo fora da lei com o propósito de intervir em Pernambuco
e porque era desejo do país ver afastada a hipótese da posse do
Dr. Artur Bernardes. Perguntado se foi convidado por alguém para a
rebelião ou se assinou algum compromisso, respondeu negativamente.
Perguntado se sabia que outras unidades acompanhavam o
Forte, respondeu ter acreditado que o movimento fosse geral.
Perguntado se deu algum tiro de artilharia contra a cidade respondeu
negativamente, pois só se lembra de um tiro dado na direção da praia.
Perguntado se não se opôs a que seus camaradas atirassem para o centro da
cidade, respondeu que não. Perguntado como se passou o lançamento do
canhão Schneider n’água, respondeu o seguinte: durante o ataque do
Forte
pela Fortaleza de Santa Cruz, digo, no começo do ataque do
Forte
pela Fortaleza de Santa Cruz, o depoente estava perto do canhão com a
guarnição; daí se dirigiu ao portão para falar com o
Tenente Siqueira Campos que lhe disse haver recebido ordem para
que todo o pessoal se recolhesse ao
Forte.
Em vista disso o depoente voltou ao canhão e, com, digo, que foi lançado
n’água na presença do depoente e de outros oficiais. Perguntado se antes de
lançar o canhão n’água não lhe haviam tirado a culatra e quebrado o
aparelho de pontaria, respondeu que não, acrescentando que o lançaram n’água
para evitar que os adversários o utilizassem e porque não souberam retirar a
culatra nem o aparelho de pontaria. Perguntado se lhe constou que o
Mal. Hermes seria o chefe do movimento revolucionário, respondeu que
o supunha naturalmente indicado para isso, mas ignorava se ele assumiu
algum compromisso. E como nada mais foi perguntado nem respondido, deu
o oficial encarregado deste inquérito por findo o interrogatório
mandando lavrar o presente auto que, depois de lido e achado
conforme, assina com o indiciado e comigo Capitão Milton de
Freitas Almeida, servindo de escrivão, que o escrevi.
Augusto Tasso Fragoso, General-de-Divisão
Eduardo Gomes, Primeiro-Tenente.
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