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Siqueira Campos em Paracatu

  Siqueira Campos em Paracatu. Marcos Spagnuolo Souza* Resumo: No dia 13 fevereiro 1927, Siqueira Campos, tomou de assalto a cidade de Paracatu, deslocando posteriormente para Unaí. Palavra-chave: Coluna Prestes, Siqueira Campos, Paracatu. *Professor de Filosofia e História na Faculdade do Noroeste de Minas. Mestrando em História. I. Apresentação. A Coluna Miguel Costa, conhecida como Coluna Prestes, devido à popularidade de Luís Carlos Prestes que exercia a chefia do Estado Maior da Divisão Revolucionária, iniciou sua trajetória de lutas e combates com as tropas legalistas na década de vinte. Um dos seus destacamentos, comandado por Siqueira Campos, invadiu a cidade de Paracatu em 13 de fevereiro de 1927. Na tentativa de fornecer uma visão abrangente deste período marcante para os paracatuenses, optamos por iniciar o nosso trabalho pela tomada do Forte de Copacabana em 1922; acontecimento no qual Siqueira Campos desempenhou importante papel. Descrevemos as revoltas militares em São Paulo e Rio Grande do Sul, no ano de 1924, sendo que Siqueira Campos despontou como líder no levante de São Borja. Mostramos a formação da Coluna Prestes com Siqueira Campos coordenando o 3º. Destacamento Revolucionário para, finalmente, relatarmos a invasão de Paracatu pela tropa chefiada por este líder militar. Não encontramos dados no Arquivo Público Municipal Olímpio Michael Gonzaga (Paracatu) que esclarecessem a respeito da passagem de Siqueira Campos pela região. Como alternativa, recorremos aos depoimentos dos paracatuenses mais antigos, que recordam das cenas ocorridas durante a dominação dessa localidade pelos revoltosos. Salientamos que, ao descrever o Movimento Tenentista, partimos do ponto de vista do primeiro jornalista a visitar o acampamento de Luís Carlos Prestes na Bolívia, Rafael Correia de Oliveira, que diz: "Prestes confessou que a revolução armada fora apenas um gesto extremado de protesto contra o governo". O segundo jornalista a estar com Prestes no exílio - Luís Amaral, observou que "... a Coluna fora apenas um movimento burguês de contestação a um governo autoritário que humilhou o Exército". Seguindo a mesma linha de pensamento, Domingos Meireles, em seu livro "As Noites das Grandes Fogueiras", salienta que os rebeldes, na verdade, em nenhum momento se preocuparam em promover uma revolução social no Brasil. Os líderes da Coluna jamais pensaram em mudar a estrutura da sociedade e acreditavam que não era preciso mudar a ordem estabelecida para que o Brasil se tornasse uma grande nação. O Tenentismo. Leia mais Siqueira Campos em Paracatu. Leia mais Os Revoltosos Abandonam Paracatu. Leia mais II. O Tenentismo. O governo de Epitácio Pessoa - 1919/1922 foi marcado por inúmeras dificuldades no relacionamento com os militares. A origem dos atritos não envolvia princípios ideológicos ou tentativas de resolver aspectos a favor de uma ordem social mais justa na estrutura da jovem República. A raiz de toda a problemática centralizava-se em aspectos administrativos e na incapacidade da liderança política em resolver os problemas que afligiam a classe militar, principalmente o Exército. Procuramos descrever o desenrolar da crise por tópicos, visando à clareza dos fatos, para que possamos notar que a radicalização por parte do governo gerou o Movimento Tenentista: o Presidente da República, Epitácio Pessoa, nomeou civis para chefiarem os Ministérios da Guerra e da Marinha, cargos que eram ocupados exclusivamente por militares. A falta de confiança do Presidente da República no alto escalão das forças armadas foi o início gerador de inúmeros outros problemas; o governo federal recusou repor as perdas salariais dos militares, cujos vencimentos estavam defasados devido à inflação acelerada. Artur Bernardes era o candidato à Presidência da República escolhido pelas elites econômicas de Minas Gerais e São Paulo, apoiado por Epitácio Pessoa. No dia 9 de outubro de 1921, foi publicada no jornal carioca Correio da Manhã uma carta ofensiva ao Exército, cuja autoria foi atribuída ao candidato Artur Bernardes. Os oficiais sentiram-se ofendidos e exigiram uma tomada de posição do alto comando contra a pessoa do candidato à Presidência. A autoria da carta foi negada por Bernardes e o manuscrito submetido a uma Comissão Pericial constituída de dois generais, dois almirantes, três coronéis, um capitão e o perito Simões Gouveia. "O relatório da comissão foi submetido à apreciação da assembléia permanente do clube militar. O plenário decidiu por 493 contra 90 reconhecer como autêntica a carta atribuída a Bernardes."1 A decisão tomada pelos oficiais do Exército em reconhecer Artur Bernardes como autor das críticas destinadas aos militares, publicadas no jornal, veio corroer profundamente a relação entre os partidários de Epitácio Pessoa e as Forças Armadas; o Presidente da República, diante da forte oposição dos oficiais ao seu candidato à Presidência, iniciou uma série de transferências para guarnições distantes do Rio de Janeiro, de todos os oficiais que se manifestassem contra a candidatura de Bernardes, gerando uma série de indisciplinas nos quartéis; Epitácio Pessoa, diante das indisciplinas de alguns oficiais, passou a nomear diretamente aqueles de sua própria confiança para comandar as unidades militares, sendo que as escolhas dos comandantes das guarnições eram atribuições do próprio Comando do Exército; em oposição à candidatura de Artur Bernardes e ao governo de Pessoa foi lançada a candidatura de Nilo Peçanha, apoiada pelas oligarquias dos estados politicamente menos influentes. Na campanha para o governo de Pernambuco, concorriam o candidato apoiado por Nilo Peçanha e outro favorecido por Artur Bernardes, sendo que Epitácio Pessoa sustentava a candidatura do candidato bernardista. Os oficiais do Exército, sediados em Pernambuco telegrafaram ao Clube Militar queixando-se da intervenção direta do Presidente Pessoa nas eleições de Pernambuco. O Presidente do Clube Militar, Marechal Hermes da Fonseca, respondeu-lhes dizendo que Epitácio Pessoa estava desrespeitando a Constituição Brasileira. Diante dos fatos, o Presidente da República ameaçou prender o Marechal Hermes e fechar o Clube Militar. No dia 24 de junho de 1922, os oficiais reuniram-se no Clube para analisar as ameaças de Epitácio Pessoa. "Nunca as paixões estiveram tão acesas como naquela assembléia." Alguns oficiais chegaram a insultar publicamente seus superiores, numa demonstração de insubordinação até então jamais vista. Os grupos agrediam-se verbalmente, indiferentes às patentes e aos postos que ocupavam. A jovem oficialidade reagiu com violência à ameaça de fechamento do Clube Militar. O Tenente Astrúbal salientou que os jornais noticiaram que o Presidente da República, para enxovalhar o Exército, iria mandar, no dia seguinte, os seus agentes fecharem o Clube, baseado numa lei que permite fechar sociedades anarquistas, de cáftens e de exploradores de latrocínio. Maior injúria não se poderia fazer; suprema afronta jogada às faces do Exército Nacional. "Quando o Major Euclides Figueiredo fala como escudeiro de Epitácio Pessoa, o Tenente Astrúbal diz que ele, o Major, é cáften, é explorador de latrocínio, é anarquista. Revoltamos contra vossa Excelência emprestar seus galões e a força que comanda a um bandido, como o Senhor Epitácio Pessoa, deixando-o cavalgar livremente o Exército, fechando o Clube Militar baseado numa lei infame, injuriosa e opressora. O general Potiguar não acredita no que ouve e pergunta ao Tenente como ele se atreve a chamar o Senhor Presidente da República de bandido. O Tenente diz que: "não é só bandido, mas é ladrão"; no dia 3 de julho, Epitácio Pessoa mandou fechar o Clube Militar e prender seu Presidente o Marechal Hermes da Fonseca. O comandante do Forte de Copacabana era o Capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do Marechal. O Capitão não aceitou a prisão de seu pai e passou a tramar, em conjunto com outros oficiais, a rebelião de unidades do Exército e, principalmente, da guarnição que comandava; dia 5 de julho, o Forte de Copacabana rebelou-se. Os militares do Forte mantiveram por mais de 24 horas um combate com a Tropa Legalista. Totalmente cercado pela força fiel ao governo, o Capitão Euclides deixou a fortaleza para negociar a rendição com as autoridades, deixando no comando o Tenente Antônio de Siqueira Campos. O Presidente da República não aceitou negociar com os revoltosos, exigindo a rendição incondicional. Siqueira Campos, diante do intenso bombardeio ao Forte, atacado simultaneamente por terra, mar e ar, resolveu não se entregar. Contando com o apoio de dezoito companheiros bem armados, Siqueira Campos deixou o Forte para uma luta corpo a corpo com os legalistas. Na Praia de Copacabana, iniciou-se o combate, sendo que apenas dois revoltosos conseguiram sobreviver: os Tenentes Antônio Siqueira Campos e Eduardo Guedes; o Presidente Epitácio Pessoa, diante da rebelião de unidades do Exército, determinou que severas punições fossem aplicadas. Os conspiradores foram presos e muitos foram expulsos da Corporação. Diante dos fatos, podemos dizer que a Rebelião do Forte de Copacabana foi uma quartelada impulsionada pela incompatibilidade entre os oficiais do Exército e o Presidente da República que não teve inteligência para contornar ou resolver as primeiras manifestações de crise em uma Corporação aguerrida. No dia 15 de novembro de 1922, Artur Bernardes tomou posse como Presidente da República, não sendo aceito por um grupo de jovens oficiais por dois motivos básicos: Durante a campanha eleitoral, ele teria escrito uma carta atacando os militares, acusando-os de corruptos. Na carta, Artur Bernardes chamou o Marechal Hermes da Fonseca de "Sargentão sem compostura" e que esse precisava de uma reprimenda para respeitar a disciplina. Sugeria a carta que Epitácio Pessoa punisse alguns militares e os removesse para bem longe desses Generais. A incompatibilidade estava estritamente relacionada ao fato de Artur Bernardes ser herdeiro político de Epitácio Pessoa, homem considerado indigno pelo Exército. O Presidente Bernardes iniciou o seu mandato sendo alvo de toda aversão, antipatia e inimizade por parte do Exército. Os oficiais iniciaram um movimento para comemorar os dois anos da Rebelião do Forte de Copacabana, com o intuito de desestabilizar o governo: a comemoração seria a revolta das principais unidades militares contra o tratamento indigno que o governo dispensava às Forças Armadas. No dia 5 de julho de 1924, diversas unidades militares de São Paulo se sublevaram, tendo como líderes o General Isidoro Dias Lopes, o Coronel João Francisco, o Capitão Juarez Távora e o Major Miguel Costa. Tomaram a capital do Estado ( São Paulo) e dominaram-na por cinquenta e dois dias dias. Para que possamos delinear o perfil da Revolta, é importante analisarmos alguns fatos: a) o povo paulista desconhecia o objetivo da Revolta; b) os rebeldes mantiveram no cargo o Prefeito de São Paulo, Firmino Pinto. A Rebelião não alimentou nenhuma animosidade contra as autoridades municipais. Se o Palácio do Governo Estadual não tivesse resistido, o Governador Carlos Campos seria convidado a continuar exercendo as suas funções administrativas; c) os rebeldes dominaram militarmente a cidade, mas o poder político e econômico continuou com as classes dominantes e as autoridade municipais. A Revolta controlou as ruas e os quartéis, porém o mundo dos negócios continuou sob controle da oligarquia e dos seus parceiros comerciais. Através da Associação Comercial, as elites dirigiram o comportamento do Alto Comando revolucionário, procurando sempre dificultar a sua aproximação com a classe trabalhadora; d) o General Isidoro e seus oficiais, por mais de uma vez, apoiaram posições de exclusivo interesse das classes dominantes; e) os militares rebeldes não quiseram receber apoio das outras cidades do estado de São Paulo. Não demonstraram nenhum interesse em empurrar o levante para o interior. Nota-se claramente que os militares desejavam manter a Revolta no âmbito militar, não aceitando associações que pudessem desvirtuar o objetivo da mesma, transformando-a numa insurreição popular que se alastrava por outros estados. Os insurgimentos queriam atingir objetivos ligados diretamente à classe militar, sem nenhuma preocupação especial com a pobreza das classes menos favorecidas, conforme podemos visualizar em documento expedido no dia 17 de julho pelos Revoltosos: a)entrega imediata do governo da União a um governo provisório composto de nomes nacionais e da confiança dos Revolucionários; b)o governo provisório convocaria uma Constituinte que manteria obrigatoriamente: forma de governo Republicano Federativo; diminuição do número de unidades na Federação; separação da Igreja do Estado; liberdade religiosa; proibição de impostos interestaduais; proibição de reeleição do Presidente da República, Presidente dos Estados, Deputados e Senadores, salvo se alcançassem o sufrágio de dois terços do eleitorado. c)nas relações internacionais, a política deveria liquidar pacificamente os conflitos; d) queriam também o voto secreto, reforma tributária e aduaneira; O manifesto foi impresso e distribuído aos jornais e à população. O governo não aceitou as condições impostas. No dia 23 de junho, o General Isidoro e seu Estado Maior tomaram a decisão de depor as armas e abandonarem a cidade, se o Governo Federal concedesse anistia aos Revolucionários que participaram da Rebelião e do Levante do Forte de Copacabana. Para se entregarem, impuseram que o Presidente da República também deveria renunciar. A proposta, logicamente, não foi aceita pelo governo. No dia 28 de julho, os revolucionários publicaram um manifesto dizendo: "Nosso objetivo fundamental era e é a Revolução no Brasil. Revolução que elevasse os corações, que sacudisse os nervos, que estimulasse o sangue da raça enfraquecida, explorada, ludibriada e escravizada. Vamos continuar o movimento libertador do Brasil. Já antevemos que conseguimos matar o marasmo político que avassalou o Brasil." 10 Na ação dos Revolucionários e em seus manifestos, notamos uma falta de clareza política, uma ausência de preocupação social e o interesse primordial em substituir o Presidente da República. Somos levados a afirmar que eles procuravam se manter fiéis ao objetivo da tomada do Poder Central, depondo o inimigo irreconciliável, Artur Bernardes, não possuindo por meta a modificação da estrutura política, econômica e social do Brasil. As Forças Legalistas cercaram São Paulo e bombardearam a cidade com artilharia, ataques aéreos, e infiltração na comunidade com seus famosos tanques de guerra. Casas e prédios foram destruídos e a população cruelmente assassinada pelo governo. A preocupação do Presidente Artur Bernardes e de seus auxiliares era de que a revolta trouxesse em seu ventre uma possibilidade de escapar do controle militar e se transformasse numa insurreição popular que se alastrasse por outros estados. Não poderia permitir a repetição do que havia ocorrido na Rússia. O Cônsul britânico, Francis Patrou, achava que São Paulo estava no limiar de uma rebelião popular como a que derrubou o Czar Nicolau II na Rússia, em 1917. Estava preocupado com os grandes investimentos em São Paulo que poderiam ser confiscados por um movimento inspirado na Revolução Bolchevique. Os Anarquistas estavam atormentados com a falta de clareza política dos conspiradores, pois os insurgentes estavam preparando uma revolução com objetivos de exclusivo interesse militar. Os Comunistas não se envolveram com receio de serem prisões pelos legalistas e medo pelo fechamento dos sindicatos, caso apoiassem os revoltosos. O General Isidoro Dias Lopes, percebendo que não tinha condição de resistir ao cerco legalista, abandonou a cidade com sua tropa no dia 28 de julho de 1924, deslocando-se para a região de Foz do Iguaçu. A oficialidade do Rio Grande do Sul, tendo ciência da Revolução, conspirou para sublevar as principais unidades militares. Juarez Távora ficou sendo o responsável pela guarnição de Uruguaiana; Siqueira Campos, pelo levante de São Borja e o Capitão Luís Carlos Prestes, pelo Batalhão Santo Ângelo. Vitoriosos em suas intenções, organizaram uma coluna para se juntar aos revoltosos de São Paulo em Foz do Iguaçu. Eram duas colunas, uma sediada em Foz do Iguaçu, originária de São Paulo, e outra liderada por Prestes, deslocando-se do Rio Grande do Sul para se unir à tropa do General Isidoro, em Foz do Iguaçu. No mês de abril de 1925, as duas colunas se encontraram e foram reestruturadas em uma única Divisão, com cerca de 1500 homens sob o comando do General Miguel Costa, dividida em duas sub-unidades: uma com 800 homens, chefiada por Luís Carlos Prestes e outra com 700 homens, comandada por Juarez Távora. Isidoro permaneceu como Chefe Supremo da Revolução, sendo obrigado a se refugiar em Encarnación – Paraguai, por causa de sua idade e abatimento físico. Nasce assim, a coluna conhecida como Coluna Prestes que percorreu todos os rincões do Brasil de Norte a Sul, Leste a Oeste. Com o passar dos dias, surgiram animosidades entre os Revoltosos e estes decidiram reorganizar a Divisão: Comandante Geral: General Miguel Costa. Chefe do Estado Maior: Gal. Luís Carlos Prestes. 1º Destacamento: Cordeiro de Farias 2º Destacamento: João Alberto 3º Destacamento: Siqueira Campos 4º Destacamento: Djalma Dutra Cada Destacamento era formado por 400 homens. Durante o percurso da Coluna, ocorreram inúmeros fatos que poderão servir de base para que possamos ter uma visão nítida dos revoltosos comandados pelo General Miguel Costa. a)um dos braços da Coluna, com cerca de mil homens, invadiu a Vila de São Miguel de Pau dos Ferros na divisa do Rio Grande do Norte e Ceará. Os Rebeldes arrombaram, a golpes de machado, 18 casas comerciais onde se abasteceram de víveres, tecidos, roupas e medicamentos. As repartições estaduais e municipais foram invadidas por Rebeldes à procura de dinheiro e, em seguida, incendiadas; b)a Coluna aproximou-se de Piancó, sertão paraibano. O Padre Aristides convocou pistoleiros e organizou a resistência. A vanguarda da Coluna entrou em Piancó. O tiroteio foi ensurdecedor. Os homens do Padre Aristides alvejavam os rebeldes com facilidade. O restante da tropa atacou Piancó. Foi prolongada a batalha com os homens lutando de casa em casa. O padre achou melhor se entregar para não morrer. Ele e seus jagunços foram empurrados até uma vala cheia de água perto da cadeia. Aristides e seus homens foram degolados como animais. Os corpos, com as gargantas estraçalhadas, foram atirados dentro da vala. A vingança das Colunas que estavam sob o comando de Siqueira Campos e Djalma Dutra foi impiedosa. c)Várzea, Furado, Olho D’água, Canabrava do Gonçalo, Água de Rego, Roça de Dentro e Tiririca dos Bodes, todos esses povoados da Chapada Diamantina recepcionaram a Coluna com emboscada. A resposta às agressões foi brutal: essas cidades foram saqueadas e as três últimas incendiadas pelos rebeldes. Em Lagoa Grande, foram queimadas 73 casas. d)Sempre que a Coluna invadia um povoado, as enfermeiras corriam para as farmácias e esvaziavam as prateleiras, levando tudo que podiam. e) A coluna é recebida em Monte Alegre com uma saraivada de marchinhas, maxixes e dobrados, executados pela banda de música da cidade. A população saiu às ruas para homenagear a chegada dos Revoltosos. f) Em Oeiras foram acolhidos com hospitalidade e delicadeza pela família do fazendeiro Nogueira Tapety. Esse local serviu de cenário a uma discussão áspera entre Prestes e Siqueira Campos, por causa de uma custódia de ouro cravejada de brilhantes, que se encontrava no altar-mor da Igreja de Nossa Senhora das Vitórias. Antes de ir embora, Siqueira Campos manifestou o desejo de ver essa custódia, mas o vigário estava viajando e o sacristão não possuía a chave. Siqueira Campos tentou arrombar a porta da igreja; Prestes não deixou. Os dois discutiram em voz alta, aos palavrões. Siqueira Campos deu um soco na mesa, mas Prestes não se abalou. Por ter sido contrariado, Siqueira com seu gênio difícil, afastou-se possesso, xingando o chefe. Notamos que a Coluna agia com energia, não poupando a vida de civis, sempre que encontrava resistência. Respeitava a integridade física das pessoas, quando não encontrava oposição, restringindo suas ações aos saques às farmácias e armazéns, visando à sobrevivência do grupo. Em outubro de 1926, Washington Luiz já havia sido eleito Presidente da República, quando a Coluna comandada pelo general Miguel Costa tomou a iniciativa de se refugiar na Bolívia, sendo necessário mandar um relatório sobre a decisão ao Alto Comando. Dois oficiais da Coluna, escoltados por um piquete formado por nove homens, foram encarregados de levar a mensagem. Para desviar a atenção das tropas legalistas do grosso da Coluna que iniciava sua marcha para a Bolívia e do piquete que seguia em direção à Argentina, o destacamento de Siqueira Campos executou um manobra tática, penetrando em Goiás e depois Minas Gerais, permitindo que seus companheiros atingissem seus objetivos. A marcha desordenada de Siqueira Campos, durante dois meses, perturbou o governo. Os legalistas, com o objetivo de desmoralizar a Coluna, contratavam grupos de bandidos para atacar as fazendas, violentar as moças e roubar mantimentos e gado. Topo da Página III. Siqueira Campos em Paracatu. A senhora Emídia de Oliveira Lemos, filha do soldado 21, que pertenceu à Coluna de Siqueira Campos e ficou em Paracatu obedecendo às ordens de seu Comandante, conta alguns fatos narrados por seu pai: Siqueira Campos era um homem honesto. Na época, existia uma turma que praticava todo o tipo de desordem para jogar a culpa em Siqueira Campos. Esse grupo falava que era de Siqueira Campos, mas não era. Eles entravam nas fazendas, roubavam gado, estupravam as mulheres e a notícia corrente era que a Coluna estava chegando. As mulheres largavam as casas e escondiam no mato. O governo da época tinha interesse em pagar esses grupos para desmoralizarem a Coluna. Na região de Paracatu, atuavam três grupos de bandoleiros, levando o terror à área campestre e fazendo com que os moradores acreditassem que era a Coluna de Siqueira Campos. Estes grupos eram conhecidos pelos nomes de seus chefes. Eram os grupos do Necô, Dente de Ouro e Saul, conforme explica a senhora Emídia: Existia aqui, na região de Paracatu, o grupo de Necô que atuava mais na região de Coromandel, o Dente de Ouro, na área de Caetanópolis e Saul, especificamente, em Paracatu, escondia-se nas margens do rio Aldeia. Siqueira Campos preocupava-se muito com a atuação desses bandoleiros que pervertiam a verdadeira razão de ser da Coluna. Ocorreram inúmeros confrontos entre a Coluna e os agrupamentos de bandidos, sendo que, nas proximidades de Paracatu, houve um encontro e consequentemente o embate entre os adversários, assim descrito por Emídia: Ocorreu um confronto aqui perto de Paracatu. A luta foi durante a noite e os homens de Siqueira Campos lutaram pelados para que um colega não matasse o outro. A luta foi corpo a corpo e ao passar a mão no corpo do outro, ficava sabendo quem era amigo ou inimigo. O meu pai, soldado 21, por ato de bravura nessa batalha, passou a ser Coronel de patente, dada pelo próprio Siqueira Campos. O nome de meu pai era Jorge José de Oliveira e tinha na época 23 anos. Devido às inúmeras atuações dos bandoleiros e às constantes notícias da Coluna, criou-se aqui em Paracatu um clima de grande expectativa. Todos os dias alguém comentava que os revoltosos estavam chegando à cidade, fato que emerge do relato de Dona Lúcia Costa Silva: Cada dia surgia a conversa que os revoltosos estavam chegando e as mulheres que lavavam roupa na praia saíam correndo para se esconderem. As mulheres morriam de medo e os homens não conversavam. Tinha uma mulher chamada Francisca que vivia cantando a seguinte modinha: " A casa dos revoltosos não se varre com vassoura, varre-se com bala de fuzil e também com metralhadora." A probabilidade diária da chegada dos revoltosos a Paracatu afetou não apenas a população civil, como também o destacamento da polícia militar sediado na cidade, conforme conta o subtenente Santino Teixeira dos Santos: O destacamento de Paracatu, da circunscrição do 3º Batalhão, naquela época, tinha o efetivo de sete soldados com um Cabo Comandante. Os soldados eram Santino Teixeira (eu), Manoel Régis, Abílio Francisco, Antônio Pereira Guedes, Francisco Ribeiro, José Vítor e Antônio da Silva 2º e era comandado pelo Cabo Serafim José de Andrade e já estava alertado, bem como toda a população. Todos estavam de sobreaviso na expectativa de a cidade ser atacada pelos Revoltosos, isto desde o ano passado. Os boatos corriam soltos e se esperava o ataque, primeiro da cidade vizinha de Capim Branco (...) Por isso mesmo, todas as noites, por muito tempo, o destacamento saía, menos o soldado da guarda na cadeia, e ia tomar posição fora da cidade, principalmente junto a uma ponte que era passagem obrigatória para Paracatu e ali ficávamos entrincheirados, às vezes por mais de três dias seguidos, esperando o aparecimento dos Revoltosos. Aproximadamente uma semana antes da entrada de Siqueira Campos na cidade de Paracatu, já corria a notícia de que a Coluna estava vindo em direção à cidade, sendo que as autoridades municipais foram avisadas por telegrama, conforme relatos do Sr. José Benedito Soares Santana, Dona Noêmia Botelho, Sr. João Soares de Oliveira e Dona Marta Adjuto Brochado: A cidade já estava avisada pelo mensageiro da Fazenda Batalha. Alguém recebeu um telegrama de Ipameri, avisando da chegada dos Revoltosos. O Sr. Afrânio Salustiano Pereira da Fazenda Batalha mandou um peão avisar que os Revoltosos estavam chegando em Paracatu. Naquela época, nós não tínhamos telex, vinham os telegramas trazidos por mensageiros a cavalo, lá do Rio Verde. Eu me lembro do rapaz chegando com esse telegrama para meu pai (Joaquim Brochado), do meu tio (...) Francisco Botelho, avisando que Pires do Rio ficou sabendo que Siqueira Campos estava indo para Paracatu. Ele passou telegrama para papai, avisando que a Coluna estava chegando a Paracatu. Diante da provável chegada da Coluna a Paracatu, tudo indica que o destacamento policial não tomou nenhuma providência, porque os boatos eram diários, conforme observações feitas pelo Subtenente Santino: Depois de esperar noites e dias inteiros, nós regressamos ao quartel para a vidinha de costume. E como nunca os Revoltosos apareciam, a vigilância foi relaxando até acabar de tudo, pois, entre o povo e o destacamento a fuga da Coluna Prestes para a Bolívia já era sabida. O Sr. Joaquim Brochado, ao receber o telegrama de Francisco Botelho avisando que a Coluna estava chegando a Paracatu, mandou buscar armas no Porto Buritis, com o objetivo de defender a comunidade, fato lembrado por Dona Marta. Papai (Joaquim Brochado) ficou com a preocupação de arrumar armas. Pediu o José Adjuto para ir com o seu caminhão a Porto Buriti buscar armas. Lá, no Porto, tinha muitas armas e José Adjuto pegou o caminhão e foi lá. Diante dos rumores, boatos, telegramas, esperas e relaxamento da vigilância, a Coluna de Siqueira Campos chegou a Paracatu no dia 13 de fevereiro de 1927, aproximadamente às 17 h e 30 min., conforme as seguintes descrições: No dia 14, não houve expediente na Câmara Municipal, devido à cidade achar-se em pânico com a invasão dos Revoltosos que, ontem pelas 17 horas e meia, tomou-a de assalto. Siqueira Campo chegou a Paracatu no dia 13/2/1927 às 17:30 da tarde. Chegaram a Paracatu os Revoltosos, mais ou menos às quatro horas da tarde. Os Revoltosos aproximaram-se de Paracatu pelo lado da Serra da Contagem, passaram pela Praia do Vigário e invadiram a cidade pela Rua da Praça. Não se sabe exatamente o número dos revoltosos, uns dizem 50, outros, de 100 a 200 homens, conforme relatos: Os Revoltosos apontaram na Serra da Contagem, passando pela Praia do Vigário e entraram na cidade pela Rua da Praça. Os Revoltosos entraram pelo lado da Contagem, ninguém ficou sabendo exato o número deles, se 100 ou 200 Revoltosos. Eram aproximadamente uns 50 homens. Eles pegaram a cidade de surpresa, eram mais de 100 Revoltosos. A tropa de cavalaria comandada por Siqueira Campos entrou na cidade atirando e gritando, usavam chapelões e lenços vermelhos no pescoço, estavam fortemente armados. Os revoltos não eram chamados pelos seus nomes, cada componente da Coluna era conhecido e designado por determinado número. Os revoltosos entravam atirando e gritando. Estavam montados e tinham um pequeno lenço vermelho no pescoço. Quando ninguém esperava ou receava mais ataque, surge de repente um grupo de cavaleiros, de chapelões, lenços vermelhos no pescoço, fortemente armados, invadindo a cidade num tiroteio sem fim. Bateram na porta vendendo quati e, quando abri a porta, vi os Revoltosos entrando na cidade e atirando, era um grupo grande. O homem do quati saiu correndo. Os Revoltosos estavam encavalados, usavam chapéu tipo cangaceiro e todos estavam armados. As pessoas que residiam em Paracatu ficaram atemorizadas com a chegada da Coluna, imaginaram uns que era Lampião que estava invadindo a cidade, outros, que era a Coluna de Carlos Prestes. Os revoltosos queriam roubar e saquear a cidade. O povo pensava que era Lampião que tinha chegado à cidade e outros falavam que era Carlos Prestes. Inúmeras e variadas foram as atitudes dos paracatuenses com a chegada da Coluna. Uns saíram correndo pelas ruas, outros foram refugiar-se nas roças, alguns permaneceram dentro das casas e umas pessoas passaram dias escondidas no capim meloso: Na época, eu morava no Largo do Santana, escutei um tiro e, quando cheguei à janela, vi muita gente correndo com colchão na cabeça e roupa na mão. Muita gente, mas muita gente mesmo, foi um corre-corre danado. Grande quantidade de gente foi esconder no Capão, perto da Fazenda Sobrado, na casa de Dona Bernarda, minha avó, lá ficava cheio de gente. Os homens da cidade permaneceram dentro de casa. Todo mundo foi se esconder na roça. Os ricaços caíram fora de Paracatu. Na época que os Revoltosos estiveram aqui em Paracatu, eu fiquei escondido no capim meloso, fiquei escondido no meio do mato, perto da cachoeira. Estava com medo de eles me pegarem e me levarem embora. Fiquei no mato uns dois dias. Enquanto algumas pessoas procuravam refugiar-se nos mais variados lugares, alguns se preocupavam em esconder o dinheiro no telhado ou enterrá-lo no fundo do quintal: Os homens da cidade guardaram o dinheiro no telhado. Eu mesmo tinha um baú com algumas moedas de prata e escondi o baú em um buraco no fundo do quintal de minha casa. Os devotos católicos, com a chegada de Siqueira Campos, foram pedir auxílio a Deus rezando o terço: Saímos correndo e fomos para a casa do Osório. Chegamos lá e encontramos toda aquela mulherada, rezando o terço com aquele medo horroroso. Eram muitas pessoas rezando lá na casa do Osório, onde é agora a "Conscienciarte". Não ocorreu resistência da população com a invasão da cidade pelos revoltosos, em conseqüência da ausência de armamento. Assim diz o Senhor Antônio Abraão Guerra: O povo não resistiu, pois não possuía arma. A Coluna Siqueira Campos dividiu-se em dois grupamentos, um grupo menor atacou a cadeia pública e outro entrou na cidade atirando. Recordo-me que estava de guarda nesse dia, os soldados Manoel Régis e Abílio, os quais imediatamente reagiram sustentando o fogo com os Assaltantes, sendo que o soldado Abílio derrubou um. Eu me achava no alojamento no quartel e, ao ouvir os tiros, procurei ver o que se passava, e, até aquela hora, nem me lembrei dos Revoltosos. Ao ver a cadeia sendo atacada, procurei meu fuzil e apanhei a maior quantidade de munição que pude, para remuniciar os colegas. Nós tínhamos recebido bastante munição da Expedição que estivera em Paracatu no ano passado. Consegui, graças a Deus, entrar na cadeia pelos fundos e passei a atirar contra os assaltantes que também atiravam sem cessar. Pouco depois, pulando pelos muros e quintais, chegavam o cabo e mais três colegas, já armados e municiados e nossa resistência aumentou, mas desgraçadamente a munição era velha. Dois cartuchos pifaram e o sujeito escapou. Parece que o interesse deles era nos manter ali cercados, enquanto o grosso da turma que vim a saber ser a Coluna Siqueira Campos saqueava o comércio. Assim o combate durou pouco tempo e nossos atacantes se juntaram ao resto da Coluna. No ataque à Cadeia Pública pelos revoltosos, o soldado Abílio conseguiu alvejar e matar o Rebelde n.º 14: A Polícia matou um Revoltoso. Os soldados entrincheirados mataram o Tenente Quatorze que era bancário no Rio de Janeiro e que tinha entrado para o lado deles na revolução em São Paulo. Um soldado matou um revoltoso perto da cadeia, perto do chafariz. Um soldado matou uma pessoa importante do grupo. Os revoltosos colocaram o defunto no cavalo e ficaram andando com ele na cidade, tocando sanfona. A primeira atitude dos Revoltosos ao invadirem uma localidade seria neutralizar a força militar, no entanto, os paracatuenses justificaram o ataque à Cadeia Pública como ação para libertar os presos, ou porque os invasores não gostavam da polícia: Os Revoltosos tentaram soltar os presos. Os Revoltosos não gostavam da polícia e atacaram o Destacamento. O ataque efetuado ao Destacamento Policial provocou a fuga dos militares e a cidade ficou entregue totalmente aos revoltosos. Os poucos policiais, depois do tiroteio, tiveram que se esconder. Os Revoltosos não ocuparam o prédio, os policiais fugiram. Com um Destacamento tão reduzido e com a munição no fim, nada mais pudemos fazer. A cidade ficou entregue aos insurretos e em silêncio profundo. Os revoltosos organizaram rondas montadas, constituídas de seis homens, para patrulharem a cidade. A cidade ficou em silêncio. Toda a cidade passou a ser patrulhada por um destacamento de seis homens à cavalo. Siqueira Campos não permitiu que seu companheiro, soldado Quatorze, fosse enterrado em solo de Paracatu. Enterraram o revoltoso, eliminado pela polícia, no Cemitério de São Sebastião. O Revoltoso foi enterrado em São Sebastião. O Revoltoso morto, enterraram-no em São Sebastião. Siqueira Campos não deixou enterrar o soldado revoltoso aqui na cidade. Levaram-no para sepultar lá no São Sebastião, foi lá que ele foi sepultado. O Comandante da Coluna, Siqueira Campos, utilizou uma das residências para instalar seu posto de comando, ou seja, o Quartel General. A respeito de qual casa onde funcionou o comando revolucionário, existem depoimentos contraditórios, conforme podemos observar: O Quartel General dos Revoltosos foi instalado na casa do seu pai, João Abraão Guerra, casa comercial "Flor da Síria". O Quartel General dos Revoltosos era na casa do Sérgio Ulhoa onde ficou Siqueira Campos e um médico que acompanhava a Coluna. A primeira medida adotada pelo comando da Coluna foi a procura dos milicianos foragidos, com o objetivo de vingar a morte do Soldado Quatorze. Em decorrência dessa caçada humana, fuzilaram um rapaz que costumava vestir-se com roupas semelhantes à dos Soldados Legalistas. O paracatuense, ao atravessar a rua com destino a sua casa, foi confundido como sendo soldado, recebendo um tiro na cabeça, disparado por um dos rebeldes, segundo os depoimentos: Os Revoltosos mataram um rapaz da família Neto Siqueira, ele estava vestido com roupa cáqui e pensaram que era um soldado da milícia. Mataram um rapaz que usava roupa cáqui, filho do Sr. João Neto. Um rapaz da família João Neto, ao atravessar a rua para ir para sua casa, foi baleado na cabeça, ele usava roupa cáqui igual à da polícia. Os Revoltosos mataram um paracatuense que gostava de usar roupa igual à da força policial. Dona Maria Benvinda era quem criava esse rapaz que foi morto, ele usava, inclusive, um boné igual ao da Polícia Militar. A caçada aos defensores da legalidade incluía a pessoa do Delegado de Polícia que era o Senhor Pedro Santana que se refugiou em uma fazenda pertencente à família dos Meireles, mas não foi encontrado; como sustentam as narrativas: O Delegado se escondeu e não foi encontrado. O Delegado fugiu para a Fazenda do Muquém, pertencente aos Meireles. O Delegado da cidade era o Sr. Pedro Santana que fugiu da cidade deixando a família. A casa do Delegado foi vasculhada pelos Revoltosos e a Senhora Firmina por pouco não foi presa, pois se escondeu embaixo da cama. O Delegado chamava Pedro Santana e ele fugiu da cidade porque um dos soldados matou um Revoltoso e Siqueira Campos não perdoou e queria matar o Delegado. Na busca ao Delegado de Polícia, os Revoltosos receberam uma falsa informação de que o Delegado era o Sr. Osório Botelho. Efetuaram a prisão, não apenas do Sr. Osório Botelho, como também de seus filhos Joaquim e Fortunato. Os três foram colocados em fila para serem fuzilados por ordem de Siqueira Campos, fato que não ocorreu devido ao engano ter sido esclarecido a tempo. Acontecimento lembrado por Dona Noêmia Botelho e Dona Marta Adjuto Botelho: Os Revoltosos pensaram que o Sr. Osório ainda era Delegado e colocaram a família dele em fila para matar. Não fuzilou, porque alguém avisou que o Sr. Osório não era mais o Delegado. Estávamos na casa do Osório quando Siqueira Campos foi abrindo as portas e chegou lá na sala de jantar onde estávamos rezando e foi logo perguntando se naquela casa morava o Delegado de Polícia. Todo mundo negou e falou que ele era fazendeiro. Siqueira Campos estava com barba preta cerrada e era meio baixo. Ele perguntou quem era o Delegado e ninguém falou nada. Siqueira Campos pediu desculpas e saiu. Logo depois ficaram sabendo que Siqueira Campos tinha pego Osório, Joaquim e Fortunato. Joaquim e Fortunato era filhos de Osório. Siqueira Campos, em frente a casa do Osório, colocou todo mundo em fila. Pôs o Osório na frente, Fortunato no meio e Joaquim atrás, chamou um Revoltoso e mandou que ele colocasse o fuzil apontado prá eles e, ao receber o sinal, deveria disparar a arma e matar os três. Quando Siqueira Campos foi saindo da casa pedindo desculpas, logo o Osório entrou, indo ao nosso encontro e falou, chorando de nervoso, o que tinha acontecido. Fazendo parte da Coluna, existia uma mulher que conhecia Paracatu, indicando para Siqueira Campos as pessoas que detinham o poder político e econômico da cidade, assim afirma o Sr. João Soares de Oliveira: Tinha uma mulher no meio dos revoltosos, ela conhecia a cidade e as famílias que possuíam dinheiro. Ela se vestia como homem e ficava no meio deles. Siqueira Campos mandou prender os líderes da cidade que foram recolhidos à casa do Presidente da Câmara, Senhor Luís Santana. Foram presos os senhores Joaquim Brochado, Jorge Batista, João Macedo, Luís Santana, Leopoldo Faria e Osório Botelho. Prenderam e reuniram todo mundo na casa do Lula (Luís Santana). Prenderam o Presidente da Câmara Luís Santana. Prenderam também Joaquim Brochado e Osório Botelho. Prenderam o Dr. Joaquim Brochado e o Dr. Luís Santana. Siqueira Campos reuniu na casa do Lula Santana, que era Presidente da Câmara, a liderança da cidade. Reuniu lá o meu pai Joaquim Brochado, Jorge Batista, João Macedo, Luís Santana (Lula) e o Leopoldo Faria. Na reunião realizada na residência do Sr. Luís Santana, o comandante da Coluna, Siqueira Campos, exigiu que a liderança de Paracatu lhe entregasse, naquela noite, determinado valor em dinheiro, sendo que a metade da quantia era para pagar o Imposto de Guerra e a outra metade, pela morte do soldado Quatorze. Exigiram dos políticos e das principais pessoas da cidade, cem contos de réis. Os Revoltosos exigiram sessenta contos de réis. Exigiram duzentos contos de réis para serem entregues naquela noite. Dos duzentos contos de réis, cem eram para pagar a morte do soldado Quatorze e cem, para pagar o Imposto de Guerra. Siqueira campos foi taxativo ao afirmar que, se acaso a liderança da comunidade não lhe entregasse o valor estipulado, ele mandaria incendiar a cidade. Os revoltosos colocaram latas de querosene perto de um sobradinho, na rua Sérgio Ulhoa, para pôr fogo na cidade se não arrumassem o dinheiro. Um médico da Coluna avisou para Dona Zélia e Dona Blandina que os Revoltosos iriam colocar fogo na cidade. Que o combustível estava perto de um sobradinho que hoje é a Drogaria Santiago. Da Casa "Flor da Síria" retiraram vinte caixas de gasolina, cada caixa com vinte litros. O objetivo era colocar fogo na cidade. Siqueira Campos falou que a cidade estava rodeada de latas de gasolina para pôr fogo na cidade se o dinheiro não lhe fosse entregue. O Senhor Joaquim Brochado, ciente de que a comunidade não teria condições de arrecadar o valor estipulado por Siqueira Campos, salientou na reunião a impossibilidade de cumprir a exigência que estava sendo imposta ao grupo. Depois de muito diálogo, o líder revoltoso fixou a quantia a ser paga em cinqüenta contos de réis. Meu pai, Joaquim brochado, falou que não tinha jeito de arrumar duzentos contos, porque a cidade era pobre e Siqueira Campos foi abaixando até chegar a cinqüenta contos de réis. Arrumaram para os Revoltosos, cinqüenta contos de réis. O depoimento da Senhora Izabel Santana Carneiro, filha do Agente Executivo Luiz Santana Júnior, a respeito da Reunião de Siqueira Campos com a liderança da cidade é esclarecedor. O papai era o prefeito na época em que os revoltosos estiveram aqui em Paracatu. Quando papai ficou sabendo que os Revoltosos estavam chegando, mandou levar todos os seus filhos para a casa do nosso tio, Dr. Sérgio Ulhôa, e lá nós ficamos. Quando os revoltosos chegaram, prenderam o papai lá dentro de casa e depois trouxeram o nosso cunhado, Francisco Carneiro. Os dois ficaram presos lá em casa. Depois, Siqueira Campos mandou chamar o pessoal que podia dar dinheiro. O papai falou com Siqueira Campos que aqui era uma cidade pobre e só tinha dinheiro quando os fazendeiros vendiam o gado. Eles queriam 120.000$ (cento e vinte contos). O papai só conseguiu levantar 60.000$ (sessenta contos), foi então que eles prometeram colocar fogo na cidade. Os revoltosos, então, puseram as latas de querosene lá em frente da Igreja do Amparo e os revoltosos iam jogar o querosene nas casas e colocar fogo em toda a cidade. Foi então que papai chamou Siqueira Campos e falou com ele para aceitar os 60.000$ e o resto ele pagaria com sua própria vida, desde que ele não pusesse fogo na cidade. Siqueira Campos aceitou o dinheiro recolhido e falou com o papai que ia embora, mas que se resguardasse, porque a Coluna ia sair, mas a retaguarda da Coluna era formada para gente muito perigosa. Os líderes da comunidade que estavam presos na residência do Senhor Luís Santana foram liderados para arrecadarem o valor exigido. O Senhor Antônio Brochado foi quem forneceu parte da quantia a ser entregue a Siqueira Campos, sendo que o restante foi conseguido entre os comerciantes e fazendeiros paracatuenses. O Sr. Antônio Brochado tinha vendido uma fazenda e estava com dinheiro, completando a quantia para os Revoltosos. Os comerciantes e fazendeiros de Paracatu foram quem arrumaram o restante. Era muito difícil ter dinheiro naquela época. O pessoal saiu atrás do dinheiro e foi arrumar com Antônio Brochado que tinha acabado de vender uma boiada e o restante do dinheiro, arrumaram pedindo de casa em casa. O irmão do Dr. Joaquim Brochado emprestou cinqüenta contos de réis, que foram entregues aos Revoltosos. Os revoltosos, com o desejo de completarem suas informações a respeito da cidade, interceptaram um senhor reconhecido como "Bernardo Carne de Porco" e pediram-lhe que indicasse o local da residência de algumas pessoas da cidade. O Senhor Bernardo não querendo se envolver, usou de alguma artimanha, sendo atormentado pelos invasores, conforme relatos de Dona Noêmia Botelho e do Senhor Rosário Neiva: Pegaram um vendedor de carne de porco, amarraram-no e fizeram-no beber pinga misturada com goiabada e queijo. Pegaram Bernardo Carne de Porco que era vendedor de carne de porco nas casas e queriam saber dele o endereço da liderança, ou onde era a casa do Fulano de tal, mas ele enrolou a língua fingindo falar só turco. Pegaram-no e levaram-no para o armazém de Quintino Vargas. Lá arrumaram pinga, cerveja, cocada baiana, doce de coco e enfiaram garganta abaixo do Bernardo e, quando ele saiu de lá, saiu engatinhando. Salientamos anteriormente que José Adjuto, utilizando seu caminhão, dirigiu-se para o Porto Buriti com a finalidade de buscar armamento. Ao anoitecer, o Senhor José Adjuto estava de volta a Paracatu, com o caminhão repleto de armas e munições, não podendo entrar da cidade, conforme podemos observar pelo relato de Marta Adjuto Brochado: O Manoel Mascarenhas, sabendo da preocupação de Joaquim Brochado com o caminhão de José que deveria chegar, entrou no Córrego dos Meninos e foi sair lá perto do Catuí, passando pelas grotas e se escondendo. Lá ele ficou escondido e, quando escutou o barulho do caminhão, ele saiu na correria e mandou o caminhão parar. Jogaram toda a arma fora, na grota e entraram com o caminhão vazio. O José estava trazendo também um doente de maleita e quando o um revoltoso parou, ele falou que estava levando o doente para o médico e deixaram-no passar. A porta da Escola Normal foi arrombada pelos revoltosos para que pudessem se apossar do mapa de Minas Gerais, assim afirma Marta Brochado: A Escola Normal que funcionava onde é hoje a Casa de Cultura foi arrombada pelos Revoltosos para tirar o mapa do Estado de Minas Gerais. As casas comerciais foram invadidas pelos homens de Siqueira Campos que retiraram o que quiseram para suprir suas próprias necessidades e o restante foi jogado nas ruas e nos córregos próximos da cidade. Entraram nas casas comerciais e tiraram o que precisavam. Eles entraram nas lojas e, no dia seguinte, encontramos, na praia, uma peça inteira de tecido verde que os Revoltosos jogaram no rio. Estragaram toda a mercadoria do Senhor João Abraão Guerra, no total de cem contos de réis. Entraram em todas as casas de secos e molhados, tiraram tudo e davam para os pobres. O meu irmão, Alexandre Soares de Oliveira, ganhou uma peça inteira de brim. Tiraram muita mercadoria da Casa Santiago. A Coluna Siqueira Campos, no curto período em que esteve na cidade de Paracatu, não provocou danos à população em geral. As residências não foram arrombadas e as famílias não foram molestadas. Assim confirmaram algumas das pessoas entrevistadas: Não atacaram as famílias. Os Revoltosos não mexeram com nenhum pobre, deram prejuízo apenas às lojas. Vi o Siqueira Campos, era uma pessoa muito delicada e falou que poderíamos ficar tranqüilos, que não iria fazer nada, só pretendia tirar dos ricos e dar aos pobres. Siqueira Campos passou perto de um Senhor que usava um relógio com corrente de ouro. Siqueira Campos pediu ao Senhor para guardar o relógio e a corrente, caso contrário não poderia se responsabilizar. O Alto Comando da Coluna Siqueira Campos foi recebido na residência do Sr. Joaquim de Moura Santiago, para uma pequena refeição, o que é lembrado pelo Sr. João Soares de Oliveira: O Sr. Joaquim de Moura Santiago recebeu a liderança dos Revoltosos na Casa Santiago para um suculento café. Eu mesmo ajudei a servir os revoltosos. Siqueira Campos, Capitão Costa e o Capitão Granuel foram juntos à residência de Sérgio Ulhôa, conforme depoimento da Senhora Izabel Santana. O meu tio, Sérgio Ulhôa, era amigo de Siqueira Campos, na época em que ele estudou fora. Siqueira Campos, o Capitão Costa e o Capitão Granvel jantaram na casa do meu tio. O meu tio nos apresentou a todos e falou com Siqueira Campos que nós éramos filhos do Agente Executivo e que tivessem consideração e poupassem a vida do papai. Eu lembro que era muita gente, era um pessoal sujo, cabelo grande, fedorento, não riam para ninguém e todos estavam a cavalo. Topo da Página IV. Os Revoltosos Abandonam Paracatu. No dia 14 de fevereiro, na parte da manhã, a Coluna Siqueira Campos deixou a cidade de Paracatu indo em direção a Unaí Na parte da manhã do outro dia saíram da cidade. Foram para Unaí, na parte da manhã do dia 14 de fevereiro. Sabemos que pelo menos um paracatuense acompanhou a Coluna, conforme declaração do Senhor Walter Pereira Mundim que diz: Meu avô Marcelino foi um revoltoso em 1927. Ele foi embora, junto com Siqueira Campos, acompanhando os seus seguidores e morreu por lá. A Polícia Legalista chegou em Paracatu logo após a saída da Coluna, conforme os relatos: Logo após a saída de Siqueira Campos, chegou o reforço dos soldados de Minas. Quando a tropa do governo de Minas chegou, um homem saiu correndo e gritando: - Vem a segunda dose! As autoridade de Paracatu pediram reforço, mas quando a polícia chegou, eles já tinham ido embora. Siqueira Campos, ao abandonar a cidade, aqui deixou um grupo de rebeldes denominado Grupo da Perfeição, comandado por Jorge José de Oliveira com a finalidade de combater os jagunços que praticavam ações de banditismo em nome da Coluna, fato que emerge no relato de Dona Emídia de Oliveira Lemos: Quando a Coluna foi embora, Siqueira Campos mandou que o soldado Vinte e Um (Jorge José de Oliveira) ficasse na região como Coronel para desmanchar todo mal entendido que ocorresse e desbaratasse todos os grupos de bandoleiros que estavam agindo na região e colocando a culpa na Coluna. O soldado Vinte e Um ficou aqui na região com um grupo de Revoltosos. Eles ficaram instalados na Fazenda São Caetano. O grupo de Revoltosos que permaneceu aqui em Paracatu era formado por sete soldados e o Comandante que era meu pai. Este grupo foi denominado por Siqueira Campos de Grupo da Perfeição. O soldado Vinte e Um conseguiu penetrar no grupo do Dente de Ouro, para minar a liderança que a chefia exercia. Mas, foi descoberto e houve um tiroteio onde morreram dois elementos do bando. O grupo do Necô e do Saul marcaram um encontro aqui em Paracatu para incendiarem a cidade. Roubaram latas de querosene em um armazém que existia onde é atualmente a Caixa Econômica. (...) foi quando papai chegou com o seu Grupo Perfeição; ocorreu um verdadeiro tiroteio e os dois grupos conseguiram fugir. De Paracatu, Siqueira Campos dirigiu-se para Unaí, fato descrito pelo Sr. Gessy Manoel Teixeira. A mamãe me contou que, quando Siqueira Campos passou por Paracatu, a Coluna foi dormir lá em São Sebastião. Na fazenda de meu avô, eles jantaram, dormiram e almoçaram. Eles saíram depois do almoço e meu pai foi seqüestrado para levar a Coluna até Unaí. E de Unaí, queriam que meu pai continuasse, mas ele não aceitou e eles arrumaram uma outra pessoa. Siqueira Campos queria queimar a ponte do Rio São Pedro e papai falou para ele não queimar, que era muito difícil construir uma ponte e ele não queimou a ponte. Passando por Unaí, a Coluna Siqueira Campos seguiu sua marcha em direção a atual cidade de Arinos e depois subiu pela margem direita do rio São Francisco passando por São Romão e São Francisco, indo depois para o Paraguai. De Paracatu, Siqueira campos dirigiu-se para Unaí indo internar-se, finalmente, na República do Paraguai em 24/03/1927, depois de percorrer nada menos do que 9000 quilômetros em cinco meses, chegando a fazer até 20 léguas por dia. No Paraguai, Siqueira Campos dedicou-se a ajudar os revoltosos que estavam com Carlos Prestes na Bolívia. Em território estrangeiro, procurou Siqueira Campos, de março de 1927 a princípios de 1928, fazer nos países do Prata a cobertura logística da Coluna Prestes, internada em La Gaíba, Bolívia. Buscava emprego para os companheiros que tentavam viver em outro local, mandava medicamentos para os que ficaram na Bolívia. Correspondia com os que necessitavam de sua fortaleza moral para prosseguirem com os objetivos da revolta. Realizava pequenos trabalhos de topografia, apenas para viver, mas não como ocupação principal. Conforme declaração prestada por Lindolfo Espschit no Jornal "O Movimento" de Paracatu, é salientado que Siqueira Campos ficou instalado no Paraguai, com ação até Buenos Aires e Montevidéu, para o serviço de contrabando de armas e munição, visando apoio a Getúlio Vargas. Usando nomes falsos e disfarces, correndo toda a sorte de riscos, Siqueira Campos esteve inúmeras vezes no Brasil, depois de 1928 para articular a conspiração de 1930. Em uma de suas missões no Brasil, Siqueira Campos recebeu uma cópia do Manifesto Comunista que Carlos Prestes ia lançar à Nação. Num gesto extremo, partiu para Buenos Aires a fim de tentar uma mudança na atitude de Prestes. O encontro que teve com Prestes, na noite de 9 de maio de 1930, foi improfícuo. Na travessia do Rio da Prata, realizada na madrugada do dia seguinte, o avião do "Aeropostale" caiu em frente a Montevidéu, morrendo Siqueira campos. Foi sepultado no Cemitério da Consolação, sob grande consternação popular. Coube ao pai, Raimundo Pessoa de Siqueira Campos, após ouvir os discursos fúnebres de vários oradores, as palavras finais: Tony... meu filho, a pátria ganhou mais um herói, mas perdi você. Descanse em paz. Siqueira campos, oficial do Exército, tudo abandonou com o objetivo de lutar por um ideal, que sua consciência indicava como correto. Passou pelo cerrado mineiro como uma estrela cadente, deixando em Paracatu a marca de sua própria história. Ad astra per ardua (Chega-se a resultados sublimes por caminhos estreitos)  

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