Desordem Urbana

Resido há mais de 30 anos no mesmo endereço da Rua Aires Saldanha. Sempre foi um local tranqüilo, sem o barulho dos ônibus (por aqui não passam linhas) e de perfil essencialmente residencial, com algumas poucas opções comerciais. De uns anos para cá, contudo, a tranqüilidade começou a dar lugar à desordem, geralmente provocada por certos estabelecimentos que promovem a baderna e o desrespeito, ancorados, por certo, na vista grossa de nossas supostas autoridades, que nada fazem para coibir tais abusos.

Atualmente, a dor de cabeça atende pelo nome de Baixo Copa. Inaugurado no começo de setembro, já teve de fechar as portas por ordem policial logo na primeira noite, por conta do barulho excessivo de sua maquinaria, o que causou profundo incômodo aos moradores dos andares mais baixos do prédio de número 13, que, desafortunadamente, fica em cima do referido “point”. Antes fosse este o único problema. Em pouco mais de três meses, não há quem, residindo nas redondezas, não reclame do barulho promovido pelo estabelecimento. Sobretudo os moradores do edifício em questão, que, ainda por cima, têm seu direito de ir e vir cerceado pelos freqüentadores do bar, que ocupam toda a calçada, inclusive, não raras vezes, obstruindo a própria portaria.

Como se isso não bastasse, o local promove, aos domingos, uma roda de samba, ou seja, faz-se uso de batucada, o que, se não estou enganado, é proibido por lei, mesmo nos locais que oferecem música ao vivo. Ou pelo menos deveria ser proibido. O barulho começa por volta das 15h e se estende até 22h. Pouco? Agora mesmo, parece que mudaram a programação e a bagunça já começa na noite de sábado, com música altíssima, perturbando mesmo os moradores dos andares mais altos.

Os moradores da área já estão cansados de reclamar nos órgãos “competentes” sem que qualquer medida seja efetivamente tomada para que o problema se resolva. O que poderia ser feito? Multas contínuas? Cassação do alvará? Alguém da prefeitura poderia se manifestar quanto a isso? Eu mesmo já fiz diversas reclamações – Teleordem, Secretaria de Meio Ambiente, Ouvidoria da Prefeitura – e a resposta é sempre a mesma: “Vamos fiscalizar”. A Ouvidoria, aliás, revelou-se de uma inutilidade assustadora. Quando liguei certa vez para informar do fato, antes mesmo de minha reclamação ser ouvida, o funcionário foi logo dizendo que eu deveria me reportar à 5ª. Região Administrativa (RA), por ser ele o órgão fiscalizador mais competente para resolver a questão. Não sei se por causa desse jogo de empurra, mas o fato é que, a cada dia, o problema se agrava e soluções, que são o que esperamos e queremos mesmo, nada.

Para aumentar a aflição, o imóvel localizado no número 10 da mesma rua – cujo endereço oficial é Rua Bolívar 27-B – está em obras e todos já temem que ali abra outro boteco cujo prato de todo dia seja o barulho, a desordem, o desrespeito. As lembranças não são agradáveis: ali funcionou, por 18 meses (agosto de 2006 a março deste ano), o estranho Belisquet’s, de tristíssima memória por suas noitadas embaladas ao som de altos decibéis, até 3 da manhã, mesmo durante a semana, e que, posteriormente, se converteu em ponto de encontro de torcedores do São Paulo F.C., que brindavam os moradores com seus gritos e seus cantos repletos de palavrões, também noite adentro. Será possível que teremos de aturar outro vizinho que cause tamanho incômodo? O alívio que se seguiu a seu fechamento deu lugar à apreensão.

Nem citei o Xexéu, e creio ser desnecessário, por ser este um velho conhecido de todos os moradores da outrora tranqüila Aires Saldanha, conhecedores de seu histórico de festas barulhentas e música alta invadindo os lares de quem tem o azar de morar próximo ao local.

Estes flagrantes de desordem são emblemáticos de uma cidade que se acostumou a viver à margem de qualquer lei. Faz-se o que bem se entende, da maneira que melhor convier – e os incomodados que se mudem, ou cansem de reclamar, como já está acontecendo comigo. Vivemos atualmente uma era de cinismo disseminado, onde todos fazem questão de exigir seus direitos mas ninguém se preocupa em exercer seus deveres de cidadão, entre os quais, o de respeitar o próximo. Provavelmente são as mesmas pessoas que deixam o celular ligado nas salas de cinema, avançam sinais, jogam lixo nas ruas – ou seja, nem aí para a civilidade e a boa convivência. Depois, ainda têm a cara de pau de participar de alguma passeata na orla, para passarem a imagem de que são cidadãos conscientes ou engajados em alguma causa social. Chega a ser asqueroso.

Enfim, este é apenas um caso. Quantos mais teremos espalhados por nosso bairro e, por extensão, por toda a cidade? E sem vermos medidas efetivas que controlem ou ponham fim a tantos abusos? Depois, ainda falam em Cidade Maravilhosa... Só se for para os baderneiros!

Giuliano Francesco

2008-12-16 10:42:26