Na praça Vinte e Seis de Janeiro, atual
Praça Bernadelli (mais conhecida como Praça do Lido,
foi construído um pavilhão normando, em 1928, onde durante muitos anos
funcionou um dos restaurantes mais elegantes da cidade,
o Lido. Seus bailes de carnaval eram famosos e iam até
às 11 horas da manhã.
Em 1931, encontravam-se construídos vários prédios de apartamentos, naquela região. Esses prédios recebiam a denominação de palacetes- atribuição equivalente à das casas isoladas, dos palacetes das classes abastadas, como forma de conferir-lhes o mesmo grau de distinção que estes e tornado-os bem aceitos.
O Palacete Duvivier, de propriedade de Eduardo Duvivier; o Edifício Itaóca; o Palacete Veiga; o Palacete São Paulo, a Casa Rosada; o Palacete Oceânico, são alguns destes prédios.
Os apartamentos também deveriam oferecer bastante conforto e o mínimo de privacidade para que não se comparacem às habitações coletivas. Deveriam ter entradas nobres e entradas de serviço. As dependências de empregados deveriam ficar, o mais que pudessem, afastadas dos cômodos que serviam às famílias. Deveriam ter, pelo menos duas salas: a de visitas e a de jantar; saletas e quartos amplos. Materiais nobres como piso de mármore, decorações em gesso em alto relevo, cristais lapidados, lambris de madeira, eram indispensáveis.
Os estilos arquitetônicos predominantes eram o Luís XV e o Luís XVI. Os ocupantes desses primeiros edifícios eram, geralmente, estrangeiros, que procuravam alugar os apartamentos sobretudo na época do verão. As famílias não precisavam se preocupar com empregados, pois os encarregados dos apartamentos se incumbiam de tudo- num tipo de serviço que poderia ser considerado o precursor dos apart-hotéis, que se instalariam no bairro, e na cidade, cinqüenta anos mais tarde.
As crianças residentes nos apartamentos faziam das praças e da praia seus quintais. Os apartamentos Ferriri, na Rua Sá Ferreira no entanto, ofereciam opção de lazer, o que não precisava ser em espaços públicos: em seu terraço, os inquilinos desfrutavam de jogos de salão, balanços, bancos de jardins. As facilidades, porém, tinham um alto custo. Assim, ficava claro a sua destinação a pessoas mais abastadas.
A implantação dos arranha-céus em Copacabana dividiu as opiniões dos moradores: para uns, os edifícios não passavam de casas de cômodos e pareciam verdadeiros caixões, para outros, eram uma onda de civilização. De qualquer forma, a quantidade de edificações como esta, era ainda pouco expressiva. Os prédios mais altos localizavam-se na Avenida Atlântica, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana e no Lido - os lugares que possuiam maior largura.
Apesar de ainda existirem muitas casas, o surgimento dos pequenos e grandes prédios foram mudando rapidamente a fisionomia das ruas do bairro.
Copacabana teve a sua paisagem marcada pelas construções em estilo art-decô, com a simplicidade das linhas retas, as janelas inspiradas em vigías de navio e guarda-corpos de ferro arredondado. Foi neste bairro que este estilo se mostrou de forma mais expressiva. Até hoje, podemos identificá-lo em alguns prédios: nos vastos halls, nos detalhes em ferro e vidro das portas, nos lereiros e luminárias, nos relevos sutis do concreto das fachadas, nas saliências e reentrâncias...
A criatividade e as características desse estilo são marcantes. A grande flexibilidade da planta dos apartamentos possibilitava uma circulação interna tranqüila por todos os cômodos. O uso externo de revestimentos nobres, formando uma barra de proteção, resguardava as paredes em contato com a rua. As varandas e balcões com párapeitos de alvenaria, total ou parcialmente imbutidos no corpo da edificação, se destacavam. A boa qualidade dos materiais de construção utilizados e o uso de formas arredondadas, principalmente nos prédios de esquina, permitiram uma ótima conservação.
O Copacabana Palace Hotel, com seu cassino, alçou a fama e a
internacionalização do bairro. Em 1936, Noel Rosa cantava,
em Tarzan, o filho do alfaiate:
eu poso pros fotógrafos/
e distribuo autógrafos/
a todas as pequenas lá da praia de manhã./
Um argentino disse, me vendo em Copacabana:/
no hay fuerza sobre-humana/ que detenga este Tarzan!
Começam a circular, em
Copacabana, os ônibus da Light, em
1931. Por essa época, nos seus arranha-céus já existiam
apartamentos de aluguel por temporada, destinados a estrangeiros
e turistas que vinham ao Rio de Janeiro passar o verão na praia.
O edifício Palácio Império, na revista O Cruzeiro,
anunciava apartamentos mobiliados, restarante e garagem. Em 1938, na
administração do prefeito
Henrique Dodsworth, são concluídos os
trabalhos de corte do morro do Cantagalo, ligando
Copacabana à Lagoa Rodrigo de Freitas.
Copacabana, a Princesinha do Mar, foi eternizada em música de
João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro e gravada em
1946, por Dick Farney, tornando-se conhecida no mundo todo, com
centenas de gravações. Os versos são:
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Naturalmente, com toda essa nobreza e afluência, duas
grandes favelas já estavam nas encostas dos seus morros, desde a
década anterior: a do Cantagalo e a da Babilônia.
O bairro crescia, construções de casas e edifícios eram levantadas
e de ruas abertas em direção do mar. Nas areias de Copacabana
praticava-se todos os tipos de esportes: jogava-se pelada, peteca e
o futebol de areia que deu origem a diversos clubes.
Começam a se formar turmas de jovens no bairro que elegem esquinas e praças para
as reuniões, onde criavam e mantinham as festas do carnaval e juninas. O ponto mais famoso dessas reuniões era o da
Rua Miguel Lemos.
O sistema de moradia em apartamentos levou à formação de grupos de jovens que moravam na mesma rua.
As várias esquinas, até hoje, têm seus turmas de jovens. Nos anos
50 a mais famosa delas foi a da
Rua Miguel Lemos, onde um líder
se destacou,
Cristiano Lacorte, que de sua cadeira de rodas
movimentava o grupo, comparecendo a todos os eventos de Copacabana.
No quarteirão eram - ainda hoje são - organizadas festas
referentes a diversas comemorações do ano. No Carnaval crianças
e adultos brincavam e continuam brincando na calçada, ao som de
músicos especialmente contratados para os três dias de festas.
Esses grupos se espalharam pelas ruas e não há Copa do Mundo de
Futebol que não tenha as ruas decoradas por eles. Nas festas
juninas são montados verdadeiros arraiás para a diversão dos
moradores.
Lançaram e lançam modismos na música, nos esportes
e na maneira de ser, como: o uso da lambreta, do blue jeans,
o rock’n roll, esportes e a freqüência maciça aos cursos de
línguas estrangeiras (na década de 90, cursos de informática).
Copacabana tinha muitas livrarias e dava atenção especial aos
programas teatrais e cinematográficos, tornando-se o bairro
pioneiro no surgimento de cineclubes, concertos musicais e a
ter platéia para as jam sessions, sempre com muito sucesso.
Sem dúvida, foi um modo de fazer com que vivendo na vertical
os jovens desenvolvessem uma convicção de equilíbrio nas
diferenças de classes sociais.
O jornal O Globo noticiava em 29 de janeiro de 1954
"Desde 1935, quando foi inaugurado o Cassino Atlântico, o Posto Seis, em Copacabana, tem sido um dos pontos de maior animação carnavalesca da capital da República. Atualmente, transformado em sede da Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), o edifício da esquina da
Avenida Atlântica com a
Rua Francisco Otaviano
continua mantendo a tradição de baluarte da alegria carnavalesca. Há duas semanas vêm realizando em sua boate os movimentados bailes "Sassaricadas" (das 14h às 20h), os quais terão prosseguimento, todos os sábados, até o carnaval."
Carlos
Lacerda era deputado federal, em 1954, no Distrito Federal,
cuja capital era o Rio de Janeiro.
O jornal O Globo noticiava em 24 de março de 1954
"Lacerda e filho de aranha trocam socos
Principiando por uma altercação seguida de luta corporal entre o Sr. Euclides Aranha e o jornalista Carlos Lacerda, um incidente que se prolongaria até a meia-noite, resultando, inclusive, em congestionamento do tráfego da Avenida Atlântica e interdição do local por autoridades policiais, perturbou na noite de ontem o jantar no Bife de Ouro, o restaurante do Copacabana Palace Hotel. Achavam-se reunidos na mesma mesa o ministro João Cleophas, o deputado Edilberto Ribeiro, o Sr. Manuel Ferreira e Carlos Lacerda, diretor da "Tribuna da Imprensa", num jantar promovido pelo deputado. De outra mesa, o Sr. Euclides Aranha, filho do ministro Oswaldo Aranha, jantava com a esposa, levantou-se, fisionomia transtornada, dirigiu-se à mesa onde se encontrava o referido grupo, deteve-se junto à cadeira do jornalista e interpelou-o sobre ataques dirigidos a seu pai na "Tribuna da Imprensa". À interpelação seguiu-se áspera troca de palavras, tendo o jornalista se levantado, entrando em luta com o filho do ministro da Fazenda. Segundo as testemunhas, os dois trocaram socos por algum tempo, até que amigos comuns se interpuseram e os separaram. Às 23h, o próprio ministro Oswaldo Aranha compareceu ao restaurante para ver o que ocorrera. Pouco depois, simultâneamente, por portas diferentes, os Srs. Euclides Aranha e Carlos Lacerda abandonaram o Bife de Ouro."
O presidente do Brasil
era Getúlio Vargas, eleito em 1950, de cujo governo
Lacerda fazia oposição permanente. Depois de várias crises
contra o governo de Getúlio Vargas, sempre muito atacado por
Lacerda, este sofreu um atentado, na
Rua Tonelero, em Copacabana, onde morava, por elementos
da guarda pessoal do presidente.
Lacerda foi atingido no pé, mas seu amigo major
Rubem Vaz, da Aeronáutica, de quem se despedia na calçada
do edifício Albervânia, foi atingido mortalmente. Desse
episódio, desencadeou-se enorme desgaste para Getúlio Vargas,
culminando com seu suicídio, em 24 de agosto de 1954. Foi uma
comoção nacional.
O jornal O Globo noticiava em 19 de maio de 1954
"As mazelas de Copacabana
Copacabana, que com sua maravilhosa praia, hoje célebre em todo o mundo, e a beleza alpestre dos seus limites do lado oposto do mar, bem podia ser um recanto do paraíso, há muito está, deplorávelmente, convertida num verdadeiro inferno. Começa por ser um bairro de densidade demográfica já excessiva, que conta apenas com duas vias de acesso. Mas, afinal, isto, apesar dos seus tremendos inconvenientes, não é o pior. Há a falta d'água, as ruas esburacadas, as calçadas impedidas por montes de material de construção e até por muros inconcebíveis, como, por exemplo, aqueles que se vêem na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, entre as
Ruas Fernando Mendes e
Rodolfo Dantas. Dir-se-ia que os citados muros se erguem absurdamente, incrivelmente, ali, barrando a calçada, para mostrar a quantos passam pela movimentadíssima avenida que tudo é possível em Copacabana.
Tudo é, realmente, possível em Copacabana, tudo quanto é mazela. Talvez por isso, as autoridades municipais estejam despreocupadamente deixando que a praia mais famosa das Américas venha sendo transformada no mais imundo dos vazadouros. Causa engulhos o que se vê, ou, com mais exatidão e não menor repugnância, o que se pisa ali. Aquelas areias prateadas e magnificamente esplendentes ao sol estão pontilhadas do que há de mais nauseabundo. É que a praia de Copacabana passou agora a ser residência desimpedida de um dos maiores contingentes de vagabundos ainda concentrados nesta capital. Ali eles comem, ali eles dormem, ali eles fazem o que querem ou a natureza lhes dita, sem que apareça qualquer agente da autoridade para dizer-lhes que já é tempo de começar a sofrer alguma restrição a desmedida liberdade de que têm tão farta e repugnantemente abusado."
Em janeiro de 1958, Rubem Braga, cronista conceituado, escrevera
Ai de ti Copacabana, crônica na qual como um profeta do
apocalípse, lamentava:
A Bossa Nova nasceu na
Avenida Atlântica, na casa de Nara Leão, onde a partir
de 1956, jovens da classe média, como: Roberto Menescal,
Ronaldo Boscoli, Carlinhos Lira e outros, em torno de cervejas e
sanduíches se reuniam para cantar.
Porém o fato que marcou o
aparecimento da Bossa Nova foi o disco gravado por Elizete
Cardoso, em 1958, Canção do amor demais, cujo acompanhamento
era feito pelo violonista João Gilberto, com uma nova forma
rítmica, uma batida diferente, logo batizada de Bossa Nova.
João Gilberto tornou-se depois cantor e o papa da Bossa Nova,
reconhecido no mundo inteiro.
Dois anos depois o Rock and Roll é lançado no Brasil,
justamente em Copacabana, no Copa Golf onde hoje é o
Shopping Cassino Atlântico. Do Leme ao Posto Seis,
Copacabana torna-se definitivamente centro de lazer da cidade.
Havia 06 cinemas, o Bob’s, a varanda do Hotel Miramar,
a Colombo, a piscina do Copacabana Palace, as missas do
Padre Barbosa, a Americana, o Bar do Frederico (no
andar térreo da boate Fred’s) e o Scaramouche (em frente ao
Bob’s). O roteiro da noite incluía 36 restaurantes, 4 teatros,
3 lanchonetes (snack bars), 2 clubes e 20 boates (night clubs).
Depoimentos
"Fui músico da boite Fred´s (baterísta do conjunto do pianista Antonio Guimarães). Não vejo nenhuma referência a esse grupo musical que inaugurou aquela casa de espetáculos. Ary Barroso passou por lá com o cantor Ernani Filho. Mas um personagem da noite poderia ser mais lembrado, pela sua importância: Pedro das Flôres. Vestido a rigor, ele distribuia flores pelas mesas. Era queridíssimo por todos. Distinto, não cobrava deixando por conta do cavaleiro o receber ou não alguma ajuda em dinheiro." Fernando Mendes de Oliveira
Com o alto padrão econômico da população de Copacabana expandiu-se
o transporte individual que dividia, com dificuldade, o espaço de
acesso ao bairro, com ônibus e bondes. O desenvolvimento da
indústria automobilística, recém criada no Brasil, fez com
que a construção de prédios com garagens e estacionamento.
As famílias de classe média cuja aspiração era atingir um
status convencionado pela sociedade de então, procurava
morar em Copacabana, mesmo que fosse em pequenos apartamentos.
Sempre havia um mocinho bonito que fazia musculação,
mostrando os músculos ao usar camiseta apertada e era a imagem do
jovem pobre, que procurava uma vida melhor, morando ou freqüentando
o bairro.
Essa imagem foi captada por Billy Blanco em samba
gravado por Doris Monteiro, lançado em 1957, Mocinho Bonito:
Mocinho bonito,
perfeito improviso de falso granfino,
no corpo é atleta, no crânio é menino,
que além do ABC nada mais aprendeu;
queimado de sol,
cabelo assanhado com muito cuidado,
na pinta de conde se esconde um coitado,
um pobre farsante que a sorte esqueceu.
Contando vantagem,
que vive de renda e mora em palácio,
procura esquecer um barraco no Estácio,
lugar de origem que há pouco deixou.
Mocinho bonito,
que é falso malandro de Copacabana,
o mais que consegue é "vintão" por semana,
que a mana "do peito" jamais lhe negou.
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