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Rio de Janeiro, Copacabana.COM Thursday, 07-Aug-2008 20:50:13 BRT
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História de Copacabana |
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O foco central dessa pesquisa foi a trajetória de vida e a produção (composições e crônicas) de Antonio Maria, priorizando os circuitos e as experiências boemias em Copacabana, mais diretamente centrada nos anos dourados.
"A noite é uma criança": Experiências Boêmias em Copacabana
Nos anos 50, Copacabana era o centro da vida da então capital federal, era o bairro "quente" da noite carioca. Na calçada preta e branca da praia, um vai-e-vem de príncipes, ladrões, banqueiros, pederastas, estrangeiros que puxam cachorros, mulheres de vida fácil ou difícil, vendedores de pipocas, milionários, cocainômanos, diplomatas, lésbicas, bancários, poeta, políticos, assassinos e book-makers. Passam estômagos vazios e outros empanturrados, em lenta digestão. 2
Naqueles anos efervescentes conviviam no bairro: estrangeiros e nacionais, banqueiros milionários e bancários, políticos, assassinos, book-makers e cocainômanos, intelectuais e "cafajestes", que compunham uma trama de relações multifacetadas e com infinitas conexões.
Nas novas avenidas, em particular as da praia, passavam velozmente automóveis conversíveis, criava-se a sociabilidade na praia e definiam-se novas formas de relação entre os gêneros, estabelecidas legal e clandestinamente por detrás das múltiplas janelas dos prédios de apartamentos.
Assassínios, roubos, desquites. Muita notícia de câncer em pessoas conhecidas e nenhum telegrama, de NY ou Teresina, dizendo que o cachet da cura foi descoberto. Ao longo das praias de Botafogo, naquelas avenidas macias onde o automóvel dá 90, uma fedentina de morte. Falta d'água na zona sul. Bares e boates, com pias e torneiras inúteis, lavando pratos e talheres, só Deus sabe como. Contas altíssimas... E Copacabana, coitada, despoliciada e perigosa, sofre o trottoir das mulheres sem dono e traz para a porta dos seus bares: pederastas, traficantes de maconha e desordeiros da pior espécie. Numa dessas madrugadas, saindo do Vogue, dei com uma cena lamentável, na porta da "Tasca"...
Da guarita do Forte do Leme à guarita do Forte de Copacabana, de sentinela a sentinela, são 121 postes de iluminação, formando o "colar de pérolas", tantas vezes invocado em sambas e marchinhas... As boates da praia abrem e fecham da noite para o dia. No antigo cineminha do Cassino Atlântico, uma casa de uma porta só já teve mil nomes e, agora, está fechada, após a última tentativa da senhora Elvira Pagá, que dançou sem roupa para uma meia dúzia de fregueses tristes. Depois, o Ranchinho, já sem Alvarenga, com Caymmi de chamariz. Num corredor, o Perroquet, com a decoração mais feia do mundo, sustentado por um show de carnaval, "made by" Colé e Nélia Paula. Além disso, só vai ter o Bambú, lá pra longe, resistindo e morrendo, morrendo e resistindo. As transversais, porém, estão cheias de bares. O "Siroco" e o "Mocambo" começaram bem, mantinham uma freguesia agradável e se degradaram, com o tempo. Hoje, na porta de cada um, há um guarda e dois investigadores, para o que der e vier. "La Conga", velha tabulete de Mme. Lili, abriu, fechou e abriu outra vez, na Prado Júnior. Lá dentro - dizem - há linda uruguaias da equipe de Mme. Lili, uma tentação para o marido em habeas corpus. Os restaurantes franceses, da marca do Bistrô, Cloche d'Or, French Can-Can, Cremaillére e Tout-en-bleu são mais de uma dezena. Atualmente, o mais freqüentado é o Bistrô... Defronte está o "Michel" e Mimi preserva um tom moreno iodado muito simpático, mesmo nos meses de inverno. Aí se encontram os donos da noite. Poetas e jornalistas vieram do Maxim's (depois que Freddy foi embora) e sentaram ao lado de políticos e banqueiros. Pares de namoro recente estão pelas mesas dos cantos, assim como quem não quer nada, de olhos baixos e conversa miúda. Música de um piano sonolento, tango de um violão super-argentino. Os homens dos bancos altos, em volta do bar, com o olhar parado, perguntando coisas ao Lopes, foram, em sua maioria, largados pelas mulheres. Na caixa, com um vestido negro, Mimi ouve, ri, fuma de piteira, diz "bonsoir" e fatura. Este é o roteiro noturno de Copacabana... onde começam as noites e os dias do boêmio carioca 5"Ninguém me ama...": Nos embalos do samba-canção
Copacabana era um território boêmio6 diferente da Lapa e do Estácio. Boates como Vogue eram freqüentadas pelo high-society, intelectuais, cronistas da imprensa, a turma da música popular, paulistas ricos em férias. Era um espaço de refúgio para solitários. Teresa e Didu, Lurdes e Alvaro Catão, Lili e Horácio de Carvalho, Lúcio Rangel, Jacinto de Tormes, Beijo Vargas, Ibrahim Sued, Sérgio Porto, Aluisio Sales, Fernando Lobo, Valter Quadros lá se encontravam religiosamente. Araci de Almeida, Linda Batista, Angela Maria, Inesita Barroso cantavam na pequena casa do Barão von Stuckart (um austríaco mais melancólico do que festivo), onde se apresentava uma boa orquestra de negros americanos e o piano suave do Sacha, já de cigarro no canto da boca.
Como cronista e boêmio, Antonio Maria, se movia com destreza nesse espaço que conhecia como ninguém, identificando com esse universo suas regras e formas de expressão que se diferenciavam das do dia, mas nem por isso eram marginais ou desvinculadas dos elementos fundantes da sociedade, como trabalho e família.
Ser moderno porta a dentro
Nos anos 50, a emergência do desejo de ser moderno generalizou-se por toda a sociedade e passou à esfera do domínio da vida cotidiana. A produção tanto material quanto cultural passou a ter destino nos mercados de massa e ficou ligada às diversas necessidades do dia-a-dia. Da mesma forma, a idéia de moderno estava relacionada a novos estilos de vida, comportamentos e hábitos, difundidos mais amplamente pelos meios de comunicação de massa.
A modernidade não implicou uma padronização no estilo de vida, tanto nos seus aspectos materiais quanto nas escalas de valores, mas uma veiculação de um modo de vida calcado em referenciais como funcionalidade, conforto, eficiência e racionalidade. Esse movimento de uma certa referência cultural em padrão mais universal tomou formas novas e singulares, dada à própria qualidade plural da cultura.
O viver moderno de Copacabana trouxe transformações culturais e nos significados das experiências, mas sem que outras formas de vivência tenham desaparecido: mantiveram-se residuais, convivendo com experiências emergentes. Era possível reconhecer um campo de experiências em comum entre os sujeitos históricos que a vivenciavam. Estabelecia-se uma tendência, uma espécie de vetor comum homogeneizador que ao mesmo tempo comportava a resistência e/ou um inconformismo.
Essas modificações pautaram-se por novas vivências cotidianas, a partir das quais se constituíram novas organizações do território, das quais originou-se uma outra forma de homens e mulheres apreenderem os fenômenos que vivenciavam. Não que todos compulsoriamente tenham passado a viver de acordo com esses padrões e absorvido as perspectivas de vida que se constituíram em Copacabana, mas a imagem desse novo ideal de vida não deixou de ser sonhada, desejada e incorporada por uns e refutada por outros.
Copacabana era palco de tensões entre valores tradicionais e modernos, numa dramaticidade não previamente definida, num dilema entre mudar ou permanecer, e até que ponto. Idealizam-se novos modelos de conjugalidades, com a rejeição de vínculos formais, e questiona-se um duplo padrão de moralidade, com a exigência de uma fidelidade estrita por parte da mulher e a aceitação da fidelidade relativa por parte do homem.
Um automóvel deixou uma mulher à porta do prédio de apartamentos - pelo estado em que se encontra a maquilagem, andou fazendo o que não devia. Os ruídos crescem e se misturam. Bondes, lotações, lambretas e, do mar, que se vinha escutando algum rumor, já não se tem o que ouvir
As transformações no espaço urbano eram indissociáveis das transformações no espaço privado. Percebe-se também "porta adentro" um processo de modernização, mas de forma lenta, irregular e, até, resistente, numa rotina do viver em pequenos apartamentos, em geral só:
Sua casa deve ser pequena, não mais que um quarto e uma sala. Teria ainda uma cozinha, um banheiro e um terracinho ao fundo, com o lavador de roupa. Quanto aos móveis, os da sala seriam: um sofá, duas poltronas, uma mesinha baixa de centro e outra, desmontável, dessa que ficam pela metade e são encostadas na parede. Sobre esta mesa, um jarro de flores e um retrato de parente; uma mesa para almoçar e jantar, se viesse gente de fora. Na mesinha baixa de centro, dois cinzeiros, com o nome de uma boate. Sobre o assoalho, sem tomá-lo todo, um tapete branco de cordão grosso. Haveria ainda uma vitrola portátil e os discos estariam na cadeira ao lado. Nas paredes, duas ou três reproduções (uma de Gauguin) e mais um quadrinho pequeno, de pintor nacional.
Agora, por exemplo, se são duas da tarde, a moça estaria tomando uma xícara de café, em cima de um guardanapo de matéria plástica ocupando só uma ponta da mesa encostada, tendo apenas afastado o retrato do parente. Mexeria o café no fundo da xícara. As flores ficariam onde estavam. Bebe sem olhar para a xícara; ou estaria olhando uma pequenina mancha da parede e ficará olhando um tempo enorme para esse ponto sem importância, porque só se pode olhar demoradamente para o que não tem importância ou beleza no poder. Estaria vestida como dormiu, porque mora sozinha e gosta de ficar nesse deus-dará, até que lhe chegue coragem de tomar banho, vestir-se ...
Defronte na penteadeira um aviso de banco e uma conta de luz e gás. O vidro de perfume nas últimas. Existir é difícil. Matar-se ou prosperar. No chão, revistas, quase todas com fotografias de Teresinha Morango. Noutra, várias poses de Colette Marchand. A angústia e a inutilidade dos tímidos. Gostaria de ser beijada silenciosamente na fronte. Gostaria de entender o seu misticismo. Gostaria de ter um amigo íntimo. Gostaria de ter a vida menos minha (diz e pensa), não sei intimidade nenhuma. Lembra-se de um certo cidadão que a ama, ou a amou. Se ele entrasse, ela fecharia os olhos
O sentimento de estar só no espaço, o "sentir só" expresso na crônica de Antonio Maria persiste nas canções. Identifica-se o espaço público como "mundo mau", com conotações negativas de perigo, indiferença e estranhamento, enquanto o mundo privado, representa refúgio seguro.
"Os homens tristes geralmente fazem graça"
Em 1940, o Rio de Janeiro passava por um conjunto de outras reformulações urbanas, nesse período estava em voga fumar o cigarro Pour la Noblesse, ler as Seleções do Reader's Digest, usar sabonete Lever, óculos Ray-ban e Brylcreem nos cabelos, ir aos Cassinos da Urca, do Copacabana Palace Hotel e de Icaraí. Nesse ano Antonio Maria chegou ao Rio pela primeira vez, veio a bordo de um Ita e queria tentar a sorte na rádio.
Antonio Maria Araújo de Morais nasceu em 17 de março de 1921, filho de pai usineiro e que tudo perdera num desastrado lance de especulação com os preços do açúcar. Teve uma infância privilegiada: o desvelo materno, os tempos do colégio, as lições de francês, os banhos de rio e de praia e as férias na usina dos avós.
Em Recife, começou a trabalhar aos 17 anos na Rádio Clube de Pernambuco irradiando futebol. Mas o sonho da carreira na Capital Federal o levaria para o Rio, onde ficou hospedado no apartamento 1005 do edifício Souza na Cinelândia, que partilhava as dificuldades com Fernando Lobo, Abelardo Barbosa e Dorival Caymmi, foi um período duro. A princípio tentou a rádio trabalhando como locutor esportivo, mas não tardou por perder o emprego, se envolveu em muita encrenca, com muita mulher e até com a polícia, logo voltou para Pernambuco.
Permaneceu em Recife até 1944, trabalhando na Rádio Clube de Pernambuco. Já casado e com dois filhos, também atuou na Rádio Clube Ceará, passou por Salvador onde foi diretor das Emissoras Associadas, constituindo uma carreira produtiva e audaciosa. De volta ao Rio de Janeiro em 1947, recomeçou sua trajetória na Capital pela rádio Tupi, como diretor artístico. "Um menino grande" era como alguns o chamavam, pesava cerca de 120 quilos distribuídos em 1,80m de altura.
A rádio Nacional era a líder de audiência sendo seguida pela Tupi, na qual Maria dirigia e redigia os programas humorísticos e musicais. Em agosto de 1947 estreava com o programa "Minha terra é Assim", uma série de especiais curtos de meia hora com grandes nomes da música brasileira, também dirigia e apresentava "O tempo e a música". O destaque cabia para os programas humorísticos como a "Rua da Alegria", tendo como personagens mulheres assanhadas, maridos traídos, caipiras e outros clássicos do gênero, criando um texto humorístico centrado no cotidiano e de perfil ingênuo.
- Você sabe a semelhança e a diferença entre os trens da Central e a moça que toma carona de desconhecido?- perguntava alguém com voz de capiau.
Também transmitia jogos de futebol, foi ele que transmitiu o gol de Ghigia no final trágica da Copa do mundo de 1950.
Em 1952, o governo Getúlio Vargas, em troca de apoio político, investiu altos recursos na rádio Mayrink Veiga, Antonio Maria transferiu-se para lá com um contrato de 50 mil cruzeiros, o mais alto salário do rádio no país, ele logo comprou seu primeiro Cadillac. Maria levou para nova emissora o seu bem sucedido "Rua da Alegria", invertendo o nome para "Alegria da Rua", seu trabalho era menos em cima dos tipos e mais em cima das piadas, do texto. Também escreveu "Teatro de Comédia", "Levertimentos", "Cássio Muniz o cronista do mundo", musical "Antártica", "Coisas da vida", "Regra Três", "A cidade se diverte".
Ele chegou a ter três programas por semana mais de 13 laudas cada um e a criatividade vinha sempre de última hora ou do ouvido atento, foram 15 anos de programas marcantes e uma inteligência de destaque na década de ouro do rádio.
Além, da rádio Antonio Maria ainda tinha as composições musicais, as colunas dos jornais, os shows da boate Casablanca, alguma nova revista como "A Mulher é o diabo", junto com Ary Barroso. Produziu jingles para produtos e políticos, como bom nordestino fez muito repente nos estúdios. Os jingles possibilitaram experiência com a criação de textos com frases curtas, saborosas e diretas permeadas de humor.
Em 1951 foi convocado para participar da TV Tupi no Rio, atuando nos programas de entrevistas, musicais, humorísticos e outros. Já em 57, atuava na TV Rio com o programa "Rio Eu gosto de você" com Ary Barroso, de 1958 a 61 destacava-se em "Preto no Branco" programa de sucesso, no qual formulava as questões sempre com bom humor e ironia. Solicitado para o trabalho também participou de "Noites cariocas", em o "Riso é o limite" produzia um mesmo texto para a TV e para a Rádio mudava o interprete e o programa, mas mantinha a piada. Como entrevistador era sedutor, tinha uma boa conversa destacando-se no programa "Encontro com Antonio Maria", alguns desses encontros foram fatídicos como o programa com Maysa no qual ele a cantou publicamente e o com Ademar de Barros quando surgiu num diálogo com Maria a expressão que passaria caracterizar o político - "eu roubo mais faço". Paralelo a essas atividades na rádio e na TV, havia as crônicas em sua maioria centradas em Copacabana, em particular nas noites. Nesse período quem tinha dinheiro e queria se divertir ia para Copacabana, era uma boemia na qual circulava o café-soçaite, lá se encontrava o cardápio mais sofisticado, sempre com novidades, nas pistas o cheek-to-cheek dos casais, muitos deputados (Rio de Janeiro ainda era a capital federal) com carnudas vedetes. Durante a primeira metade da década de 50, Antonio Maria escrevia no Globo, a coluna "Mesa na pista", o centro das notícias ocorriam na Boate Vogue. Segundo ele nunca existiu nada como a boate Vogue, lá o charme imperava, as mulheres tinham os cabelos penteados por Renauld do Copacabana Palace e os homens vestiam ternos do London Taylor's, em contraste com Antonio Maria de calças amarradas por um barbante e alpargatas, colarinho seboso, mas que envolvia a todos com seu papo sedutor e suas histórias bem humoradas. Copacabana era o território de Antonio Maria, lá conhecia tudo e registrou com retratos precisos e emocionados. Foi um cronista da noite Copacabana, ele era um homem da noite, é dele a celebre frase A NOITE É UMA CRIANÇA. Seu papo era espirituoso, sua conversa misturava carência, malícia e promessas, apresentando uma empatia e envolvia pela alegria exuberante, também presente em seus textos, um material rico para a rastrear as memórias daqueles anos dourados. Na Revista da Semana e na Manchete escreveu entre 1953 e 1956. De 1951 a 55, escreveu em O Jornal, dos Diários Associados, as colunas "A Noite é Grande" e "O jornal de Antonio Maria"; de 1955 a 59, estava em O Globo, a coluna "Mesa de Pista"; de 1959 a 61, na Última Hora, tinha duas colunas diárias: "Jornal de Antonio Maria" e "Romance Policial de Copacabana". De 1961 a 62 transferiu-se para o Diário da Noite, e de 1962 a 64 escreveu em O Jornal. Totalizando mais ou menos 3000 crônicas. Os textos de Antonio Maria são de leitura agradável, tem humor, ironia, vivacidade, clareza, carregados de espontaneidade, refletiam um estilo leve, mas também falava de relações intensas e dos sentimentos masculinos. As crônicas são um estilo literário marcante nesse momento, leve e rápido conectado com o cotidiano do Rio, das ruas, em particular, de Copacabana e da sua noite. Era um homem movido pela emoção, apesar de dizer-se apolítico, era crítico do governo Lacerda, menos pela postura política, mas pela ignorância do governador do viver carioca.
Nas suas crônicas não poupava a ninguém, até mesmo Vinicius de Morais, um dos amigos de boêmia andou levando suas farpas quando Antonio Maria se meteu no duelo com a bossa nova e viu o poeta na facção inimiga, ele bombardeou: "Se Vinícius abandonou o primeiro time de poesia para jogar no juvenil da música foi porque ele quis"11.
Amar e viver em Copacabana
Para além de toda essa produção, a música era sua realização. Seus primeiros trabalhos musicais foram frevos, toadas, xotes e dobrados, fez até embolada (Nós era sete), mas os destaques foram para os sambas canções centrados na temática da dor de cotovelo, recuperando os desencontros e desilusões amorosas. Em 1952, Nora Ney gravou a polêmica canção "Ninguém me ama", de Antonio Maria em parceria com Fernando Lobo, era sofisticado e até sombrio12.
Nos anos 50, amar era sinônimo de sofrer, cantado num estilo musical em voga nesse período - o samba-canção. Esses sambas falavam de amores impossíveis, paixões proibidas, infidelidades e esperas sem fim, o tema da dor de amor, do amor vencido pelas barreiras de toda sorte.
Antonio Maria foi porta-voz especial e sensível das inquietações e frustrações amorosas de seu tempo e lugar. Cantava e compunha sobre os rompimentos, descrevendo as experiências das noites passadas, entre goles de uísque e sambas-canções. Seus personagens - ele mesmo, no fundo - têm muito a ver com os freqüentadores assíduos de Copacabana
Das 62 composições de Antonio Maria gravadas, a maior parte foi sambas-canções, cantando a dor e amor, para alguns era uma técnica de sedução, para outros ele era realmente esse homem do seu tempo marcado pelas sensibilidades dessa época. Cada novo romance uma canção como "Suas Mãos" (1958) uma súplica de reconciliação com Dorothy Faggin (showgirl da Carlos Machado). "O amor e a Rosa" (1960) uma disputa amorosa com Sérgio Porto pelos carinhos de Rose Rondelli (do elenco da Mayrink Veiga, TV Rio e uma das certinhas do Lalau), e uma resposta a crônica de Sérgio "O Amante de Plantão".
Pode-se relacionar pelo menos 10 obras primas de Antonio Maria: "Ninguém me ama", "As suas mãos", "O amor a Rosa", "Menino Grande", "Se eu morresse amanhã", "Frevo número 1 do Recife", "Valsa de uma cidade", "Canção da Volta", "Manhã de Carnaval", contudo, nos estudos sobre música brasileira as referências ao seu nome são esporádicas e praticamente imperceptíveis. A Bossa Nova, gestada nas mesmas noites de Copacabana, procurando se impor enquanto novidade questionava o samba-canção e o atacava, particularmente como esse estilo cantava a dor, a desesperança. Criando a polêmica entre Antonio Maria e Ronaldo Boscoli. Boscoli chamava Antonio Maria de "o único mulato careca do Brasil", o apelidou de "Galak, o chocolate branco" e "Eminência Parda". Não tardaram as respostas causticas de Maria em "O Jornal", que divulgava vibrando o fracasso do show de bossa nova no Carnegie Hall. Os enfrentamentos com Antonio Maria poderiam ter finais inesperados, como no episódio da boate Duvivier no Beco das Garrafas, lá se apresentava um show de Bossa Nova, quando Maria resolveu tirar satisfações com Boscoli, na hora H, Aloysio Oliveira saindo em defesa do amigo, urinou nos pés de Maria, que frente ao inesperado caiu na gargalhada, mas tudo acabou "em samba", ou melhor, em uísque no Little Club.
As divergências poderiam ter parado aí, mas a turma de Boscoli escolheu Antonio Maria como vilão e ele como brigão aceitou. Apesar de tudo, pode-se reconhecer o diálogo de Antonio Maria com Carlos Lyra, Tom e Vinicius de Moraes, e com outros letristas da frase enxuta, bem como as influências da linguagem cinematográfica e da poesia coloquial que passavam a marcar suas composições. Nesse sentido, cabe destacar "Manhã de Carnaval" (1958), parceria com Luís Bonfá, para o filme Orfeu Negro14, já num estilo cool-and-happy.
Antonio Maria freqüentava os shows de Johnny Alf na boate Plaza; apoiou os novos arranjos feitos por Tom Jobim para seus sambas-canções, de 1952 e 53; praticamente lançou Nora Ney, com seu timbre elegante e extensão vocal curta, um estilo diferente para época; era amicíssimo de Vinicius e admirador de Tom Jobin; após suas composições com Ismael e Bonfá, sem assumir, ele se aproximava cada fez mais da Bossa Nova. Procuraram tirar a importância de Maria em outros dez sucessos pré-bossa novistas, em parceria com Ismael Neto, de Os Cariocas, quase todas em 1954, com ele compôs "Canção da Volta" e "Valsa de uma cidade", na qual a letra enxuta antecipa alguns versos da Bossa Nova:
Antes de tudo, ele era antenado com o seu tempo freqüentador da noite ouvia outros artistas e dialogava sobre o movimento com Vinicius e Dolores Duran, sua música foi se transformando, mas se sempre conectando com suas experiências afetivas e trajetória amores e desamores, aos poucos os desencontros amorosos foi deixando espaço para a paisagem do Rio, o olho da câmara cinematográfica e saindo da noite para o dia, focalizando o sol e o amanhecer, é o "Rio Amanhecendo", de 1954, depois desse ano faria pouco samba dor de cotovelo. "Carioca" de 1954 é encontro e a alegria de viver na voz de Dolores Duran:
Mas "Ninguém me ama" ficou, marcaria seu nome. Brasileiro Profissão Esperança Em outubro de 1964, Miguel Gustavo procurou Antonio Maria para um convite, a produção de um programa de TV, Maria respondeu com um bilhete: "Nome Antonio simples telefone 36 12 55, mas só até o dia 14 porque saio do ar...", parece que estava prevendo. Antonio Maria morreu de um enfarte fulminante no miocárdio na madrugada de 15 de outubro de 1964, na calçada da rua Fernando Mendes, em Copacabana, quando caminhava para o restaurante Le Rond Point, amigos saíram da boate O Cangaceiro e tentaram aplicar os primeiros socorros, mas em vão. Seu enterro no cemitério São João Batista foi acompanhado por centenas de pessoas. "Brasileiro: Profissão Esperança" foi um espetáculo que rememorou suas canções e crônicas e as músicas de Dolores: Antonio Maria e Dolores Duran se tivessem sido irmãos, não seriam tão parecidos. Os dois gostavam de viver mais de noite do que de dia, os dois faziam canções, os dois precisavam de amor para respirar, eram puxados pra gordo e, mesmo na hora da morte, os dois foram atingidos por um só inimigo: o coração. A obra que os dois deixaram, hoje espalhada pelos jornais e gravadoras do país, reflete essa indisfarçável identidade. Mas, prestando atenção nas coisas que eles disseram e escreveram e nas músicas que fizeram é que a gente descobre a expressão maior dessa semelhança: os dois se refugiavam do absurdo do mundo, que revelaram com humor e amargura, na desesperada aventura afetiva. O amor era o último reduto dos dois(15).
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