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Rio de Janeiro, Copacabana.COM Friday, 25-Jul-2008 13:39:28 BRT

Ai-de-ti Copacabana

História de Copacabana

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Rubem Braga


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Dentre os vários cronistas de século XX, Rubem Braga guarda um lugar de destaque na literatura brasileira. Maestro da palavra, Rubem Braga se notabilizou com algumas coletâneas e crônicas publicadas em jornais como o Correio da Manhã, Diário de Notícias, A Manhã e O Globo; que foram reunidas em obras-primas do gênero como O conde e o passarinho (sua primeira antologia), Com a FEB na Itália, A borboleta amarela e Ai de ti, Copacabana.

Ai de ti, Copacabana foi lançado em 1962 e traz 60 crônicas escritas entre abril de 1955 a fevereiro de 1960, período em que o escritor peregrinou, como ele mesmo afirma na nota introdutória da obra, “do Correio da Manhã foi para o Diário de Notícias e deste para a Globo.”

Como tema predominante em sua obra, cabe ressaltar o memorialismo, apresentado sob uma perspectiva emotiva, assumindo o indispensável travo de melancolia. Rubem Braga cria uma crônica poética, na qual alia um estilo próprio e um intenso lirismo, provocados pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma, pelas pessoas, pela natureza.

A obra abre com a crônica “A corretora do mar”, em que o poeta Rubem Braga relembra o dia em que ele rejeitou, inicialmente, uma proposta de compras de terras por ter “uma pena imensa de cortar árvores.” Para sua surpresa, ou como estratégia de venda, a vendedora compartilha desta opinião: “Também tinha (pena). E então baixou a voz, sombreou os olhos de poesia e me disse que ela mesma, corretora, também comprava duas parcelas naquele terreno. E tinha certeza que também não teria coragem de mandar cortar seus pinheiros.” Extasiado, não necessariamente pela oferta, mas pelos olhos azuis da vendedora, “confesso que paguei a primeira prestação: ela passou o recibo, sorriu, me disse “muchas gracias” e “hasta lueguito” e partiu com os olhos azuis, me deixando meio tonto, com a vaga impressão de ter comprado um pedaço do Oceano Pacífico.”

Lirismo igualmente intenso veremos também na crônica “A minha glória literária”, em que ele relembra uma composição de seu tempo de colégio sobre a lágrima: “Quando a alma vibra, atormentada, às pulsações de um coração amargurado pelo peso da desgraça, este, numa explosão irremediável, num desabafo sincero de infortúnios, angústias e mágoas indefiníveis, externa-se, oprimido, por uma gota de água ardente como o desejo e consoladora como a esperança; e esta pérola de amargura arrebata pela dor ao oceano tumultuoso da alma dilacerada é a própria essência do sofrimento: é a lágrima.”

“Quando o Rio não era Rio” apresenta também um belíssimo retrato de um Rio de Janeiro, então, para o autor, somente imaginário: “As pessoas grandes que chegavam do Rio traziam malas fabulosas, cheias de presentes para todos. (...) As coisas do Rio de Janeiro eram assim, cheias de milagres e astúcias. E à noite, quando vinham visitas, os viajantes contavam as últimas anedotas do Rio de janeiro, pois naquele tempo não havia rádio. Lembro-me que, apesar de sentir esse fascínio do Rio de Janeiro, eu não pensava nunca em vir aqui. Isso simplesmente não me passava pela cabeça; o Rio de Janeiro era um lugar maravilhoso, onde vinham pessoas grandes e até eu pensava vagamente que no Rio de Janeiro só devia haver pessoas grandes.”

Uma sutil ironia, sem deixar de lado o lirismo, pode ser identificado na belíssima crônica “A mulher esperando o homem”, em que o autor aborda o drama feminino quando na espera por seu amado, apesar de ser um tema recorrente, “sei que é velho, já serviu para sonetos, contos, páginas de romances, talvez quadros de pintura, talvez músicas”, Rubem Braga apresenta possibilidades de se diminuir o sofrimento pela espera do amado: “devia haver funcionários especiais, capazes de abastecer de quinze em quinze minutos, jurar que todas as providências já foram tomadas, ‘estamos seguros de que dentro de poucos minutos teremos alguma coisa a dizer à senhora”’. Um fato importante é o de que para o autor, independente da mulher, o sofrimento é significativo: “não importa que seja a esposa vulgar de um homem vulgar; e que no fim a história do atraso dele seja também vulgar, neste momento ela é a mulher esperando o homem”; e que se o homem soubesse o que se passa na cabeça de uma mulher enquanto ela o espera, “é possível que ele ficasse pálido, muito pálido.”



A crônica-título da obra é igualmente passível de ser comentada, visto a sua temática: a destruição da pecaminosa Copacabana.

Ai de ti, Copacabana

Rubem Braga

1. AI DE TI, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.

3. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniqüidades e de tua malícia.

4. Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.

5. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.

6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

7. E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska.

8. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

9. Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.

10. Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

11. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.

12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.

13. Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.

15. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?

16. Antes de te perder eu agravarei s tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.

17. E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.

18. E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas.

19. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará.

21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.

22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!

Rio, janeiro, 1958

Fonte:http://www.feranet21.com.br/


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